A força de ser dois

Embora cada lado da natureza de uma mulher represente uma entidade separada, com funções diferentes e capacidade de discernimento, eles devem, à semelhança do cérebro com seu  corpus callosum, ter um conhecimento ou uma tradução um do outro e, portanto, funcionar como um todo. Se a mulher esconde um dos lados ou privilegia um dos lados em demasia, ela tem uma vida desequilibrada que não lhe permite acesso ao seu pleno poder. Isso não é bom. É necessário desenvolver os dois lados.

Há muito o que aprender acerca da força de ser dois quando examinamos o símbolo dos gêmeos. No mundo inteiro, desde tempos remotos, considerou-se que os gêmeos fossem dotados de poderes sobrenaturais. Em algumas culturas, existe toda uma disciplina dedicada ao equilíbrio da natureza dos gêmeos, pois eles são considerados como duas entidades que compartilham uma alma. Mesmo após a morte, os gêmeos recebem alimento, a atenção de conversas, presentes e sacrifícios.
Em diversas comunidades africanas e do Caribe, diz-se que o símbolo das irmãs gêmeas possui juju  — a energia mística da alma. Portanto, exige-se que as gêmeas recebam cuidados impecáveis para que não recaia um mau agouro sobre toda a comunidade. Uma precaução da religião de vodus do Haiti exige que as gêmeas sempre recebam exatamente as mesmas porções de alimento para que, assim, seja sumariamente eliminada a possibilidade de inveja entre as duas. Ainda mais, no entanto, para impedir que uma delas definhe, pois, se uma morrer, a outra também morrerá, e os benefícios espirituais que elas proporcionam à comunidade estarão perdidos.
Da mesma forma, a mulher tem enormes poderes quando os aspectos duais individuais são reconhecidos conscientemente e considerados como uma unidade, mantidos unidos em vez de separados. O poder de ser dois é muito forte, e nenhum dos dois lados deve ser negligenciado. Eles precisam ser alimentados da mesma forma, pois juntos proporcionam ao indivíduo um poder excepcional.

Ouvi uma vez uma história de um velho afro-americano no centro-sul. Ele surgiu de um beco quando eu me encontrava sentada em meio às pichações de um “parque” no centro da cidade. Algumas pessoas diriam que ele era maluco, pois falava com todos e com qualquer um. Ele arrastava os pés e mantinha um dedo em riste como se quisesse verificar a direção do vento. Os  cuentistas reconhecem que essas pessoas teriam sido tocadas pelos deuses, e nós as chamamos de El Bulto, a trouxa, porque elas carregam um certo tipo de mercadoria e a exibem para quem quiser olhar.
Esse  El Bulto especialmente simpático me deu uma história a respeito da transmissão ancestral. Ele intitulou a história de “Um pauzinho, dois pauzinhos”. “Esse é o costume dos antigos reis africanos”, sussurrou.
Na história, um velho está à morte, e chama a família para perto de si. Ele dá um pauzinho curto e resistente a cada um dos seus muitos rebentos, esposas e parentes. “Quebrem o pauzinho”, determina ele. Com algum esforço, todos conseguem quebrar seus pauzinhos ao meio.
“É isso o que acontece quando uma pessoa está só e sem ninguém. Ela pode ser quebrada com facilidade.”
Em seguida, o velho dá a cada parente mais um pauzinho.
“É assim que eu gostaria que vocês vivessem depois que eu me for. Juntem seus pauzinhos em feixes de dois ou três. Agora, partam esses feixes ao meio.”
Ninguém consegue quebrar os pauzinhos quando eles estão em feixes de dois ou mais. O velho sorri.
“Temos força quando nos juntamos a outra pessoa. Quando estamos juntos, não podemos ser quebrados.”
Da mesma forma, quando os dois lados  da natureza dual são mantidos juntos no consciente, eles têm um poder tremendo e não podem ser fragmentados. É essa a natureza da dualidade psíquica, das gêmeas, dos dois aspectos da personalidade feminina. Sozinho, o self mais civilizado vive bem… mas  sente uma certa solidão.
Sozinho, o self selvagem também vive bem, mas anseia pelo relacionamento com o outro. A perda dos poderes psicológicos, emocionais e espirituais das mulheres tem como origem a separação dessas duas naturezas e a simulação de que uma delas não mais existia.
Essa história pode ser interpretada como um relato sobre a dualidade masculina assim como sobre a feminina. O homem Manawee tem sua própria natureza dual: o lado humano e o lado cachorro. Sua natureza humana, embora simpática e carinhosa, não lhe basta para ter sucesso na corte e sua natureza canina, seu lado instintivo, que tem a capacidade de se esgueirar até perto das mulheres selvagens e, com sua audição aguçada, ouvir seus nomes. É o self-cão que aprende a superar as seduções  superficiais e a reter os conhecimentos mais importantes. É a natureza canina de Manawee que tem a tenacidade e a audição apurada, os instintos para se enfiar por baixo de paredes e para encontrar, perseguir e resgatar idéias valiosas.
As forças masculinas podem incluir tipos de energia semelhantes à do Barba-azul ou ao do assassino Mr. Fox e, por esse motivo, tentam demolir a estrutura dual das mulheres. Esse tipo de pretendente não consegue tolerar a dualidade e procura a perfeição, procura a verdade única, a substância feminina imutável e inalterável, encarnada na única mulher perfeita.

Cuidado! Se você encontrar esse tipo de pessoa, fuja para o outro lado com a maior rapidez possível. E melhor ter um namorado do tipo de Manawee, por dentro e por fora. Ele é um pretendente muito melhor já que nutre uma intensa devoção pela idéia de ser dois. E o poder de ser dois está em agir como uma entidade una.
Portanto, Manawee deseja tocar essa combinação misteriosíssima e onipresente da vida da alma na mulher, e ele dispõe de uma soberania própria, já que ele próprio é um homem natural, ligado ao selvagem, ele tem uma sintonia com a mulher selvagem e sente atração por ela.
Entre aquela tribo de homens amontoados na psique da mulher, cujos membros são chamados pelos  junguianos de  animus, existe também uma atitude semelhante à de Manawee, que procura e reivindica a dualidade da mulher, que a considera valiosa, acessível e desejável, em vez de diabólica, feia e desprezível.
Manawee, quer esteja no mundo interior, quer no mundo exterior, representa um amante novo mas cheio de fé, cujo desejo principal é o de identificar e compreender o numinoso duplo na natureza feminina.

Mulherers Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: Clicker88

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