A quarta tarefa — Encarar a Megera Selvagem

Nessa parte da história, Vasalisa encontra a Megera Selvagem pessoalmente. As tarefas desse encontro são as seguintes: ser capaz de suportar o rosto apavorante da Deusa Selvagem sem hesitar (topar com a Baba Yaga);familiarizar-se com o mistério, a estranheza, a “alteridade” do selvagem (residir na casa de Baba Yaga por algum tempo); adotar nas nossas vidas alguns dos seus valores, tornando-nos, portanto, também um pouco estranhas (comer seus alimentos); aprender a encarar um poder enorme nos outros e subseqüentemente nosso próprio poder; permitir que a criança frágil e boazinha em excesso vá definhando ainda mais.

Baba Yaga mora numa casa que descansa sobre pernas de galinha. Ela gira e dá voltas quando bem entende. Nos sonhos, o símbolo da casa reflete a organização do espaço psíquico habitado por uma pessoa, tanto no consciente quanto no inconsciente. Por ironia, se esse fosse um sonho compensatório, a casa excêntrica insinuaria que o sujeito, nesse caso Vasalisa, é por demais insignificante, moderado e precisa sair girando e rodopiando para descobrir como é dançar como uma galinha maluca de vez em quando.
Percebemos, então, que a casa da Yaga pertence ao mundo animal e que Vasalisa precisa desse elemento na sua personalidade. Essa casa de pernas de galinha anda de um lado para o outro e até rodopia numa dança saltitante. Essa casa é um ser vivo, transbordante de entusiasmo, de alegria e vivacidade. É esse o principal alicerce da psique da Mulher Selvagem, uma força de vida selvagem e alegre, na qual as casas dançam, os seres inanimados, como por exemplo os pilões, voam como pássaros, a velha sabe fazer mágica e nada é o que parece, mas na maioria dos casos é melhor do
que parecia a princípio.
Vasalisa começou com o que poderíamos chamar de  personalidade normal nivelada. É exatamente esse “excesso de normalidade” que vai nos contaminando até que tenhamos uma vida rotineira e sem vida, sem que fosse isso o que realmente pretendêssemos. Essa situação estimula a negligência para com a intuição que, por  sua vez, produz a falta de luz na psique. Precisamos, então, fazer alguma coisa. Precisamos sair pela mata adentro, ir procurar a mulher apavorante, se não um dia, quando estivermos andando cabisbaixas pela rua, uma tampa de esgoto pode se abrir de repente e nós seremos agarradas por algum ser inconsciente que nos jogará de um lado para o outro como um trapo — de brincadeira ou não; na maioria dos casos, não, mas com um bom resultado.

A doação da boneca intuitiva pela doce mãe verdadeira não está completa sem as tarefas e as provas apresentadas pela Velha Selvagem. Baba Yaga é a medula da Mulher Selvagem. Descobrimos isso a partir do seu conhecimento de tudo que aconteceu antes. “Ah, sei”, diz ela quando Vasalisa chega. “Conheço você e seu pessoal.” Além disso, à semelhança das suas outras encarnações como a Mãe dos Dias e Mãe Nyx (Mãe Noite,  a Deusa da Vida-Morte-Vida), a velha Baba Yaga é a guardiã dos seres da terra e dos céus: o Dia, o Sol Nascente e a Noite. Ela os chama de “meu Dia, minha Noite”.
Baba Yaga é assustadora por ser ela própria o poder da aniquilação e o poder da força da vida ao mesmo tempo. Contemplar seu rosto é ver a  vagina dentada, olhos de sangue, o recém-nascido perfeito e as asas dos anjos, todos juntos.

Vasalisa está parada ali e aceita a divindade da mãe selvagem, com verrugas e tudo o mais. Uma das facetas mais notáveis da Yaga retratada nessa história está no fato de que, embora ela faça ameaças, ela é justa. Ela não fere Vasalisa enquanto Vasalisa demonstra respeito  por ela. A atitude de respeito diante de um poder extremo é uma lição fundamental. A mulher precisa ser capaz de se manter diante do poder, porque em última análise alguma parte desse poder passará às suas mãos.
Vasalisa encara Baba Yaga não com atitude obsequiosa, não com arrogância ou cheia de fanfarronice, nem fugindo ou se escondendo. Ela se apresenta com honestidade, exatamente como é.
Muitas mulheres estão se recuperando dos seus complexos de “ser boazinhas”, nos quais, independente de como se sentissem, independente do que as acossasse, elas reagiam de uma forma tão doce a ponto de ser praticamente humilhante.
Embora elas pudessem sorrir gentis durante o dia, à noite rangiam os dentes como
bestas — era a Yaga na sua psique lutando para se expressar.
Esse excesso de adaptação na mulher “boa demais” ocorre muitas vezes quando ela tem um medo desesperado de se ver privada dos seus direitos ou de que a considerem “desnecessária”.

