A MÃE CRIANÇA E A MÃE SEM MÃE

A mãe pata, como podemos ver, é m uito simplória e ingênua. O tipo mais comum de mãe frágil é de longe o da mãe sem mãe. Na história, aquela que insiste tanto em ter filhotes acaba rejeitando seu filho. Existem muitos motivos para que uma mãe psíquica e/ou concreta aja dessa forma. Pode ser que ela própria seja uma mulher sem mãe. Ela pode ser uma dessas mães frágeis, psiquicamente muito jovens ou muito ingênuas.

Ela pode se sentir tão deslocada sob o aspecto psíquico que se considere não merecedora até do amor do seu bebê. Ela pode ter sido tão torturada pela família e pela cultura que não se consiga imaginar digna de chegar aos pés do arquétipo da “mãe radiante” que acompanha cada nova gestação. Não há como escapar: a mãe precisa receber a atenção materna para dar atenção à sua própria prole. Embora a mulher tenha um vínculo físico e espiritual inalienável com seus rebentos, no mundo instintivo da Mulher Selvagem, ela simplesmente não se transforma de repente numa mãe temporal completa por si mesma.
Nos velhos tempos, as bênçãos do arquétipo da Mulher Selvagem eram normalmente transmitidas pelas mãos e palavras da mulher que auxiliava as mães mais jovens. Especialmente as mulheres que estão sendo mães pela primeira vez têm dentro de si, não uma velha experiente, mas uma mãe-criança. A mãe-criança pode ter qualquer idade, seja dezoito, seja quarenta, não importa. Toda nova mãe começa como mãe-criança. Ela tem a idade suficiente para procriar e tem bons instintos que a orientam corretamente, mas ela precisa da atenção de uma mulher mais velha, ou de várias mulheres, que basicamente lhe dê sugestões, estímulo e apoio no cuidado com os  filhos.
Durante muitos séculos, esse papel coube às mulheres mais velhas da tribo ou da aldeia. Essas “deusas-mães” humanas, que mais tarde foram relegadas pela religião ao papel de “madrinhas”, compunham um sistema básico de nutrição de-mulher-para-mulher que apoiava em especial as mães jovens, ensinando-lhes a alimentar, por sua vez, as psiques e as almas dos seus filhos. Quando o papel da deusa-mãe ficou mais intelectualizado, a “madrinha” passou a representar aquela que se certificava de que a criança não se afastaria dos preceitos da Igreja. Muito se perdeu nessa mudança.
As mulheres mais velhas eram os repositórios do comportamento e do conhecimento instintivo e podiam transmitir os mesmos para as jovens mães. As mulheres passam esse conhecimento de uma para a outra por meio de palavras, mas também por outros meios. Mensagens complexas acerca do que ser e de como ser são simplesmente transmitidas com um olhar,  um toque com a palma da mão, um sussurro ou um tipo especial de abraço que diz “sinto carinho por você”.
O self instintivo sempre abençoa e ajuda quem vem depois. É assim que funciona entre criaturas saudáveis e entre seres humanos saudáveis. Desse modo, a mãe-criança é levada pelo portal adentro, sendo acolhida pelo círculo de mães maduras, que lhe dão as boas-vindas com piadas, presentes e histórias.
Esse círculo de mulheres foi outrora o domínio da Mulher Selvagem, e era aberto a quem dele quisesse participar. Absolutamente qualquer uma tinha essa  possibilidade. No entanto, tudo o que sobrou dele nos nossos dias é um farrapinho chamado “chá-de-bebê” em que são comprimidas no espaço de duas horas todas as piadas sobre partos — dons maternos e as histórias  sobre os órgãos genitais, que não se encontrarão mais disponíveis para a mulher durante toda a sua vida de mãe.
Na maioria dos países industrializados, hoje em dia, a jovem mãe choca, dá à luz e tenta beneficiar seus filhos completamente só. Trata-se de uma tragédia de enormes proporções. Como muitas mulheres nasceram de mães frágeis, mães-crianças e mães sem mãe, elas próprias podem possuir um modelo interno semelhante de “automatemagem”.
É provável que a mulher que tem um constructo de mãe-criança ou de mãe sem mãe na sua psique ou que veja essa imagem ser glorificada na sua cultura e mantida no trabalho e na família sofra de pressentimentos ingênuos, de uma falta de experiência e, em especial, de uma redução da sua capacidade instintiva para imaginar o que irá acontecer daqui a uma hora, uma semana, um mês, um ano, cinco ou dez anos.
Uma mulher com uma mãe-criança interna assume a aura de uma criança que finge ser mãe. A mulher nesse estado muitas vezes tem uma atitude indiscriminada de “vivas” a qualquer  coisa, uma espécie de atenção maternal exagerada que a leva a querer fazer e ser tudo para todos. Ela não é capaz de orientar e apoiar seus filhos mas, como as crianças da fazenda na história do patinho feio, que sentem uma alegria intensa por ter um animalzinho em casa mas não sabem cuidar direito dele, a mãe-criança acaba deixando o filho maltratado e em péssimas condições. Sem que o perceba, a mãe-criança tortura seu filho com diversas formas de atenção destrutiva e, em alguns casos, de falta de atenção.
Às vezes, a mãe frágil é, ela mesma, um cisne criado no meio dos patos. Ela não conseguiu descobrir sua identidade verdadeira cedo o suficiente para ajudar sua prole. Mais tarde, quando sua filha se depara com o enorme mistério da natureza selvagem do feminino na adolescência, a mãe também se descobre em meio a crises de solidariedade e a impulsos típicos de cisne. A procura da filha por sua própria identidade Pode até mesmo, finalmente, dar início à “viagem inaugural” da mãe em busca do seu self perdido.  Nessa casa, portanto, entre mãe e filha, haverá dois espíritos selvagens escondidos no porão, de mãos dadas, esperando que os chamem para cima.
São essas as coisas que podem dar errado quando a mãe é isolada da sua própria natureza instintiva. No entanto,  não dêem suspiros tão fortes ou tão longos, pois existe remédio para tudo isso.

Mulheres Que Correm Com Lobos, de Clarissa Pínkola Estés

Foto: Zen

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