Entrega ao conhecimento natural

Quando abrimos mão de nossas conclusões a respeito de como as coisas devem funcionar, e do que é ou não bem-sucedido, oferecemos a nós mesmos o presente da “mente do iniciante”, do Zen Budismo, permitindo-nos ver a vida de maneiras novas e sadias. Sem nenhum viés, podemos ver o nosso mundo com os olhos daquele que Emmet Fox denomina “a criança maravilhosa”, e C. G. Jung, chama de “a criança Divina”. Talvez seja isso que o Cristo encarnado quis dizer quando sugeriu que a pessoa tinha de se tornar “uma criancinha” para entrar no estado de consciência denominado paraíso. Talvez isso nos leve àquilo que o biólogo Lyall Watson chama conhecimento natural. Nós sabemos — apenas esquecemos que sabemos. A entrega nos leva à lembrança.

O conhecimento natural é conhecimento intuitivo. Não se trata de entender tudo a partir de uma informação disponível, o que apenas nos leva a dar voltas e mais voltas, reorganizando os fatos conhecidos numa embalagem preconcebida. Aquele que conhece naturalmente compreende as coisas recebendo o conhecimento da sua qualidade de ser à medida que este interage com todos os outros seres. De que outro modo podemos intuir a presença de Deus?
A intuição é uma forma da mente superior, àquela que chamamos de pensamento. Ela engloba ao mesmo tempo as funções do cérebro esquerdo e as do direito. Ela inclui a sabedoria do coração assim como a lógica. Inclui o conhecimento do específico “masculino” e do conectivo “feminino”. Ela não só indaga o que uma coisa é em si mesma mas também qual é o seu relacionamento com o todo. O conhecimento natural não tem de escolher entre os dois. A mente analítica diz: “Aqui está uma sala, aqui é o teto, o chão, a escrivaninha, a lâmpada.” A mente intuitiva diz: “Estou vendo. Agora, como é que eles estão relacionados e o que é que isso significa?”
Uma vez, o Espírito me disse que uma intuição desenvolvida era a marca de uma inteligência integrada, na qual todos os aspectos da mente — o cérebro reptílico e límbico, o cérebro direito, imaginativo, e o cérebro esquerdo, analítico — interagem com o mundo num nível de entendimento impossível para uma só porção. A intuição é uma expressão superior do conhecimento mediúnico porque ela não tem de se separar do eu como um todo para compreender as coisas. No conhecimento natural, não temos de executar uma cirurgia de divisão do cérebro em nós mesmos e decidir qual o modo de pensar correto.
A mente intuitiva altera a nossa percepção. Através dela, somos mais suscetíveis de reconhecer o “eu” que está por trás de tudo aquilo por que passamos. À medida que vivenciamos a mudança consciente, começamos a ver que, não importa quão difícil seja um desafio, em algum lugar por trás disso tudo está o eu que observa, que não só criou a situação mas a está vivenciando e que vai continuar existindo depois que o desafio passar. Como me disse um amigo depois de ter passado por uma situação quase insuportável, “Eu aprendi, principalmente, que ainda estou aqui. Ainda sou eu”.
O conhecimento natural é o reconhecimento orgânico daquilo que é certo.
Quando ocorre uma entrega no nosso ciclo de mudança, sabemos disso. Sem nenhum esforço consciente, os componentes da nossa psique se reorganizam e, repentinamente, nós nos sentimos diferentes, vemos com novos olhos, compreendemos sem forçar nada.
Podemos nos surpreender olhando para trás e encarando uma experiência que ocorreu antes da entrega quase como se tivesse acontecido em outra existência.
Perguntamos a nós mesmos: “Eu realmente pensava assim? Como é que eu não sabia o que sei agora?” Quando pensamos numa mágoa passada, é como ler um obituário. Ela não tem nada da energia repleta da emoção que recarrega a dor e a mantém viva. Sabemos que aconteceu, respeitamos confiantemente o papel que representou na nossa vida, mas agora nos sentimos cada vez mais desapegados dela.
