As águas claras: O sustento da vida criativa

A criatividade é um mutante. Num momento, ela assume uma forma;no instante seguinte, uma outra. Ela é como um espírito deslumbrante que aparece para todas nós, sendo, porém, difícil de descrever já que não existe acordo a respeito do que as pessoas vislumbram no seu clarão cintilante. Será que o emprego de pigmentos e telas, ou de lascas de tinta e papel de parede, é comprovação da sua existência? E o que dizer da pena e do papel, de bordas floridas no caminho do jardim, da criação de uma universidade? É, isso mesmo. E de  passar bem um colarinho, de criar uma revolução?

Também. Tocar com amor as folhas de uma planta, reduzir a importância de certas preocupações, dar nós no tear, descobrir a própria voz, amar alguém profundamente? Também. Segurar o corpo morno do recém-nascido, criar um filho até a idade adulta, ajudar a reerguer uma nação derrotada? Também. Cuidar do casamento como do pomar que ele é, escavar à procura do ouro psíquico, descobrir a palavra perfeita, fazer uma cortina azul? Tudo isso pertence à vida criativa. Todos esses atos provêm da Mulher Selvagem, de Río Abajo Río, do rio abaixo do rio, que não pára de correr para dentro da nossa vida.
Alguns dizem que a vida criativa está nas idéias; outros, que ela está na ação.
Na maioria dos casos, ela parece estar num ser simples. Não se trata do virtuosismo, embora não haja nada de errado com ele. Trata-se de amor por algo, de sentir tanto amor por algo  — seja por uma pessoa, uma palavra, uma imagem, uma idéia, pelo país ou pela humanidade — que tudo o que pode ser feito com o excesso é criar. Não é uma questão de querer; não é um ato isolado da vontade. Simplesmente é o que se precisa fazer.
A força criadora escorre pelo terreno da nossa psique à Procura de depressões naturais, os arroyos, os canais que existem em nós. Nós nos tornamos seus afluentes e sua bacia. Somos suas piscinas naturais, suas represas, córregos e santuários. A força criadora selvagem escorre para todos os leitos de que dispomos, aqueles com que nascemos bem como aqueles que escavamos com nossas próprias mãos. Não temos de enchê-los. Basta que os formemos.
Na tradição arquetípica, existe a idéia de que, se prepararmos um local psíquico especial, o ser, a força criadora, a fonte da alma irão ouvir falar dele, descobrir o caminho até ele e habitá-lo. Quer essa força seja invocada por palavras bíblicas “vá e prepare um local para a alma”, quer aconteça como no filme O campo dos sonhos,no qual um fazendeiro ouve uma voz sugerindo que construa um campo de beisebol para os espíritos de jogadores falecidos, “Se você construir o campo, eles virão”, o preparo de um local adequado estimula a grande criadora a avançar.
Uma vez que esse imenso rio subterrâneo tenha encontrado seus estuários e afluentes na nossa psique, nossa vida criadora tem cheias e vazantes, sobe e desce com as estações, exatamente como um rio natural. Esses ciclos propiciam que as coisas sejam criadas, alimentadas, que recuem e definhem, tudo a seu próprio tempo e repetidas vezes.
Criar algo num certo ponto do rio alimenta quem vem até ele, nutre animais que estão bem à jusante e ainda outros que estão nas profundezas. A criatividade não é um movimento solitário. Nisso reside seu poder. O que quer que seja tocado por ela  e quem quer que a ouça, que a veja, que a sinta, que a conheça serão alimentados. É por isso que a observação da idéia, da imagem, da palavra criadora de outra pessoa nos preenche e nos inspira para nosso próprio trabalho criativo. Um único ato de criação tem o potencial de alimentar um continente. Um ato de criação pode fazer com que uma corrente abra caminho pedra adentro.
Por esse motivo, a capacidade criadora da mulher é seu trunfo mais valioso, pois ela é generosa com o mundo externo e nutre a mulher internamente em todos os níveis: psíquico, espiritual, mental, emocional  e econômico. A natureza selvagem derrama-se em possibilidades ilimitadas, atua como um canal de vida, revigora, mitiga a sede, sacia a nossa fome pela vida profunda e selvagem. Seria ideal que esse rio criador não fosse represado, não sofresse desvios nem fosse mal utilizado.
O rio da Mulher Selvagem nos alimenta e faz com que nos tornemos seres semelhantes a ela: a que dá a vida. Enquanto criamos, esse ser misterioso e selvagem está nos criando em troca, está nos enchendo de amor. Somos atraídas como os animais são atraídos pelo sol e pela água. Ficamos tão vivas que retribuímos distribuindo vida. Produzimos rebentos, florescemos, nos dividimos e nos multiplicamos, impregnamos, incubamos, comunicamos, transmitimos.
É óbvio que a criatividade emana de algo que surge, cresce, toma impulso, se avoluma e se derrama para dentro de nós em vez de ser algo que simplesmente fica parado em algum ponto à espera de que possamos, não importa depois de quantos rodeios, encontrar algum meio de chegar até ele. Nesse sentido, jamais podemos “perder” nossa criatividade. Ela está sempre ali, preenchendo-nos ou então entrando em colisão com quaisquer obstáculos que sejam colocados no seu caminho. Se ela não descobrir nenhuma abertura até nós, ela recua, acumula energia e investe novamente até conseguir abrir passagem. Os únicos meios para podermos evitar sua insistente energia consiste em construir continuamente obstáculos contra ela ou permitir que ela seja envenenada pela negligência e pelo negativismo destrutivo.
