O amor pela alma

Aguarde. Confie. Faça sua parte. Você descobrirá seu próprio caminho. No final da história, os cisnes reconhecem o patinho como um dos seus antes dele mesmo. Isso é bem típico das mulheres exiladas. Depois de tanto sofrer e vaguear, elas conseguem atravessar por acaso a fronteira com seu próprio território e muitas vezes não percebem por um certo tempo que as expressões das pessoas deixaram de ser depreciativas e passaram a ser neutras com maior freqüência, quando não sejam de admiração e de aprovação.

 Seria de se pensar que, já que estão agora no seu próprio chão psíquico, elas estariam delirantemente felizes. Mas, não. Pelo menos por algum tempo, sentem uma terrível desconfiança. Será que essas pessoas realmente me consideram? Será que aqui eu estou em segurança? Será que não vão me espantar daqui? Será que agora vou poder dormir com os dois olhos fechados? Será que está certo agir como… um cisne? Com o tempo, essas suspeitas são abandonadas, e começa o próximo estágio da volta ao próprio eu: a aceitação da nossa própria, beleza singular, ou seja, da alma selvagem da qual somos feitas.
É provável que não exista uma medida melhor e mais confiável para se saber se uma mulher passou pelo  status de patinho feio em algum ponto da sua vida ou durante toda ela do que sua incapacidade de aceitar um cumprimento sincero.
Embora essa atitude possa ser uma questão de modéstia  ou possa ser atribuída à timidez  — apesar de muitíssimos ferimentos graves serem descartados descuidadamente como “nada mais do que timidez”  — é muito mais comum que a mulher evite o elogio, gaguejando, porque ele inicia um diálogo automático e desagradável na mente da mulher.
Se você disser que ela é bonita, que sua arte é linda ou se a elogiar por alguma coisa de que sua alma participou, que tenha sido inspirada por sua alma ou que esteja dela impregnada, algo na sua cabeça lhe diz que ela não merece o  elogio e que você, que a está elogiando, é idiota por ter uma opinião dessas a seu respeito. Em vez de entender que a beleza da sua alma aparece refulgente quando ela é ela mesma, a mulher muda de assunto e consegue assim roubar o sustento do self-alma, que se nutre de ser reconhecido.
Portanto, essa é a função final da mulher exilada que encontra seu próprio grupo: não só a de aceitar a própria individualidade, a própria identidade específica como um determinado tipo de pessoa, mas também a de aceitar a própria beleza… a forma da nossa própria alma e o fato de que viver junto dessa criatura selvagem transforma a nós e a tudo que ela toca.
Quando aceitamos nossa própria beleza selvagem, ela fica em perspectiva, e nós deixamos de ser incomodadas pela sua percepção, mas também não renunciaríamos a ela nem negaríamos sua existência. Uma loba sabe a beleza que tem ao saltar? Uma fêmea de felino sabe as belas formas que cria ao se sentar? Uma ave se espanta com o som que ouve ao abrir as asas? Aprendendo com elas, simplesmente agimos à nossa própria maneira e não evitamos nossa beleza natural nem nos escondemos dela. Como os animais, simplesmente somos, e isso é bom.
Para as mulheres, essa procura e essa descoberta se baseiam na misteriosa paixão que as mulheres  têm pelo selvagem, pelo que lhes é inato. Estivemos chamando o objeto desse anseio de Mulher Selvagem… mas, mesmo quando as mulheres não a conhecem pelo nome, mesmo quando não sabem onde ela reside, elas se esforçam para alcançá-la: elas a amam do fundo  do coração. Elas anseiam por ela, e esse anseio é tanto motivação quanto locomoção. É esse desejo intenso que nos faz procurar a Mulher Selvagem e encontrá-la. Não é tão difícil quanto se poderia  imaginar a princípio, pois a Mulher Selvagem também está procurando por nós. Nós somos seus filhotes.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: Property #1

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