AS FONTES DA FELICIDADE

Dois anos atrás, uma amiga minha teve um ganho inesperado. Um ano e meio antes daquela época, ela havia abandonado o emprego de enfermeira para ir trabalhar para  dois amigos que estavam abrindo uma pequena empresa de atendimento de saúde. A companhia teve um sucesso meteórico e em um ano e meio foi comprada por um grande  conglomerado por um valor altíssimo. Tendo participado da empresa desde o início, minha amiga saiu da venda cheia de opções de compra de ações – o suficiente para  conseguir aposentar-se aos trinta e dois anos de idade. Eu a vi há não muito tempo, depois de estar aposentada.
– Bem – disse ela – é ótimo poder viajar e fazer o que eu sempre quis fizer. Mas o estranho é que, depois que me recuperei da emoção de ganhar todo aquele dinheiro, as coisas mais ou menos voltaram ao normal. Quer dizer, tudo está diferente comprei uma casa nova e tudo o mais, mas em geral ache que não estou muito mais feliz do que era antes.

Por volta da mesma época em que minha amiga estava recebendo os lucros inesperados, outro amigo da mesma idade descobriu que era soropositivo. Nós conversamos sobre como ele estava lidando com seu estado.
– É claro que a princípio fiquei arrasado – disse ele. E demorei quase um ano só para aceitar o fato de estar com o vírus. Mas ao longo do último ano, as coisas mudaram. Parece que aproveito cada dia mais do que jamais aproveitei
antes. E, se analisarmos de momento a momento, estou mais feliz agora do que nunca fui.  Parece simplesmente que aprecio mais o dia-a-dia; e sinto gratidão por não ter até agora apresentado nenhum sintoma grave da AIDS e por poder realmente aproveitar o que tenho. E, muito embora eu preferisse não ser soropositivo, devo admitir
que, sob certos aspectos, a doença transformou minha vida… para melhor…
– Em que ternos? – perguntei.
– Bem, por exemplo, você sabe que eu sempre tive a tendência a ser um materialista inveterado. Só que ao longo do último ano, a procura da aceitação da minha  mortalidade descortinou todo um mundo novo. Comecei a explorar a espiritualidade pela primeira vez na minha vida, lendo um monte cie livros e conversando com as  pessoas…descobrindo tantas coisas nas quais nunca havia pensado antes. Fico empolgado só de acordar de manhã, de pensar no que o dia pode me trazer.

Essas duas pessoas ilustram o ponto essencial de que a felicidade é determinada mais pelo estado mental da pessoa do que por acontecimentos externos. O sucesso pode produzir uma sensação temporária de enlevo, ou a tragédia
pode nos mandar para um período de depressão, mas mais cedo ou mais tarde nosso nível geral de felicidade acaba migrando de volta para uma certa linha de referência.
Os psicólogos chamam esse processo de adaptação e nós podemos ver como esse princípio atua no nosso dia-a-dia.

Um aumento, um carro novo ou um reconhecimento por  parte dos colegas podem nos deixar animados por um tempo, mas logo voltamos ao nosso nível costumeiro de felicidade. Da mesma forma, uma discussão com um
amigo,  um automóvel na oficina ou um pequeno ferimento podem nos deixar de péssimo humor, mas em questão de dias nosso espírito volta ao que era antes.
Essa tendência não se limita a acontecimentos triviais, de rotina, mas persiste mesmo sob condições mais extremas de sucesso ou catástrofe.
Pesquisadores  que estudavam os ganhadores da loteria estadual no Illinois e da loteria britânica descobriram, por exemplo, que a empolgação inicial ia passando com o tempo e os ganhadores voltavam à sua faixa habitual de felicidade de cada momento. E outros estudos demonstraram que, mesmo aquelas pessoas que são vítimas de
acontecimentos  catastróficos, como por exemplo o câncer, a cegueira ou a paralisia, tipicamente recuperam seu nível normal ou quase normal de felicidade de rotina depois de um período adequado de ajuste.

Portanto, se nossa tendência é voltar para o nível de referência de felicidade que nos é característico, não importa quais sejam as condições externas, o que então determina esse nível de referência? E, o que é mais importante, será
que ele pode ser modificado, fixado numa faixa mais alta?

Alguns pesquisadores defenderam  recentemente a tese de que o nível de felicidade ou bem-estar característico de
um indivíduo é determinado geneticamente, pelo menos até certo ponto. Estudos como,por exemplo, um que concluiu que gêmeos idênticos (que têm a mesma constituição genética) tendem a apresentar níveis muito semelhantes de bem-estar — independentemente  do fato de terem sido criados juntos ou separados – levaram esses pesquisadores a postular a existência de um ponto biológico fixo para a felicidade, instalado no cérebro desde o nascimento.
Entretanto, mesmo se a constituição genética desempenhar um papel no que diz respeito à felicidade — e ainda não foi dada a última palavra quanto à extensão desse papel — há um consenso geral entre os psicólogos de que qualquer que seja o nível de felicidade que nos é conferido pela natureza, existem passos que podem ser dados para que trabalhemos com o “fator mental”, a fim de aumentar nossa sensação de felicidade. Isso, porque nossa felicidade de cada momento é em grande parte determinada por nosso modo de encarar a vida. Na realidade, o fato de nos sentirmos felizes ou infelizes a qualquer dado momento costuma ter muito pouco a ver com nossas condições absolutas mas é, sim, uma função de como percebemos nossa situação, da satisfação que sentimos com o que temos.

Dalai Lama & Howard C Cutler, A ARTE DA FELICIDADE, Um manual para a vida. Ed Martins Fontes, p. 11- 12

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