Enigma

Ela estava vestida de uniforme listrado de empregada, mas falava como dona de casa. Viu-me subir as escadas cheia de embrulhos e parando para sentar nos degraus — os dois elevadores estavam enguiçados. Ela morava no quinto andar, eu no sétimo. Subiu comigo segurando alguns de meus embrulhos numa das mãos, e na outra o leite que comprara. Quando chegou ao quinto andar, botou o leite em casa dela entrando pela porta de serviço, depois fez questão de segurar meus embrulhos e de subir comigo até o sétimo.

Que mistério era esse: falava como dona de casa, seu rosto era o de dona de casa, e no entanto estava uniformizada. Sabia do incêndio que eu sofrera, imaginava a dor que eu sentira, e disse: mais vale a pena sentir dor do que não sentir nada.

— Tem pessoas — acrescentou — que nunca ficam nem deprimidas, e não sabem o que perdem.

Explicou-me, logo a mim, que a depressão ensina muito.

E — juro — acrescentou o seguinte: “A vida tem que ter um aguilhão, senão a pessoa não vive.” E ela usou a palavra aguilhão, de que eu gosto.

26 de Abril.

Clairice Lispector, A Descoberta do Mundo.

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