Uma mulher que eu conheço passou por uma grande mudança quando o marido a deixou por outra mulher. Durante vários anos, ela realmente usou essa experiência para o crescimento pessoal, trabalhando através de vários ciclos de crescimento, inclusive de muita raiva e mágoa. Ela compreendeu que se tinha entregue verdadeiramente ao seu próprio processo quando, uma noite, levou os pais ao teatro e, inesperadamente, deu de encontro com a “outra mulher”. Sem pensar em nada do que havia acontecido, ela percebeu que o seu único sentimento era de sincera compaixão pelo transtorno causado àquela mulher que ela havia odiado alguns meses antes. A compaixão veio espontaneamente e sem esforço.
Enquanto temos de cerrar os dentes para nos obrigar a fazer qualquer coisa, podemos estar certos de que a antiga energia ainda está em ação dentro de nós. A maioria de nós tem de pegar o touro à unha e continuar se comprometendo de determinada maneira durante a purificação; mas, na entrega, isso se torna uma reação instintiva e natural.
O repentino “conhecimento” na entrega é semelhante ao ciclo do despertar. A diferença é que, durante o despertar, nós ó vemos; durante a entrega, nós nos transformamos nele.
O conhecimento não segue um processo ordenado e linear. Nós cercamos a nossa ambivalência enquanto a nova idéia nos provoca e parece zombar de nós.
Então, é como ver a figura escondida num quebra-cabeça infantil — num dado momento, você não consegue ver os coelhos e as raposas e, no minuto seguinte, você não consegue deixar de vê-los. Antes que você aprendesse a ler, o alfabeto era composto de fragmentos desordenados. Depois da aprendizagem, tornou-se impossível não ler.
As tradições místicas em todo o mundo estão repletas de histórias de pessoas cujas vidas se transformaram num súbito lampejo ou percepção. Antes desse lampejo, temos a tendência de chegar paulatinamente à compreensão de alguma coisa. Às vezes, isso pode ser como ouvir música uma nota de cada vez. Durante um salto de percepção, você ouve a música toda de uma vez.
Uma vez, eu tive um sonho no qual era repentinamente devorada por um grande peixe cor-de-rosa. Eu estava em êxtase há algumas semanas, sentindo aquela energia que se tem quando se está apaixonada. Ainda que o simbolismo fosse claro para mim — o peixe, como o antigo símbolo do Cristianismo, e o rosa, a cor do Amor Universal — eu não vibrei com o processo intelectual. Era a experiência total de me entregar, naquele momento, ao puro amor, e deixar que ele me consumisse de uma só vez.
Minha experiência foi no sentido de que, quando estamos prontos para alterar a nossa percepção, até mesmo as coisas mais comuns, atraímos para nós o estímulo que fornece o click que traz guardada a compreensão mais ampla. Numa época em que eu estava examinando mais de perto o meu materialismo, fui ao Museu Guggenheim de Nova York. Um senhor de idade e eu estávamos admirando o mesmo quadro. No meu entusiasmo, eu disse a ele: “O senhor não adoraria ser o proprietário desse quadro?” Ele sorriu, apontou para a sua cabeça e disse: “Mas eu o possuo, querida, eu o possuo.” De repente, compreendi uma coisa — não só a respeito daquele quadro, mas a respeito de “possuir” todas as coisas belas: uma vez que você as levou para dentro da sua mente, não há necessidade de pegá-las no nível físico.
Essa simples observação foi para mim um presente que jamais esqueci.
Uma nova percepção é algo para se guardar — é uma importante mudança de paradigma. Na verdade, não temos em inglês uma palavra para descrever muito bem esse salto. A nossa língua tende a ser demasiado linear para apreender a totalidade de causa e efeito numa só palavra. Algumas outras línguas chegam mais perto. Por exemplo, os índios hopi dizem reh-pi, que significa ao mesmo tempo “luz” e “faiscar”.
Nós dizemos “a luz piscou, saiu uma faísca”. Reh-pi está mais próximo daquilo que vivenciamos durante o salto de um átimo de segundo na percepção. Nunca sabemos quando alguém que está junto de nós está no ponto de soltar uma faísca. Essa é uma das razões pelas quais é importante contarmos uns aos outros as nossas experiências espirituais. Em certo ponto, uma pessoa pode dar um salto apenas porque você está vivenciando e falando de uma verdade que ela está pronta para apreender.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 258

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