Dois dos sonhos de maior impacto que eu já ouvi foram os de uma mulher que decididamente precisava ser menos submissa. No primeiro sonho, ela herdava um álbum de fotografias — um álbum especial com fotos da “Mãe Selvagem”. Ela ficou muito feliz até a semana seguinte quando sonhou que abria um álbum parecido e ali estava uma velha horrível que olhava para ela. A megera tinha os dentes sujos de musgo, e do seu queixo escorria o negro sumo do bétele.

Seu sonho é típico das mulheres que estão se recuperando de ser boas demais. O primeiro sonho demonstra um aspecto da natureza selvagem — o aspecto benévolo e generoso, tudo o que corre bem no seu mundo. No entanto, quando a Mulher Selvagem toda pegajosa lhe é apresentada, bem, epa, uhmm… será que não podíamos adiar um pouco essa parte? A resposta é não.
O inconsciente, ao seu modo brilhante, oferece a quem sonha uma idéia sobre um novo estilo de vida que não se restringe ao sorriso frontal e fácil da mulher “boazinha demais”. Encarar o poder selvagem em nós mesmas é ganhar acesso aos inúmeros rostos do feminino oculto. Eles nos pertencem  de modo inato e podemos optar por incorporar os que nos forem mais convenientes a qualquer momento.
Nesse drama de iniciação,  Baba Yaga é a Mulher Selvagem sob o disfarce da bruxa. À semelhança do termo “selvagem”, o termo “bruxa” veio a ser compreendido como  um pejorativo, mas antigamente ele era uma designação dada às benzedeiras tanto jovens quanto velhas, sendo que a palavra “witch” (bruxa, em inglês) deriva do termo “wit”, que significa “sábio”. Isso, antes que as religiões monoteístas suplantassem as antigas religiões da Mãe Selvagem.

De qualquer maneira, porém, a ogra, a bruxa, a natureza selvagem e quaisquer outras criaturas e aspectos que a cultura considera apavorantes nas psiques das mulheres são exatamente as bênçãos que elas mais precisam resgatar e trazer à superfície.
Boa parte da literatura sobre o tema do poder das mulheres afirma que os homens têm medo desse poder. Sempre tenho vontade de protestar, “Pelo amor de Deus! São tantas as mulheres que têm, elas mesmas, medo do poder das mulheres.” É que as  antigas qualidades e forças femininas são imensas e causam espanto. É compreensível que, na primeira vez que se deparam pessoalmente com os Antigos Poderes Selvagens, tanto os homens quanto as mulheres lancem um olhar ansioso e dêem o fora; tudo o que se vê deles são patas que voam e rabos assustados.
Se quisermos que um dia os homens cheguem a aprender a suportar esse encontro, então sem sombra de dúvida as mulheres têm de aprender a suportá-lo. Se quisermos que os homens um dia cheguem a compreender as mulheres, elas próprias terão de lhes ensinar as configurações do feminino selvagem. Com essa finalidade, a função de criação dos sonhos na psique traz a Yaga e todo o seu bando para dentro do quarto das mulheres à noite durante os sonhos. Se tivermos sorte, a Yaga deixará suas pegadas grandes e largas no tapete ao lado da nossa cama. Ela virá espionar aquelas que não a conhecem. Se estivermos atrasadas na nossa iniciação, ela se pergunta por que não vimos visitá-la e, para compensar, vem ela mesma nos visitar em sonhos noturnos.

Uma mulher com quem trabalhei sonhava com mulheres usando longas camisolas esfarrapadas, comendo, felizes, coisas que nunca seriam encontradas no cardápio de um restaurante. Outra mulher sonhou com uma velha que tinha o formato de uma banheira antiga com pés que fazia matraquear seus canos e ameaçava estourá-los se a mulher que sonhava não derrubasse uma parede para que a banheira pudesse “ver”. Ainda outra mulher sonhou que ela era uma de três velhas cegas, só que ela estava sempre perdendo sua carteira de motorista e tinha sempre de deixar o grupo para ir à procura do documento. Em outras palavras, ela sentia muita dificuldade para se manter identificada com as três Parcas — as forças que orientam a vida e a morte na psique. Com o tempo, no entanto, ela aprendeu a suportar, aprendeu a se manter próxima da sua própria natureza selvagem.
Todas essas criaturas nos sonhos recordam à mulher que sonha a sua identidade elemental: seu Self Yaga, a força enigmática e intensa da mãe da vida-morte-vida. É, estamos afirmando que ser semelhante à Yaga é bom, e que nós precisamos ser capazes de nos acostumar. Ser forte não significa desenvolver os músculos e exercitá-los. Significa, sim, encontrar nossa própria numinosidade sem fugir, convivendo ativamente com a natureza selvagem ao nosso próprio modo.
Significa ser capaz de aprender, e ser capaz de agüentar o que sabemos. Significa manter-se firme e viver.

Mulheres Que Correm Com Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

Foto: Gfoster67

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