A Força do que Passou

 

stillness

Shinzen Young,  professor norte-americano de meditação, diz: Todo momento de cessação permite que aproveitemos o ponto de quietude nas voltas incessantes que o mundo dá.

 Existiria um caminho mais rápido para a alcançarmos a iluminação ou ascensão?

Talvez, sim, mas de acordo com o professor, ainda não é um caminho conhecido pela humanidade. Na fase atual da ciência espiritual, diferentes abordagens funcionam de maneiras diferentes para pessoas diferentes. É por isso que o professor oferece uma ampla gama de técnicas contrastantes que, se realizadas continua e incansavelmente, nos levariam à iluminação/ascensão.

A técnica a seguir, Shinzen Young escolheu para nos ensinar, como sendo uma de suas favoritas. Em inglês, ele a chama de “Just Note Gone”, que eu traduzirei como “Note Que Passou”

Por quê isso? Bem, a maioria das pessoas está ciente do momento em que um evento sensorial começa, mas raramente presta atenção ao momento em que a sensação desaparece. Somos instantaneamente atraídos para um novo som, ou nova visão, ou uma nova sensação em nosso corpo, mas raramente percebemos quando aquele som, aquela visão ou sensação desaparece. Isso é até natural, uma vez que cada novo surgimento representa o que precisamos enfrentar no momento vindouro. Porém, o fato de sempre estarmos cientes dos aumentos sensoriais e quase nunca nos atentarmos que eles passam gera uma perspectiva desequilibrada da natureza da experiência sensorial.

Então tá, mas como funciona essa técnica?

Para praticar a técnica “Note Que Passou”, siga essas instruções básicas: sempre que uma experiência sensorial – um som, uma visão, uma sensação corporal – de repente desaparecer, perceba. Reconheça claramente o momento em que você detectar o ponto de transição entre a experiência como estando presente e depois, já não mais presente. Você pode usar o rótulo mental “passou!ufa!” para ajudá-lo a observar o final da experiência. Se nada desaparecer por um tempo, tudo bem. Apenas fique ali observando para ver se algo acontece. E se você começar a se preocupar com o fato de que nada está terminando, observe quando esse pensamento termina. Existe uma quantidade limitada de “estados verdadeiros” disponíveis na nossa consciência a cada instante. Cada estado que surge em algum lugar provoca o desaparecimento de outro, num lugar diferente.

E daí? Por quê que a gente precisa se preocupar em detectar o momento em que um “surto” de conversa mental,  um som externo específico ou uma sensação particular no corpo desaparecem repentinamente? Bem, é assim, ó: suponha que você tenha que passar por uma experiência horrível que envolva dor física, sofrimento emocional, confusão mental e desorientação perceptiva, tudo ao mesmo tempo agora. Como você poderia voltar para a sua segurança interior? Aonde você poderia encontrar um conforto? Como você poderia encontrar um sentido em tudo aquilo? O seu corpo não pode ajudar naquela hora. Só tem dor e medo nele. Sua mente não pode ajudar idem. Só tem confusão e incerteza nela. Sua visão e o som que você ouve também não ajudarão. Só há tumulto e caos lá. Sob uma coação tão extrema, será que existiria um lugarzinho a que você possa recorrer para encontrar alívio? Sim!!!! Você pode concentrar-se intensamente no fato de que cada um daqueles “insultos” sensoriais vai passar. Em outras palavras, você pode reverter o hábito normal de explorar cada novo surgimento de sensações e, em vez disso, explorar o acontecimento de cada novo término. O micro-alívio está lá, sempre disponível.

A maioria das pessoas provavelmente passará um dia por uma experiência profundamente dolorosa em algum momento de suas vidas. Seria uma fonte de grande conforto saber, com base na sua própria experiência direta, que existe um lugar seguro  tão intenso, que nada pode abala-lo.

Mas como esses “micro-términos” poderiam nos ajudar, de verdade? Depende. Depende do quê? Depende de três coisas: 1) de sua claridade sensorial — ou seja, da sua capacidade de detectar os momentos de desaparecimento da sensação/experiência; 2) do seu poder de concentração — ou seja, da sua capacidade de permanecer focado nos momentos de término e 3) da sua interna imparcialidade — ou seja, da sua capacidade de permitir que as experiências sensoriais venham e desapareçam, sem forçá-las.

Você pode pensar na “imparcialidade” como sendo a capacidade de dizer de forma rápida e intensa “Sim!” para cada nova sensação que surgir. A abertura rápida e verdadeira a uma experiência facilita a ida rápida e verdadeira dessa experiência. Isso cria um mecanismo de feedback positivo. Quanto mais imparcialidade você tiver nos aparecimentos das sensações/experiências, mais fácil será detectar seus términos. Quanto mais você detectar os términos, mais fácil será desenvolver a imparcialidade nas situações. Esse ciclo acelera exponencialmente a sua aprendizagem.

