A terceira tarefa, dentro das Etapas da Iniciação — Navegar nas trevas

Nessa parte da história, o legado da mãe falecida  — a boneca  — orienta Vasalisa na travessia da escuridão até a casa de Baba Yaga. São as seguintes as tarefas psíquicas desse estágio:  consentir em se aventurar a penetrar no local da iniciação profunda (entrada na floresta) e começar a experimentar o sentimento numinoso novo e aparentemente perigoso de estar imersa no poder intuitivo. Aprender a desenvolver a sensibilidade ao inconsciente misterioso no que se relaciona ao direcionamento e confiar exclusivamente nos próprios sentidos interiores. Aprender o caminho de volta para a casa da Mãe Selvagem (obedecendo às instruções da boneca). Aprender a nutrir a intuição (alimentar a boneca). Deixar que a mocinha frágil e ingênua morra ainda mais. Transferir o poder  para a boneca, ou seja, para a intuição.

A boneca de Vasalisa pertence às provisões da Velha Mãe Selvagem. As bonecas são um dos tesouros simbólicos da natureza instintiva. No caso de Vasalisa, a boneca representa  vidacita, a pequena força da vida instintiva que tanto é feroz quanto resistente. Não importa o problema que estejamos enfrentando, ela leva uma vida oculta dentro de nós.
Durante séculos, os seres humanos tiveram a sensação de que das bonecas emanava algo de sagrado e de maná   — um pressentimento irresistível e impressionante que influencia as pessoas, fazendo com que mudem espiritualmente.
Por exemplo, louva-se a raiz da mandrágora por sua semelhança ao corpo humano, com pernas e braços de raízes e um nó retorcido no lugar da cabeça; diz-se também que ela é provida de grande poder espiritual. Acredita-se que as bonecas sejam impregnadas de vida por quem as criou. Elas são usadas em ritos, rituais, vodus, feitiços de amor e de maldade. Elas são empregadas como símbolos de autoridade e talismãs para lembrar à pessoa da sua própria força.
Os museus do mundo inteiro transbordam de ídolos e imagens feitas de barro, madeira e metais. As imagens dos períodos paleolítico e neolítico são bonecas. As galerias de arte estão repletas de bonecas. Na arte moderna, as múmias envoltas em gaze, em tamanho natural, de Segai, são bonecas. Bonecas típicas de cada etnia abarrotam as lojas de  souvenirs nas estações ferroviárias e nos postos de abastecimento das principais rodovias interestaduais. Entre os reis, as bonecas costumam ser dadas desde o passado remoto como sinais de simpatia. Nas igrejas rústicas pelo mundo inteiro há bonecas-santas. As bonecas-santas não só são limpas com regularidade e vestidas em trajes feitos à mão, mas também são “levadas a passear” para  que possam observar as condições dos campos e das pessoas e, portanto, interceder nos céus em defesa dos seres humanos.
A boneca representa os homunculi simbólicos, a pequena vida. É o símbolo do numinoso e está sufocado nos seres humanos. Ela é um fac-símile pequeno e luminoso do Self original. Superficialmente, trata-se apenas de uma boneca. Por outro lado, existe nela um pequeno fragmento da alma que possui todo o conhecimento do Self maior da alma. Na boneca está a voz, em miniatura, da velha La Que Sabe, Aquela Que Sabe.
A boneca está relacionada aos símbolos do duende, do elfo, da fada e dos anões. Nos contos de fadas, eles representam uma profunda pulsação de sabedoria dentro da cultura da psique. São eles aquelas criaturas que continuam o trabalho interior e prudente, que são incansáveis. Eles estão trabalhando mesmo quando nós adormecemos, e especialmente quando estamos dormindo, mesmo quando não temos plena consciência do papel que estamos desempenhando.

Dessa forma, a boneca representa o espírito  interior das mulheres: a voz da razão, do conhecimento e da conscientização íntima. A boneca assemelha-se ao passarinho dos contos de fadas que vem sussurrar no ouvido da heroína. Ele é quem revela o inimigo oculto e a atitude a tomar diante da situação. Essa é a sabedoria do homunculus, o pequeno ser interior. Ele é a ajuda que nem sempre está visível, mas que está sempre disponível.
Não há bênção maior que uma mãe possa dar à filha do que uma confiança na veracidade da sua própria intuição. A intuição é  transmitida de pai para filho da forma mais simples. “Você tem um bom raciocínio. O que você acha que está por trás disso tudo?” Em vez de definir a intuição como alguma peculiaridade irracional e censurável, ela é definida como a fala da verdadeira voz da  alma. A intuição prevê a direção mais benéfica a seguir. Ela se autopreserva, capta os motivos e intenções
subjacentes e opta pelo que irá provocar o mínimo de fragmentação na psique.
O processo é o mesmo no conto de fadas. A mãe de Vasalisa proporcionou um enorme privilégio à sua filha ao vincular a boneca a Vasalisa. O vínculo com nossa própria intuição propicia uma confiante dependência que resiste a tudo. Ele muda a diretriz da mulher de uma atitude de “o que será, será” para uma de “quero ver tudo o que há para ser visto”.
O que essa intuição selvagem faz pelas mulheres? Como o lobo, a intuição tem garras que abrem as coisas e as sujeitam; ela tem olhos que enxergam através dos escudos da  persona; ela tem ouvidos que ouvem sons fora da capacidade de audição do ser humano. Com essas espantosas ferramentas psíquicas, a mulher assume uma consciência animal astuta e até mesmo premonitória, que aprofunda sua feminilidade e aguça sua capacidade de se movimentar com confiança no mundo exterior.

