A perseguição e a tentativa de se ocultar

A natureza da morte tem o estranho hábito de surgir nos casos de amor exatamente no instante em que temos a sensação de ter conquistado alguém, exatamente quando sentimos que fisgamos “um peixe grande”. É então que a natureza da vida-morte-vida vem à tona e deixa todo mundo apavorado. É nesse estágio que se desenvolve mais o pensamento tortuoso a respeito dos motivos pelos quais o amor não pode, não deve e não vai dar “certo” para qualquer das partes interessadas. É nesse estágio que as pessoas se enfurnam na toca. Trata-se de um esforço para se tornar  invisível. Invisível ao parceiro? Não. Invisível à Mulher-Esqueleto. É esse o objetivo real de toda essa correria à procura de um lugar para se esconder.

No entanto, como estamos vendo, não há nenhum lugar onde possamos nos esconder.
A psique racional vai  pescar à procura de algo que seja profundo e não só fisga o que procurava mas fica tão assustada que mal pode tolerar. Os amantes têm uma sensação de que algo os persegue. Às vezes pensam que é o outro quem empreende a perseguição. Na realidade, é a Mulher-Esqueleto. No início, quando estamos aprendendo a amar de verdade, não compreendemos bem muitas coisas. Achamos que ela nos persegue, quando de fato nossa intenção de nos relacionarmos com outro ser humano de um modo especial é o que fisga a Mulher-Esqueleto de tal forma que ela não consegue fugir de nós. Onde quer que o amor esteja nascendo, a força da vida-morte-vida sempre virá à tona. Sempre.
Portanto, aqui estão o pescador e a Mulher-Esqueleto, completamente enredados um no outro. Enquanto a Mulher-Esqueleto segue aos trancos o pescador apavorado, ela começa uma participação primitiva na vida: sente fome e come peixe seco. Mais tarde, quando ela se aproxima ainda mais da vida, ela sacia sua sede com a lágrima do pescador.
Vemos esse estranho fenômeno em todos os casos de amor: quanto mais ele corre, maior velocidade ela alcança. Quando um parceiro ou o outro tenta fugir do relacionamento, esse relacionamento paradoxalmente recebe mais vida. Quanto mais vida é gerada, mais assustado fica o pescador. E quanto mais ele corre, mais vida se cria. Esse fenômeno é uma das principais tragicomédias da vida.
Uma pessoa vivendo uma situação semelhante sonhou que conhecia uma mulher/amante cujo corpo macio se abria como um armário. Dentro do corpo, havia embriões pulsantes e reluzentes, adagas em prateleiras gotejando sangue e sacos repletos com o primeiro verde da primavera. Foi concedido um longo silêncio a essa pessoa pois esse foi um sonho com a natureza da vida-morte-vida.
Esses vislumbres no interior da Mulher-Esqueleto fazem com que os aprendizes do amor peguem suas varas de pescar e saiam por aí à toda, esforçando-se para se distanciar dela o máximo possível.

A Mulher-Esqueleto é imensa e misteriosa;  sua numinosidade é deslumbrante. Em termos psíquicos, ela se estende de um horizonte ao outro e desde o céu até o inferno. Ela é grande demais para se abraçar.
Mesmo assim, não é de surpreender que as pessoas corram para abraçá-la. O que se teme pode fortalecer, pode curar.
A fase de correr e de se esconder é o período no qual os amantes tentam racionalizar seu medo dos ciclos de amor da vida-morte-vida. Eles dizem “Posso me dar melhor com outra pessoa”, “Não quero renunciar a meu (preencha a lacuna) ___”, “Não quero mudar minha vida”, “Não quero encarar minhas feridas, nem as de ninguém mais”, “Ainda não estou pronto” ou ainda “Não quero ser transformado sem primeiro saber nos ínfimos detalhes como vou ficar/me sentir depois.”
É uma fase em que os pensamentos ficam todos confusos, quando se quer procurar um abrigo a todo custo e quando o coração bate, não tanto por amar ou por se sentir amado, quanto por um terror humilhante. Ser encurralado pela Morte! Ai! O horror de enfrentar a força da vida-morte-vida pessoalmente! Ai, ai!
Há quem cometa o erro de pensar que está fugindo do relacionamento com o parceiro. Não está, não. Não está fugindo do amor ou das pressões do relacionamento. Está tentando correr mais rápido do que a misteriosa força da vida-morte-vida. A psicologia diagnostica essa situação como “medo da intimidade, medo do envolvimento”. No entanto, esses são apenas sintomas. A questão mais profunda é de descrença e desconfiança. Aqueles que fogem sempre temem viver de fato de acordo com os ciclos da natureza selvagem.
Pois nesse ponto A Morte persegue o homem pelas águas, cruzando a fronteira entre o inconsciente e a terra firme da mente consciente. A psique consciente percebe o que fisgou e tenta desesperadamente correr mais do que a presa. Constantemente agimos assim nas nossas vidas. Algo de apavorante mostra sua cara. Nós não estamos prestando atenção e continuamos a puxar a linha, imaginando se tratar de uma boa
pesca. É um achado, mas não do tipo que estávamos imaginando. É um tesouro que
infelizmente aprendemos a temer. Por isso, tentamos fugir ou jogá-lo de volta; tentamos embelezá-lo ou toma-lo o que não é. Isso, porém, nunca funciona. No final, todos temos de beijar a megera.
O mesmo processo ocorre no amor. Queremos só a beleza, mas acabamos tendo de encarar a “perversa”. Empurramos a Mulher-Esqueleto para longe de nós, mas ela insiste. Nós corremos. Ela acompanha. Ela é a grande mestra que sempre dissemos que queríamos. “Não, não essa mestra!” berramos. Queremos uma outra.
Que pena. Essa é a mestra que cabe a todos.
Há um ditado que diz que, quando o a luno está pronto, o professor aparece. Isso quer dizer que o professor chega quando a alma, não o ego, está pronta. O mestre vem quando a alma chama — e graças a Deus que isso aconteça pois o ego nunca está perfeitamente pronto. Se dependesse apenas do preparo do ego o fato de o mestre ser
atraído até nós, permaneceríamos essencialmente sem mestres pela vida afora.
Somos abençoados, já que a alma continua transmitindo seu desejo ignorando as
opiniões inconstantes do ego.
Quando as coisas ficam enredadas e  assustadoras nos relacionamentos amorosos, as pessoas receiam que o fim esteja próximo, mas isso não é verdade.
Como se trata de uma questão arquetípica e como a Mulher-Esqueleto realiza o trabalho do Destino,  espera-se que o herói saia correndo pelo horizonte afora, espera-se que A Morte o acompanhe de perto, espera-se que o aprendiz de amante se enfie na sua choupana, ofegante e arquejante, com a esperança de estar são e salvo. E espera-se que a Mulher-Esqueleto consiga também entrar nesse abrigo seguro. Espera-se que ele a desemaranhe e assim por diante.

