A sexta tarefa — Separar isso daquilo

Nessa parte da história, Baba Yaga exige de Vasalisa duas tarefas muito difíceis. As tarefas psíquicas da mulher são as seguintes:  aprender a discriminar meticulosamente, a separar as coisas umas das outras com o melhor discernimento; aprender a fazer distinções sutis (ao escolher o milho mofado do milho são e ao selecionar as sementes de papoula de um monte de estrume); observar o poder do inconsciente e como ele funciona mesmo quando, o ego não está familiarizado (os pares de mãos que aparecem no ar); aprender mais sobre a vida (o milho) e a morte (as sementes de papoula).

Pede-se a Vasalisa que separe quatro substâncias, o milho mofado do milho são, e as sementes de papoula do estrume. A boneca intuitiva realiza essa separação. Às vezes,  esse processo de separação ocorre num nível tão profundo que ele mal chega ao nosso consciente, até que um dia…
A separação relatada nessa história é do tipo que surge quando nos deparamos com um dilema ou com uma pergunta, mas sem que nos ocorram muitas  idéias que nos ajudem a resolver a questão. Se a deixamos em paz, no entanto, e voltamos mais tarde a ela, pode ser que uma boa solução esteja à nossa espera ali onde antes não havia nada. Ou “vá dormir, veja com que vai sonhar”, e talvez a velha de dois milhões de anos chegue das trevas para visitá-la. Talvez ela traga a solução, ou mostre que a resposta está bem abaixo da sua cama, dentro do seu bolso, num livro ou atrás da sua orelha. É um fenômeno o fato de uma pergunta feita quando a pessoa vai dormir,  com a prática, suscitar uma resposta quando a pessoa desperta. Existe algo na psique, algo da boneca selvagem, algo que fica por baixo, acima ou dentro do inconsciente coletivo que separa os materiais enquanto dormimos e sonhamos.21  E confiar nessa qualidade também faz parte da natureza selvagem.
O milho mofado tem dois significados. Sob a forma de bebida, o milho mofado pode ser usado tanto como inebriante quanto como medicamento. Existe um fungo chamado carvão do milho  — um fungo preto bastante peludo que se encontra no milho mofado — que também tem a reputação de ser alucinógeno.
Vários estudiosos aventaram a hipótese de que alucinógenos originados do trigo, da cevada, da papoula ou do milho teriam sido usados nos antigos ritos das deusas elêusicas na Grécia. Além disso, a separação do milho que a Yaga pede à Vasalisa que faça também está relacionada à coleta de plantas medicinais pelas curanderas, as velhas benzedeiras que ainda hoje podem ser vistas nessa atividade em toda a América Central e do Sul. Vemos os antigos remédios e tratamentos das benzedeiras também na semente de papoula, que é um soporífero e um barbitúrico, assim como no estrume, que foi usado desde tempos remotos e ainda é usado hoje em dia em cataplasmas e como envoltórios, banhos e até mesmo para ingestão sob certas circunstâncias.
Essa é uma das mais belas passagens da história. O milho são, o milho mofado, a semente de papoula e o estrume são todos remanescentes de uma antiga farmácia medicinal. Eles são usados como bálsamos, ungüentos, infusões e cataplasmas para manter outros medicamentos em contato com o corpo e, como metáforas, eles também são remédios para a mente. Alguns nutrem, outros relaxam; alguns causam languidez, outros são estimulantes. São facetas dos ciclos da vida-morte-vida.

Baba Yaga não está só pedindo que Vasalisa separe isso daquilo, que aprenda a diferença
entre coisas de natureza semelhante  — como, por exemplo, o amor verdadeiro do falso, ou a vida revigorante da vida desperdiçada  —, mas está pedindo também que Vasalisa distinga um medicamento do outro.
Como os sonhos, que podem ser compreendidos no nível objetivo mas que ainda retêm uma realidade subjetiva, esses elementos alimentícios/medicinais também representam para nós uma orientação simbólica. Como Vasalisa, temos de escolher nossos agentes medicinais psíquicos; temos de escolher muito para compreender que o alimento da psique também é o medicamento da psique, e temos de extrair a verdade, a essência desses elementos para nossa própria nutrição.
Todos esses elementos e tarefas estão transmitindo a Vasalisa ensinamentos sobre a natureza da vida-morte-vida, o toma-lá-dá-cá dos cuidados com a natureza selvagem. Às vezes, com o objetivo de aproximar uma mulher da natureza da vida-morte-vida, eu lhe peço que cuide de um jardim, seja ele psíquico, seja ele de lama, estrume e verdura, bem como de todas as coisas que cercam, ajudam e atacam, pois ele representa a psique selvagem. O jardim é um vínculo concreto com a vida e a morte. Seria mesmo possível dizer que existe uma religião dos jardins, pois eles nos ensinam profundas lições espirituais e psicológicas. Qualquer coisa que possa acontecer a um jardim pode acontecer à alma e à psique — excesso de água, falta de água, pragas, calor, tempestades, enchentes, invasões, milagres, ressecamento, reverdecimento, bênçãos, cura.
Durante a existência do jardim, a mulher escreve um diário, registrando os sinais de doação de vida e de retirada de vida. Cada registro ajuda a formar uma sopa psíquica. No jardim, adquirimos prática para deixar que pensamentos, idéias, preferências, desejos e até mesmo amores vivam e morram. Plantamos, arrancamos, enterramos. Secamos sementes, fazemos a semeadura, protegemos as plantinhas.
O jardim é uma prática de meditação, a de dizer a hora de alguma coisa morrer. No jardim, podemos ver chegar a hora de desfrutar e a hora da regressão. No jardim, estamos nos movendo de acordo com a inspiração e a expiração da grande natureza selvagem, não contra ela.
Através dessa meditação, reconhecemos que o ciclo da vida-morte-vida é natural. Tanto o lado da mulher selvagem que dá a vida quanto aquele que distribui a morte estão esperando um contato amigo, esperando ser amados para sempre. Nesse processo, nós nos tornamos como a natureza selvagem cíclica. Temos a capacidade de infundir energia e reforçar a vida, sem atrapalhar o que vai morrer.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pinkola Estés.

Foto: Joel Abroad

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