Pois agora Vasalisa está a caminho da conquista da luz para o fogo. Está no escuro, na mata e não pode fazer mais nada a não ser prestar atenção à voz interior que provém da boneca. Ela está aprendendo a confiar nesse relacionamento, e está aprendendo ainda mais uma lição — a alimentar a boneca.
Como alimentar a intuição para que ela seja bem-nutrida e responda aos nossos pedidos de que esquadrinhe as cercanias? Nós a alimentamos de vida — ela se alimenta de vida quando nós prestamos atenção a ela. De que vale uma voz sem um ouvido que a receba? De que vale uma mulher na selva da megalópole ou no cotidiano da vida a não ser que ela possa ouvir a voz de La Que Sabe, Aquela Que Sabe, e nela confiar?
Já ouvi mulheres que disseram estas palavras, se não centenas, então milhares de vezes: “Eu sabia que devia ter seguido minha intuição. Pressenti que devia ou não devia ter feito isso ou aquilo, mas não lhe dei ouvidos.” Nutrimos o profundo self intuitivo ao prestar atenção a ele e ao agir de acordo com sua orientação. Ele é um personagem autônomo, um ser mágico, mais ou menos do tamanho de uma boneca que habita a terra psíquica da mulher interior. Nesse sentido, ele é como os músculos no corpo. Se um músculo não for usado, ele acaba definhando. A intuição é exatamente igual: sem alimento, sem atividade, ela se atrofia. A alimentação da boneca é um ciclo essencial da Mulher Selvagem  — aquela que é a guardiã de tesouros ocultos.

Vasalisa alimenta a boneca de duas formas. Primeiro, ao lhe dar um pedacinho de pão  — um pouco de vida para essa nova aventura psíquica; e, em segundo lugar, ao encontrar o caminho até a Velha Mãe Selvagem, a Baba Yaga, seguindo o que lhe diz a boneca… A cada curva e a cada bifurcação da estrada, a boneca mostra qual é o caminho para “casa”.
O relacionamento entre a boneca e Vasalisa simboliza uma forma de magia empática entre a mulher e a intuição. É isso o que deve passar de mulher para  mulher, essa atividade abençoada de se vincular à intuição, de testá-la e de alimentá-la. Nós, à semelhança de Vasalisa, fortalecemos nossos laços com nossa natureza intuitiva quando prestamos atenção à voz interior a cada curva da estrada. “Devo ir para esse lado ou para o outro? Devo ficar ou partir? Devo resistir ou ser flexível? Devo fugir disso ou correr na sua direção?  Essa pessoa, esse acontecimento, essa empreitada, é verdadeira ou falsa?”
O rompimento do vínculo entre a mulher e sua intuição selvagem é muitas vezes encarado erroneamente como se a própria intuição é que estivesse destruída.
Não é o que ocorre. Não foi  a intuição que se partiu, mas, sim, a bênção matrilinear da intuição, a transmissão da confiança intuitiva de todas as mulheres de uma linhagem, que já se foram, para aquela mulher específica  — é esse longo rio de antepassadas que foi represado. A compreensão da mulher da sua sabedoria intuitiva pode ser fraca em conseqüência do rompimento, mas com exercício ela poderá se restaurar e se manifestar em sua plenitude.  As bonecas servem de talismãs. Os talismãs são lembretes do que é sentido, mas não visto; do que existe, mas não é de evidência imediata. O  numen talismânico da boneca é o que nos recorda, o que nos diz, o que vê adiante de nós. Essa função intuitiva pertence a todas as mulheres. É uma receptividade maciça e fundamental. Não uma receptividade  do tipo alardeado no passado pela psicologia tradicional, que é como um recipiente passivo; mas, sim, uma receptividade como a da posse de acesso imediato a uma sabedoria profunda que atinge as mulheres até os próprios ossos.

Mulheres Que Correm Com Lobos, de Clarissa Estés.

Foto: Gedankenstuecke

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