Tipos de mães

Embora possamos interpretar a mãe na história como um símbolo da nossa própria mãe exterior, a maioria dos adultos tem agora uma mãe interior, como legado da sua mãe verdadeira. Trata-se de  um aspecto da psique que atua e reage de um modo idêntico ao da experiência da infância de uma mulher com sua própria mãe.

Além do mais, essa mãe interior compõe-se não só da experiência da mãe pessoal mas também de outras figuras maternas das nossas vidas, bem como das imagens da mãe boa e da mãe perversa exibidas pela nossa cultura na época da nossa infância.
Para a maioria dos adultos, se houve problemas com a mãe concreta no passado, e eles não existem mais, ainda há uma cópia da mãe na psique, que age,  reage e fala igual à da tenra infância. Muito embora a cultura de uma mulher possa ter desenvolvido um raciocínio mais consciente acerca do papel das mães, a mãe interior terá os mesmos valores e idéias a respeito de como uma mãe deve ser e agir que vigoravam na cultura na nossa infância.                             ‘
Na psicologia junguiana, esse emaranhado todo é chamado de  complexo materno. Trata-se de um dos aspectos centrais da psique da mulher, e é importante reconhecer sua condição, reforçando certas características, corrigindo algumas, erradicando outras, e começando tudo de novo se necessário.
A mãe pata na história tem alguns atributos, que analisaremos individualmente. Ela é ao mesmo tempo uma mãe ambivalente, uma mãe prostrada e uma mãe sem mãe. Com o exame dessas estruturas maternas, podemos começar a avaliar se nosso complexo materno interior sustenta com firmeza nossas qualidades exclusivas ou se ele está precisando de um ajuste já há muito atrasado.

A MÃE AMBIVALENTE

Na nossa história, a  mãe pata é isolada à força dos seus instintos. É tratada com escárnio por ter um filhote diferente. Sente-se dividida emocionalmente e acaba prostrada, desistindo de cuidar do filhote estranho. Embora a princípio ela tente se manter firme, a “diferença” do patinho começa a prejudicar a segurança da mãe na própria comunidade, e ela abaixa a cabeça e mergulha.
Vocês já presenciaram alguma vez uma mãe forçada a tomar uma decisão dessas, se não por inteiro, pelo menos em parte? A mãe curva-se aos desejos da comunidade em vez de se alinhar a favor do filho. Até mesmo nos nossos dias, as mães ainda encenam os medos bem-fundados de séculos de antepassadas. Ser isolada da comunidade significa no mínimo ser ignorada e encarada com suspeita e, na pior das hipóteses, ser acossada e destruída. A mulher que viva num ambiente semelhante irá tentar moldar a filha para que esta aja de modo “conveniente” no mundo objetivo.
Nesse caso, tanto a mãe quanto a filha estão divididas. Na história do patinho feio, a mãe pata está dividida em termos psíquicos, e isso faz com que seja puxada em diversas direções diferentes, o que é a própria definição da ambivalência. Qualquer mãe que tenha estado sob fogo cruzado a reconhecerá. Uma direção é o seu próprio desejo de ser aceita pela comunidade. Outra é o instinto de autopreservação. Uma terceira é o medo de que ela e o filhote venham a ser castigados, perseguidos ou mortos pela comunidade. Esse medo é uma reação normal a uma ameaça anormal de violência física ou psíquica. A quarta força é  o amor instintivo da mãe pelo filho e a preservação desse filho.
Não é raro em culturas punitivas que a mulher se sinta dilacerada entre a opção de ser aceita pela classe dominante (pela comunidade) e a de amar seu filho, seja ele um filho simbólico, fruto da sua criatividade, seja ele um filho biológico. Essa é uma história muito antiga. As mulheres sempre morreram em termos psíquicos e espirituais por tentar proteger o filho não-aprovado, seja ele sua arte, seu amor, sua política, sua prole ou a vida da  sua alma. Nos casos extremos, as mulheres foram  enforcadas, queimadas e assassinadas por desafiarem as proibições da comunidade e dar abrigo ao filho não-aprovado.
A mãe com um filho que seja diferente precisa ter a resistência de Sísifo, a aparência temível dos Ciclopes e a insensibilidade de Caliban  para enfrentar uma cultura perversa. As condições culturais mais destrutivas para o nascimento e a vida de uma mulher são aquelas que insistem em obediência sem consulta à própria alma, aquelas sem carinhosos rituais de absolvição, aquelas que forçam a mulher a escolher entre a alma e a sociedade, aquelas nas quais a compaixão é segregada pelas classes econômicas ou por sistemas de castas, em que o corpo é visto como algo que precisa ser “purificado” ou como um santuário a ser regulamentado por decreto, nas quais o novo, o incomum ou o diferente não geram prazer, nas quais a curiosidade e a criatividade são punidas e censuradas em vez de recompensadas, ou recompensadas apenas quando não se é mulher, nas quais são perpetrados contra o corpo atos dolorosos que são chamados de sagrados, ou nas quais a mulher é castigada injustamente, como diz Alice Miller sucintamente, “para seu próprio bem” , nas quais a alma não é reconhecida como um ser por seus próprios méritos.
Quando a mulher tem essa imagem da mãe ambivalente na sua própria psique, ela pode se descobrir cedendo com muita facilidade. Ela pode se descobrir com medo de firmar uma posição, de exigir respeito, de afirmar seu direito a fazê-lo, de aprender, de viver do seu próprio modo.
Quer essas questões tenham origem numa imagem interna, quer numa cultura externa, para que a função da maternidade supere restrições desse tipo, ela deveria ter algumas qualidades ferozes, qualidades que, em muitas culturas, são consideradas masculinas. Há gerações, infelizmente, a mãe que quisesse gerar estima em si mesma e na sua prole precisava ter as qualidades exatas que lhe eram expressamente proibidas: a veemência, o destemor e a aparência atemorizante.
Para uma mãe criar feliz um filho que seja ligeiramente, ou altamente diferente nas necessidades da sua psique e da sua alma em comparação com a corrente principal da sua cultura, ela precisa tomar a dianteira no que diz respeito a algumas qualidades heróicas. Ela precisa ser capaz de roubar essas qualidades, se elas não lhe forem permitidas, abrigá-las, liberá-las na hora certa e defender a si mesma e àquilo no que acredita. Praticamente não existe um meio de preparar a pessoa para isso, a não ser inspirar profundamente para ganhar coragem e agir. Desde tempos imemoriais, o que foi considerado um ato de heroísmo foi a cura para uma ambivalência paralisante.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: My Mailo

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