Arquivo de quebra-cabeças

Os meus conceitos de realidade foram desafiados com tanta freqüência nesses primeiros anos, que eu tive de criar várias técnicas para assimilar os choques, já que não tinha a intenção de me tornar um “cadete do espaço”. Eu me comprometi a fazer o trabalho, mas me comprometi igualmente com a necessidade de manter-me equilibrada e bem fundamentada nele.

Algo que funcionou para mim e que continua me ajudando quando me encontro às voltas com o desafio é construir um compartimento em meu cérebro com o rótulo de “Esperando Esclarecimento Posterior”. Quando não consigo entender como algo pode ser possível e não quero me limitar inserindo-o no meu conhecimento já existente ou preconcebido, simplesmente ponho o problema na prateleira e deixo o tempo passar. Eu parto do pressuposto de que, mais cedo ou mais tarde, vou obter a informação de que necessito para me ajudar a compreendê-lo. Às vezes, essa prateleira fica mais cheia de perguntas que de respostas. E então, mais uma vez, as respostas vêm quando eu menos espero. Quando entramos em pânico diante do desafio porque não sabemos todas as respostas, podemos bloquear temporariamente a oportunidade que o desafio está nos oferecendo. Estou utilizando a palavra temporariamente porque, se é o nosso momento de aprender alguma coisa, ela se apresentará novamente, de outra forma.
Quando uma das crenças que sustentamos com carinho — quer seja socialmente, quer
seja pessoalmente — cai por terra pelo desafio, podemos sentir-nos como se estivéssemos nos desintegrando. “Eu já não sei mais quem sou.” “As coisas estão acontecendo depressa demais.” Parece não haver nenhuma ordem ou direção. Assim como uma estrela que está passando pela entropia, tudo aquilo que pensávamos ser real parece entrar em colapso. Então explodimos em expansão. Mas o processo mais uma vez nos levará a nos contrair e então a reforma — uma nova forma — vai começar. Às vezes, tudo o que podemos fazer quando o desafio chega e sentimos que nossas partes vão se desintegrando e voando para longe é manter-nos firmes e esperar.

Prestar atenção

Com freqüência, durante essa parte do ciclo de mudança, o desafio traz à superfície ambivalências, decepções com relação a nós mesmos e inconsistências. Se dizemos que acreditamos em determinada coisa e, no entanto, vivemos de um modo diferente, então todos os modos pelos quais não estamos vivendo as verdades que apoiamos virão chamar a nossa atenção, e nem sempre com gentileza. Exemplo: nós dissemos que, desde o momento em que os Estados Unidos declararam sua independência, acreditávamos que todas as pessoas nascem iguais. Porém, depois de uma Guerra Civil e mais 125 anos de luta social, ainda somos desafiados a viver aquilo em que dissemos acreditar. Ainda estamos manifestando uma realidade baseada numa crença profundamente assentada na desigualdade. Até que todas as pessoas realmente vivam em igualdade, continuaremos a ser desafiados.

Não há nenhum modo de manipular o universo com chavões e “boas intenções”.  Acima de minha escrivaninha, há um pôster com estes dizeres: “Hoje Não Faça Nada que Ofenda a Harmonia do Universo.” Eu declarei que acredito nisso. Mas houve uma época em que o Universo disse, efetivamente: “Vamos ver se você está mesmo prestando atenção na relação que isso tem que ver com a sua vida.” Nessa época, eu estava morando num lugar isolado nas montanhas da Carolina do Norte. Um dia, uma amiga foi me visitar e nós saímos em direção ao Blue Ridge Parkway para passarmos o dia. Decidimos parar e fazer um buquê de flores silvestres. Após alguns minutos, minha amiga disse: “Acho que não deveríamos estar fazendo isso. Não me sinto bem agindo assim.” “Por que não?”, perguntei. Ela deu de ombros e continuamos a colher um grande maço de flores. Na noite seguinte, eu estava lendo um livro de viagens a respeito do Tibete. Não se tratava absolutamente de um livro sobre a consciência — ou pelo menos era o que eu pensava. Na segunda página as seguintes palavras me saltaram aos olhos: “E, do ponto de vista deles, as duas piores coisas que alguém pode fazer são: maltratar uma criança e colher uma flor silvestre.”  Uma quinzena mais tarde, eu estava dando um curso de uma semana em uma associação. Um dos gestos que muito me agrada aplicar nessas aulas específicas consiste em oferecer uma flor a cada participante. Achei que o comitê organizador não iria gostar se eu apresentasse a conta de cinqüenta flores. Então, colhi um enorme buquê de flores silvestres fora da cidade, levei-o até a sala e coloquei-o num bule de café, num canto escondido e sombrio. Quando voltei, duas horas depois, elas tinham sumido misteriosamente. Era de se esperar que eu prestasse atenção a esse detalhe. Mas foi preciso outro incidente.
Uma semana após a conferência, minha filha e meu netinho de dois anos de idade foram me visitar nas montanhas. Ele e eu andamos contentes por mais de uma hora na campina, apanhando todo tipo de pedras. Quando estávamos perto de voltar, eu lhe perguntei: “Você não gostaria de levar uma flor para a mamãe?” Nisso, ele estendeu o corpo para colher uma flor silvestre e foi picado por quatro abelhas. Foi um momento assustador, pois não sabíamos se ele era alérgico a picadas de abelha, e estávamos pelo menos a trinta minutos do posto médico mais próximo. Felizmente, ele estava bem, mas o incidente certamente me perturbou.
A experiência foi menos a respeito de flores silvestres em si e mais a respeito de uma lição sobre sintonização acurada, coerência e atenção. Eu dissera que acreditava em não perturbar a harmonia do universo, mas me esquecera completamente do papel que as flores silvestres representam no ecossistema. Por fim, compreendi o que aquilo significava.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 128

Foto: Katerha

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