Se ansiamos pela energia criadora, se temos problemas para alcançar os aspectos férteis, imaginativos, formadores de idéias, se temos dificuldade para nos concentrarmos no nosso sonho pessoal, para agir de acordo com ele ou para garantir sua execução, então alguma coisa deu errado no ponto de união das águas das cabeceiras e dos afluentes de um rio. Ou pode ser que as águas criadoras estejam correndo por um meio poluente no qual as formas de vida da imaginação são eliminadas antes que possam atingir a maturidade. Com  enorme freqüência, quando uma mulher se vê despojada da sua vida criativa, todas essas circunstâncias estão no cerne da questão.
Já que a Mulher Selvagem é Río Abajo Río, o rio por baixo do rio; quando ela corre dentro de nós, nós corremos. Se a abertura dela até nós for bloqueada,  ficamos bloqueadas. Se sua corrente estiver envenenada pêlos nossos próprios complexos negativos internos ou pelas pessoas que nos cercam, os delicados processos que forjam nossas idéias também ficam poluídos. Passamos, então, a ser como um rio que morre. Isso não é coisa ínfima, a ser ignorada. A perda do nítido fluxo criador constitui uma crise psicológica e espiritual.
Quando um rio está poluído, tudo começa a definhar porque tudo depende de tudo o mais. Num rio de verdade, os juncos às suas margens ficam marrons por falta de oxigênio, o pólen não consegue encontrar nada que tenha vibração suficiente para ser fecundado, as tanchagens caem, não deixando em suas raízes nenhum berço para os nenúfares, nos salgueiros não crescem amentilhos, as salamandras não encontram parceiros e as efeméridas não procriam. Com isso, os peixes não saltam, as aves não mergulham e os lobos e outros animais que vêm se renovar no rio seguem adiante ou  morrem por beber água envenenada ou por comer presas que se alimentaram das plantas que morrem à beira d’água.
Quando a criatividade fica estagnada de alguma forma, o resultado é sempre o mesmo: uma fome desesperada pelo novo, um enfraquecimento da fecundidade, uma falta de espaço para as formas menores de vida se localizarem nos interstícios das formas maiores de vida, uma impossibilidade de que uma ideia fertilize uma outra, nenhuma ninhada, nenhuma vida nova. Nessas circunstâncias, sentimo-nos doentes e queremos seguir adiante. Vagueamos sem  destino, fingindo poder sobreviver sem a exuberância da vida criativa, mas não podemos nem devemos. Para trazer de volta a vida criativa, as águas têm de ficar claras e límpidas de novo. Precisamos entrar na lama, purificá-la dos elementos contaminadores, reabrir passagens, proteger a corrente de danos futuros.
Entre os povos de língua espanhola, existe uma antiga história intitulada La Llorona, (A Chorona). Dizem que ela teve origem no início do século XVI, quando os conquistadores espanhóis atacaram os  povos asteca/náuatle do México, mas ela é muito anterior a esse período. Ela é a história do rio da vida que se tornou um rio da morte. A protagonista é uma obsessiva mulher do rio que é fértil, generosa e que sabe criar a partir do seu próprio corpo. Ela  é pobre, surpreendentemente linda, mas rica de alma e de espírito.
La Llorona é uma história estranha, pois continua a evoluir com o passar do tempo como se tivesse uma imensa vida interior toda sua. Como uma enorme duna de areia que se move pela terra, engolindo o que estiver no caminho, aproveitando tudo de tal maneira que a terra pareça pertencer ao seu próprio corpo, essa historia se vale das questões psíquicas relativas a cada geração. Às vezes, a história de  La Llorona é contada como se fosse um relato sobre Ce. Malinalli ou Malinche, a mulher nativa de quem se diz ter sido tradutora e amante do conquistador espanhol Hemán Cortês.
No entanto, a primeira versão de  La Llorona que ouvi a descrevia como protagonista numa guerra desagregadora nos bosques do norte, onde cresci. Da segunda vez que ouvi essa história,  La Llorona estava enfrentando um antagonista envolvido no repatriamento forçado de mexicanos dos Estados Unidos na década de 1950. Ouvi, também, a história em inúmeras versões no sudoeste do país, sendo que uma delas provinha de antigos lavradores espanhóis assentados em terras doadas pelo governo, e nela a protagonista estava envolvida nas guerras desse tipo de assentamento no Novo México: um rico incorporador tirava proveito de uma filha de espanhóis pobres, porém linda.
Ultimamente, recolhi mais três versões, sendo a primeira uma história de terror:  La Llorona  perambula à noite uivando num parque de estacionamento de trailers. A segunda é uma história de uma prostituta contaminada com o vírus da AIDS: La Llorona exerce sua profissão no Town River em Austin. A última versão, uma versão espantosa, me foi transmitida por uma criança. Primeiro, vou relatar o enredo genérico dos grandes contos da  La Llorona  e, em seguida, a variante mais recente e surpreendente dessa história.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Fables98

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