A lembrança e a persistência não importa o que aconteça

Todas nós temos um anseio que sentimos pela nossa própria turma, nossa turma selvagem. Vocês devem se lembrar de que o patinho fugiu depois de ser impiedosamente torturado. Em seguida, teve uma altercação com um bando de gansos e quase foi morto pelos caçadores. Foi expulso de um quintal e da casa de um lavrador e, finalmente, exausto, caiu tremendo às margens do lago. Não há mulher que não conheça essa sensação. E no entanto, é exatamente esse anseio que nos leva a insistir, a continuar, a prosseguir com esperança.

É essa a promessa da psique selvagem para todos nós. Mesmo que tenhamos apenas ouvido falar de um maravilhoso mundo selvagem ao qual um dia pertencemos, apenas vislumbrado esse mundo ou sonhado com ele, mesmo que até agora nós ainda não o tenhamos tocado ou apenas o tenhamos tocado momentaneamente, mesmo que nós não nos identifiquemos como parte dele, a recordação desse mundo é um farol que nos guia para o lugar ao qual pertencemos, pelo resto de nossas vidas. No patinho feio, um sábio anseio surge quando ele vê os cisnes alçando vôo pêlos céus, e a partir desse único acontecimento sua lembrança daquela visão lhe dá sustento.
Trabalhei com uma mulher que estava muito perto do seu limite e pensava em suicídio. Uma aranha que tecia uma teia na sua varanda chamou sua atenção. Não saberemos nunca exatamente o que na atividade do pequeno inseto foi capaz de quebrar o gelo que circundava sua alma para que ela pudesse se libertar e voltar a crescer.  No entanto, estou convencida, tanto como psicanalista quanto como cantadora, que muitas vezes são as coisas da natureza que têm maior capacidade de cura, especialmente aquelas muito simples. Os remédios da natureza são poderosos e diretos: uma joaninha na  casca verde de um melão, um tordo com um pedaço de barbante, uma planta do mato em flor, uma estrela cadente, até mesmo um arco-íris num caco de vidro na rua, qualquer um deles pode ser o remédio adequado. A persistência é estranha: ela exige uma energia tremenda e pode se abastecer por um mês com cinco minutos de contemplação de águas calmas.
É interessante salientar que, entre os lobos, não importa o quanto esteja doente, não importa o quanto esteja acuada, o quanto esteja só ou enfraquecida, a loba persiste. Ela corre mesmo com a perna quebrada. Ela se aproxima dos outros à procura da proteção da matilha. Ela se esforça ao máximo para superar na espera, na astúcia, na velocidade ou na duração da vida aquilo que a esteja atormentando.
Ela dedicará todas as suas forças a respirar bem. Ela se arrastará, se necessário, igual  ao patinho, de um lugar para o outro até encontrar o lugar certo, um lugar benéfico, em que possa se recuperar.
A principal característica da natureza selvagem é a persistência. A perseverança. Isso não é algo que se faça. É algo que se é, em termos naturais e inatos. Quando não temos condição de vicejar, seguimos adiante até podermos voltar a vicejar. Seja o nosso isolamento originado de um afastamento da nossa vida criativa, seja uma cultura ou uma religião que nos rejeitou, seja um exílio da família, um banimento de um grupo, seja a imposição de sanções a nossos movimentos, pensamentos e sentimentos, a vida selvagem profunda continua, e nós persistimos. A natureza selvagem não é natural de nenhum grupo étnico específico. Ela é a natureza essencial das mulheres do Daomé, dos Camarões e da Nova Guiné. Ela está nas mulheres da Letônia, dos Países Baixos, de Serra Leoa. Ela está no cerne das mulheres da Guatemala, do Haiti, da Polinésia.  Digam o nome de um país, de uma raça, de uma religião, de uma tribo. Digam o nome de uma cidade, de uma aldeia, de um solitário posto fronteiriço. Todas as mulheres têm isso em comum: a Mulher Selvagem, a alma selvagem. Todas elas continuam a tatear em busca do selvagem e a segui-lo.
Por isso, se precisarem, as mulheres pintarão céus azuis nas paredes da prisão. Se a meada se queimou, elas fiarão mais. Se a colheita estiver destruída, elas farão outra semeadura imediatamente. As mulheres desenharão portas onde não houver nenhuma. E elas as abrirão e passarão por essas portas para novos caminhos e novas vidas. Como a natureza selvagem persiste e triunfa, as mulheres persistem e triunfam.
O patinho é levado a arriscar a vida por um fio. Ele já se sentiu só, frio, congelado, acuado, perseguido. Já atiraram nele, já desistiram dele. Ele já se sentiu desnutrido, longe, fora de todos os limites, no limiar entre a vida e a morte, e sem saber o que iria acontecer depois. Nessa hora vem a parte mais importante da história: chega a primavera, começa a vida nova, uma reviravolta, uma nova oportunidade de tentar. O mais importante é esperar, agüentar esperando pela nossa vida criativa, pela nossa solidão, pelo nosso tempo de ser e de fazer, pela nossa própria vida. Esperemos, pois a promessa da natureza selvagem é a seguinte: depois do inverno, sempre vem a Primavera.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Alexindigo

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