A ânsia pelo paraíso

A mudança nem sempre é alarmante — às vezes, ela vem suavemente. O desafio em sua forma mais sutil pode ser um anseio obscuro por algo que não tem nome. Em meio à vida mais simples que se orgulha de conduzir tudo em perfeita ordem, esse anseio pode se infiltrar como um nevoeiro e se assentar em toda parte.

Um amigo me escreveu: “Reconheço em mim mesmo um sentimento, uma ânsia tão antiga, tão pré-verbal e pré-racional, uma voz semelhante ao uivo de um lobo solitário que exprime o seu anseio pela lua. Não tenho palavras para transmitir isso, mas o desejo tem algo que ver com a vontade de ir muito mais adiante. Acho que é um anseio por mudança — e por Deus.”
O poeta Francis Thompson chamou esse anseio de “Ânsia pelo Paraíso”. Outros chamaram-no “descontentamento divino”. Não consigo me lembrar de uma época de minha vida em que eu não tivesse desejo de saber qual o objetivo de estarmos aqui. As perguntas ficavam esquecidas quando eu estava ocupada com os afazeres diários, para vir à tona mais tarde e mais fortes do que nunca — como se o próprio anseio fornecesse o combustível da busca. Uma amiga querida, que tem oitenta e dois anos, revelou-me um modo filosófico de conviver com esse desejo: “Eu preferiria ser uma pesquisadora — disse ela — a me contentar com o pouco que aprendi.”
Às vezes, o desafio pode chegar como um enfado que vem se arrastando lentamente. Tudo aquilo que já foi satisfatório uma vez perde o atrativo. Um dia, uma pessoa olha em volta para o mundo da competição e descobre que o dinheiro e o status profissional já não são mais suficientes. “Então é só isso o que conta?”Uma jovem vai à discoteca da moda, como de hábito, e descobre que aquelas mesmas coisas que haviam despertado o seu gosto na semana anterior haviam perdido a graça. O padre, tão dedicado quando começou seu ministério, descobre que a paixão esvaiu-se de sua vida e que está executando um ritual vazio.
O momento de desafio da mudança lança-nos para a beira do desconhecido. E isso provoca medo, todos os tipos de  medo. Teoricamente, podemos saber que a alegria, a realização e todas as respostas encontram-se no desconhecido.
Pragmaticamente, podemos ficar desconfiados.   Às vezes, o ego acha que o desafio é um acidente, algo que realmente não devia acontecer. Há uma antiga expressão militar que diz que você não morre enquanto a bala não tiver seu nome gravado nela. Provavelmente, aquilo que tememos é a bala que diz “a quem possa interessar”. Os acidentes, em geral, são manifestações de crenças que foram negadas ou não foram reconhecidas. Se realmente sentimos que nossa vida está fora de controle, podemos criar um “acidente” que exteriorize a exaltação interior. Se temos uma crença secreta de que “nada se ganha em se perder”, podemos provocar todos os tipos de colapso nos equipamentos que vão nos custar tempo e dinheiro. Em algum momento, damos permissão a nós mesmos para pegar uma virose, pelo menos com a nossa recusa de prestar atenção às necessidades do corpo. Há uma razão pela qual encontramos a nós mesmos no lugar onde ocorre um acidente.
Lembro-me de ter assistido a uma palestra do dr. J. Allen Hynek, o pesquisador de objetos voadores não identificados, que antigamente comandou o programa “Livro de Registros da Força Aérea”. Depois de sua exposição, que consistia num apelo por uma averiguação aberta e sem preconceito, ele abriu espaço para perguntas. Um homem disse que ouvira a idéia de que os OVNIs deveriam ser realmente irmãos do espaço que vinham aqui nos ajudar na nossa evolução. Antes que o dr. Hynek pudesse responder, o auditório explodiu em risadas. Depois que o riso cessou, o dr. Hynek perguntou aos ouvintes se sabiam por que estavam rindo tanto. Fê-los pensar que provavelmente haviam feito o mesmo quando estavam no quarto ano primário e ouviam as pessoas falar sobre sexo. Sexo era o misterioso desconhecido, e a melhor defesa contra o mistério contido nele era ridicularizá-lo. A platéia imediatamente silenciou.
Quando a forma é confrontada com o desafio, o ego às vezes ri. É um riso nervoso — o ego não quer ser considerado ridículo e ele teme a crítica. Ele também se precipita em dizer: “Isso não é verdade porque não condiz com aquilo que eu conheço.”
Então, como é que lidamos com a fase de desafio da mudança? O mais importante que podemos fazer para nós próprios é aceitá-la e mergulhar inteiramente nela. Também precisamos prestar atenção. O nosso mundo, tanto interior como exterior, sempre nos diz o que está acontecendo.
Se pudermos deixar de questionar, pelo menos no momento, tão logo percebamos que estamos fazendo isso (“Por que isso está acontecendo comigo?”), podemos poupar-nos uma grande ansiedade. É quando ficamos presos à idéia de que alguém tem de ser responsável por isso, que somos tentados a culpar a nós mesmos e aos outros. Isso apenas adia o processo todo. A essa altura, precisamos dizer para nós mesmos: “Ninguém está certo ou errado; ninguém é culpado, inclusive eu próprio. Isso simplesmente está acontecendo. Há um propósito nisso, e eu prefiro achar que está tudo bem se eu não entender neste momento que propósito é esse. Com o tempo, sei que vou compreender.”

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 131

Foto: Reuben

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