Nos namoros modernos a idéia de “dar um tempo” é semelhante ao pequeno iglu do pescador, lugar onde ele se sente em segurança. Às vezes, esse medo de enfrentar a natureza da morte é desvirtuado, transformando-se numa atitude de “fuga da raia”, na tentativa de manter apenas os aspectos agradáveis do relacionamento, deixando de lado o vínculo com a Mulher-Esqueleto. Isso nunca funciona.
Essa atitude provoca extrema ansiedade no parceiro que não está “dando  um tempo”, pois ele próprio está disposto a se encontrar com a Mulher-Esqueleto. Ele se preparou, se fortaleceu e está tentando manter seus temores sob controle. E agora, no exato instante em que está pronto para decifrar o mistério, no momento em que um ou o outro está prestes a batucar no coração e conjurar uma vida juntos, um dos parceiros grita “ainda não, ainda não” ou “não, nunca, nunca”.
Há uma enorme diferença entre a necessidade de solidão e renovação e o desejo de “dar um tempo” para evitar a inevitável ligação com a Mulher-Esqueleto. No entanto, a ligação, no seu sentido de aceitação da natureza da vida-morte-vida e de permuta com ela, é o passo seguinte na direção de um fortalecimento da nossa capacidade para amar. Aqueles que entrem num relacionamento com ela conquistarão um duradouro talento para o amor. Aqueles que se recusarem não conquistarão nada. Não há como evitar isso.
Todos os “ainda não estou pronto”, todos os “preciso de tempo” são compreensíveis por um curto período. A verdade é que não existe a sensação de se estar “completamente pronto” ou de ser aquela a “hora certa”. Como acontece em qualquer mergulho no inconsciente, chega uma hora em que simplesmente torcemos que dê certo, apertamos o nariz e saltamos no abismo. Se não fosse assim, não teríamos precisado criar as palavras herói, heroína ou coragem.
É preciso realizar o trabalho do aprendizado da natureza da vida-morte-vida.
Rejeitada, a Mulher-esqueleto afunda para debaixo d’água, mas ela surgirá novamente e sairá no nosso encalço insistente. É essa a sua função. A nossa função é a de aprender. Se quisermos amar, não há como evitar esse aprendizado. O trabalho de abraçá-la é uma tarefa. Sem uma tarefa desafiadora, não pode haver transformação. Sem uma tarefa, não há uma satisfação  verdadeira. Amar os prazeres é fácil. Já amar de verdade exige um herói que consiga controlar seu próprio medo.
Admite-se que muitas pessoas mesmo alcancem esse estágio de “fugir e se esconder”. Algumas infelizmente voltam sempre a ele. A entrada na toca  está marcada com sulcos desesperados. No entanto, quem quer amar imita o pescador.
Ele se esforça para acender o fogo e encarar a natureza da vida-morte-vida. Ele contempla o que teme e, paradoxalmente, reage com convicção e assombro.

Mulheres Que Correm Com Lobos, de Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Pensiero

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