Com o tempo, a técnica “Note Que Passou” irá sensibilizá-lo para detectar os “desvanecimentos” com maior clareza. Juntamente ao transcurso da imparcialidade, você conseguirá concentrar-se continuamente no desvanecer da experiência. Tal desvanecimento, por sua vez, transforma os “micro-términos” em “mega-alívios”. Observar que “passou” produz outros efeitos positivos, além de uma sensação de alívio. Algumas pessoas acham que perceber os momentos de desaparecimento cria uma profunda sensação de descanso. A tranquilidade visual, auditiva ou corporal parece propagar-se através da consciência, sempre que você perceber um “desvanecimento”. Cada momento de cessação aponta para o resto absoluto – o ponto de quietude de um mundo que não cessa de dar voltas.

Mas há um outro efeito que muitas  pessoas relatam e que parece ir contra a natureza mesma do desvanecimento: elas acham que são experiências ricas altamente realizadoras. Eis a lógica: o lugar para onde as experiências fluem, desaparecendo, é o mesmo de onde as coisas vêm. Quando você nota que algo “passou”, por um breve instante sua atenção se dirige diretamente para a riqueza da Fonte. É isso o que está por trás do paradoxo do contentamento que existe na “inexistência”. Existe uma palavra que significa tanto “término” como “satisfação”, como um conceito único e vinculado: nirvana.

Observar o que “passou” também pode levar ao desenvolvimento do espírito espontâneo de amor e serviço (bodhicitta). À medida em que você conhece a origem de sua própria consciência,  também fica conhecendo a Fonte da consciência de todos – o útero sem forma que é compartilhado com todos os seres. Observar que algo “passou” pode levar a um sentimento espontâneo de união e compromisso com todos os seres. Portanto, o término, embora possa parecer uma constatação fria e impessoal, está profundamente relacionado com a questão da realização humana e do bem humano.

À medida em que você se torna mais sensível à detecção do que se “desvaneceu”, pode chegar a um ponto em que , depois de tanto observar o “término”, ele próprio se torna um objeto de alta concentração. Os espaços entre cada “desvanecimento” ficam cada vez mais curtos até que o término se torna o terreno estável. O eu e o mundo se convertem em figuras fugazes.

O professor Shinzen diz que não faz da respiração a peça central da meditação, como muitos professores fazem. Há a impressão geral de que o objetivo final da prática de atenção plena ao momento presente (mindfullness) é conseguir manter o foco na respiração. Ele brinca, dizendo que ” meditadores verdadeiros conseguem sempre voltar à respiração”. Na verdade, se for para ter algo para onde sempre voltar, melhor seria dizer que “os meditadores verdadeiros conseguem sempre voltar para o que se foi”

Mas existe algum efeito negativo em trabalhar com o desvanecimento e os temas relacionados ao vazio e o não-eu?

Às vezes sim. Em alguns casos, a sensação de término, vazio e não-eu pode ser tão intensa que cria desorientação, aversão ou desesperança. Reações desagradáveis ​​como essas foram bem documentadas na literatura clássica de contemplação das tradições oriental e ocidental. No Ocidente, foi dado o nome de “A Noite Escura da Alma”. No Oriente, às vezes é referido como  ” O Abismo do Vazio”, ou como o lado desagradável de Bhanga [dissolução]. Isso não ocorre com muita frequência, mas, se acontecer, existem três intervenções que você pode usar para transformar a situação problemática em agradável:

1.Acentuar as  partes boas da Noite Escura da Alma, mesmo que elas pareçam muito sutis em relação às partes ruins. Você pode conseguir extrair alguma tranqüilidade  deste “nada”. A sensação de dentro e de fora pode levar ao Um, como a uma identidade expandida. Pode acontecer que alguma energia vibrante, calmante lhe massageie. Pode haver uma energia flexível, de expansão, que o anime.

2. Negar as partes negativas da Noite Escura, desconstruindo-as através de uma atenção consciente. Lembre-se,  “dividir para conquistar” — se você pode dividir uma reação negativa em partes (imagem mental, conversa mental e sensação emocional do corpo), você poderá dominar a sensação de opressão. Em outras palavras, elimine as partes negativas, amando-as até a morte.

3.Reiterar as emoções, comportamentos e cognições positivas de forma sustentada e sistemática. Gradualmente, reconstrua pacientemente seu novo Eu através de práticas como a misericórdia.

 Na maioria dos casos, as três intervenções devem ser praticadas e mantidas durante o tempo necessário para passar pela noite escura. Também pode ser necessário um apoio contínuo e intensivo de professores e outros profissionais para lembrá-lo de continuar aplicando essas intervenções.

O resultado final, no entanto, será uma alegria profunda e uma liberdade além da imaginação. Para onde as coisas fluem é de onde elas vieram.

 

Fonte: https://tricycle.org/

Tradução e comentários meus, Flavia Criss.

San Francisco NB, 29 de setembro de 2017.

 

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