O que vai, volta

É muito raro analisar em detalhe a vida passada de alguém numa sessão de aconselhamento. Contudo, numa sessão particularmente reveladora que orientei, ocorreu uma apresentação em profundidade. Eu não conhecia nenhum dos fatos da experiência de vida atual daquele homem antes de começarmos. Mas, naquele caso, eu deparei com uma vida passada repleta de detalhes. E aconteceu que o enredo, as personagens e a dinâmica eram misteriosamente semelhantes à vida atual do meu cliente.

Na vida anterior, esse homem tinha sido um modesto artesão numa pequena cidade de Israel. Mais do que qualquer outra coisa, ele amava a Tora e, quando não estava trabalhando, estava no templo discutindo os desígnios de Deus. Quando sua primeira filha nasceu, ele ficou muito desapontado por não ser um menino, mas a decepção foi ainda maior quando vieram a segunda, a terceira, a quarta e, finalmente, a quinta filha. A cada nascimento, ele se afastava mais e mais da família e passava cada vez mais tempo na sinagoga.

Com o passar dos anos, sua mulher foi ficando muito amargurada. Nas raras ocasiões em que ele se encontrava em casa, era hostil e indiferente para com as meninas, especialmente as mais novas. Ele só tinha tempo para a Tora. A filha mais nova teve perturbações emocionais a ponto de passar muito tempo fora do corpo, sem poder ser influenciada por ninguém. Ela estava, sem dúvida, mentalmente doente.
Um dia, enquanto consertava o telhado, esse homem caiu, quebrou a espinha e teve de permanecer acamado por mais de um ano. Sem poder ir ao templo, foi forçado a ver o que tinha acontecido com a mulher, antes tão meiga. Ela já não se importava com ele e fazia apenas a sua obrigação. Concentrava grande parte da sua raiva na sinagoga, encarando as obsessões espirituais do marido como se encarasse uma amante dele.
A filha mais velha, pelo menos, tinha tido um pouco de orientação de amor paterno nos primeiros anos de vida e, apesar de sentir-se rejeitada, ainda procurava o amor e a aprovação do pai. Tornou-se sua enfermeira.

Frustrado no início por não poder discutir sua Venerável Tora com alguém, esse homem começou a discutir conceitos espirituais com a filha mais velha — criando atrito entre ela e a mãe.
Enquanto permanecia acamado, também começou a perceber como a filha mais nova estava doente e teve sentimento de culpa.
Quando esse homem veio me ver, na vida atual, ele era o pai de várias garotas e o marido de uma esposa zangada. Ele passava a maior parte do seu tempo livre na igreja. Era considerado pela maioria das pessoas como um homem muito espiritualista, já que era tão devotado ao estudo da religião. Havia encontrado uma mulher na igreja com quem podia conversar sobre essas coisas e tinha se convencido de que ela o compreendia espiritualmente. Ele não via que o seu relacionamento com a mulher e as filhas tinha algo que ver com sua vida espiritual e estava pronto para abandonar a mulher e as filhas, das quais a mais nova era emocionalmente instável.
Eu não reconheci todas as personagens nessa reprise, mas ficou claro que o seu novo amor era a filha mais velha na vida em Israel — mesmo naquela época ele achava que a filha era a única que o compreendia. A esposa de hoje era a mesma de ontem, e nenhum deles tinha perdoado e liberado a hostilidade mútua da vida passada. Ele ainda estava substituindo a transformação espiritual por conceitos espirituais — só que, dessa vez, a teologia protestante tomara o lugar da Tora. Eram os conceitos, e não a sua orientação, que o fascinavam. Mas a alma conhece a diferença. Não progredimos porque ficamos repisando a culpa; temos de nos tornar aquilo em que acreditamos.
Não era minha função dizer a ele o que fazer, mas eu expus claramente a dinâmica para que ele pudesse entender. Ele teve reações muito fortes à descrição da vida em Israel, chegou até mesmo às lágrimas. A reação emocional forte geralmente é uma pista de que a informação — ou o valor simbólico — é acurada.
Não há como separar as influências psicológicas da escolha que a alma faz de suas lições. Por exemplo, suponha que uma alma tenha medo de se encontrar num corpo feminino. Talvez essa pessoa tenha passado muitas vidas sofrendo limitações ou perseguições como mulher. Essa pessoa pode decidir encontrar o equilíbrio, não só através de uma existência preenchida com os desafios pelo fato de ser mulher, mas é provável que a alma comece tudo isso no ventre materno. Ela pode ser filha de alguém que também tenha sérias dúvidas a respeito de gostar de ser mulher.
Enquanto estiver no útero, compartilhando do sangue da mãe, a garota será marcada pelas vibrações psíquicas da mãe. Todas as coisas diante das quais ela demonstrar medo serão moldadas desde o primeiro dia do seu nascimento. Sem dúvida, ela terá
muitos recursos psicológicos a que recorrer, mas suas escolhas cármicas providenciaram-lhe as circunstâncias perfeitas para as lições que sua alma deve
receber.
Embora a terapia de vidas passadas não substitua a tarefa de desfazer os nós emocionais desta vida, ela pode ser uma auxiliar muito útil. Ao longo dos anos, trabalhei em colaboração com muitos terapeutas. O terapeuta leva a fita cassete de uma das minhas sessões de aconselhamento, que pode incluir vidas passadas, e depois, semana a semana, trabalha com o paciente, numa dinâmica contínua, as informações extraídas da leitura. Mediante esse processo, tenho visto pessoas liberarem as forças que haviam congelado no passado, colocarem de lado os temores que nenhuma terapia anterior conseguira dissipar e abandonarem o ódio antigo, liberarem as fobias, compreenderem as complexidades numa súbita percepção gestáltica e chorarem pela dor há muito tempo guardada.
Minha experiência demonstra que uma vida passada é lembrada porque há relação direta com a experiência imediata. Ela não é lembrada como um entretenimento. A lembrança de uma vida passada não é um jogo de salão.
Estive com muitas pessoas que sofrem as dores de um parto ao rememorarem uma experiência penosa de um passado do qual não se liberaram. Elas são observadoras distanciadas; em vez disso, podem chegar a reviver as principais emoções da experiência. Quando uma energia está contida na consciência, ela está fora do tempo e do espaço. Ela vive no AGORA. Portanto, se um ódio foi alimentado, digamos, no século XV na Espanha, e não foi liberado pelo perdão e pela compreensão, é como se tivesse acontecido hoje de manhã. Esse ódio tem o poder de nos influenciar como uma energia viva. Há uma grande chance de que o ódio tenha criado um ímã que se mantém ativo na vida atual. Não precisamos nos lembrar da experiência na Espanha para saber que a energia ainda é ativa; precisamos apenas ser sinceros com as nossas reações, preconceitos e antipatias de hoje.
Acho que uma boa porcentagem de nossos padrões de uma vida para outra constelam-se em torno da falta de amor por si. Temos a tendência de nos agarrarmos a
sentimentos de culpa, de vergonha, de perda, de impotência de autopunição. Porém, essas emoções podem ser identificadas, aceitas e liberadas pelas técnicas de processamento que sabemos que funcionam.

A coisa mais importante é o perdão de si próprio e dos outros. Deus não está cobrando de nós as nossas ações passadas.
Somos nós que nos recusamos a nos perdoar.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 112

Foto: Vanz

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