Sincronicidade: a coincidência de Deus

Há uma história sobre um “fazedor de chuvas” que foi levado para uma aldeia que vinha passando por um período de seca há muito tempo. Quando ele chegou, encontrou os aldeões aborrecidos e ansiosos. O clima reinante na aldeia fez com que ele também se sentisse assim; por isso, retirou-se para uma cabana, onde não fez nada a não ser ficar quieto.

Seu silêncio acabou por se alastrar e os aldeões ficaram mais calmos. Em pouco tempo as chuvas chegaram. Ele não havia feito nada, a não ser colocar a sua energia em harmonia com o universo. E então as forças naturais trouxeram a chuva.
As misteriosas “coincidências” que chegam como chuva necessária em nossa vida geralmente contribuem para o ciclo do despertar da mudança. Superficialmente, parecem ser acontecimentos ilógicos e improváveis: Como é que eu encontrei aquela pessoa precisamente naquele momento? Como recebi aquela ajuda financeira exatamente na hora certa? Como aconteceu de eu escolher exatamente aquele livro?
A coisa toda tem um sabor de magia. Não é de admirar que alguns de nós atribuam à magia, a alguma força exterior que decidiu tirar-nos da miséria.
Outros, curiosamente, insistem que aquele acontecimento naquele exato micros-segundo é pura coincidência. De qualquer modo, nós nos empenhamos muito para tornar a “coincidência” racional.
Na época pré-científica, víamos o universo todo como algo que fazia parte dos assuntos atinentes aos seres humanos. Os céus profetizavam o nascimento e a morte dos grandes personagens; um cometa anunciava o nascimento de um novo governante. Guerras, inundações e outros fenômenos naturais devastadores comparavam-se a terríveis alterações de eventos na experiência humana.
No Ocidente, fomos educados para captar a realidade de um modo linear e seguro. Uma coisa acontece porque alguma outra coisa, antes, a pôs em movimento. Acrescente-se a isso a nossa idéia de que as pessoas, árvores, pássaros, animais — todas as coisas que vivem — são pequenas unidades de vida separadas, atuando independentemente umas das outras.  Bem, acontece que a vida assemelha-se mais a um círculo que a uma linha reta. O tempo urde a trama, o espaço se curva e todos estamos interligados no campo morfogenético. Vamos ter de abrir mão até mesmo do nosso mito favorito da “realidade objetiva” e ver que somos participantes da formação de qualquer realidade, não apenas observadores. Causa e efeito, ao que parece, são uma dança multidimensional que estamos executando através do passado, do presente e do futuro com tudo aquilo que vive.
A consciência é a ponte que está sendo construída entre os mundos da mente e da matéria. Cada um de nós é um ponto de consciência que focaliza a sua atenção no espaço e no tempo. Dirigimos energia para os padrões que acreditamos serem possíveis. Se não conseguimos conceber uma coisa, não podemos criá-la. Se percebemos uma coisa como boa ou ruim,  imediatamente mandamos instruções aos nossos sistemas neuroquímicos a respeito de como reagir. A consciência percebe, deseja, repele e atrai tudo aquilo que acha que necessita ou não, que deseja ou não — dentro de um mar de infinitas possibilidades — e então atribui valores.
Você e eu existimos na totalidade, mas esquecemos que estamos ligados a muitas outras realidades. Se estamos conscientes de que estamos construindo num mundo tridimensional, não estamos tão conscientes de estarmos penetrando no espaço e no tempo em busca dos materiais de construção.
De vez em quando, o especialista que fica sentado diante dos controles do computador do cérebro esquerdo dá uma cochilada e a informação começa a flutuar, do subconsciente e do superconsciente, através do cérebro direito. Assim como os sonhos e as experiências mediúnicas transcendem os limites de tempo-espaço para nos ajudar a resolver o empurra-empurra da resistência, assim acontece com a coincidência. Ela nos faz sair da focalização comum e nos leva a uma ligação mais completa com nós próprios e com toda a vida. Coincidência é de fato uma palavra falsa; é uma substituta para a importante dinâmica da energia chamada sincronicidade. Não conseguimos compreender a sincronicidade até reconhecermos que todos partilhamos de uma área comum. O biólogo da virada do século, Paul Kammerer, chamou-a de “o cordão umbilical que interliga o pensamento, os sentimentos, a ciência e a arte com o ventre do universo que os deu à luz”.
O dr. Carl Jung trouxe para o Ocidente o reconhecimento dessa dinâmica interação entre a psique e o mundo material através do conceito da sincronicidade.
Essa idéia já estava inserida na visão oriental da realidade. Os antigos chineses, por exemplo, não viam os acontecimentos de um modo linear, e sim, como diz o  I Ching, “agrupando-se no tempo”.
Os analistas junguianos vêem a natureza tomar um rumo inevitável num tipo de personalidade que eles denominam “O Jogador”. Trata-se de pessoas que pintaram a si mesmas segundo o ângulo proverbial. Elas esgotaram todas as opções e recursos. Não há mais nada a fazer, a não ser esperar que o universo faça alguma coisa. E ele faz. Toda a atenção da pessoa se volta para determinado momento crítico, as energias se concentram e então ocorrem eventos sincronísticos imprevisíveis.
Tom Chetwynd, no  Dicionário de Símbolos, define a sincronicidade como “coincidência significativa, padrões de mudança relacionados significativamente”. A sincronicidade não é considerada acaso: ela é o movimento de uma energia carregada de propósito.
Em seu livro Sincronicidade, F. David Peat diz que as “sincronicidades são os trunfos no baralho da natureza, pois elas se recusam a jogar conforme as regras e oferecem um palpite, segundo o qual, na nossa busca de certeza a respeito do Universo, podemos ter ignorado algumas pistas vitais”.
As sincronicidades parecem ocorrer mais durante o ciclo do despertar do que em qualquer outro ciclo da mudança. Ou talvez estejamos simplesmente mais conscientes delas. Desconfio que as mais dramáticas estejam codificadas no plano de vida, já que aparecem freqüentemente como momentos de decisão significativos: nascimentos, mortes, primeiros encontros com pessoas e idéias importantes, soluções “instantâneas” para quebra-cabeças que existem há muito tempo. Quando o desejo é real e o tempo é adequado para o bem da alma, a necessidade é assinalada imediatamente em todos os lugares, e a ajuda apropriada é atraída para aquilo que se faz necessário.
Um amigo meu estava viajando a negócios para a Califórnia. Inesperadamente, decidiu fazer escala no Texas ao voltar para casa, que fica na Carolina do Norte. No aeroporto de Dallas, pegou o primeiro táxi que viu e logo pôs-se a conversar animadamente com o motorista, que lhe falou do irmão que tinha um problema de glaucoma, bem adiantado. Embora o irmão estivesse lutando com a doença há muito tempo, ele agora estava a ponto de desistir, mas o motorista ainda rezava por um milagre. Meu amigo contou-lhe sobre o trabalho de cura que eu fazia, e o motorista mostrou-se interessado. Os dois trocaram endereços. Meu amigo trouxe essa solicitação para a Carolina do Norte e o trabalho de cura começou. Três semanas depois, meu amigo recebeu um bilhete de poucas palavras: “Meu irmão está curado. Os médicos estão estupefatos. Graças a Deus.” Que força podia ter atraído alguém que conhecia uma pessoa capaz de curar para o táxi daquele homem precisamente na hora devida? A sincronicidade!
Conheço um ministro da igreja que parara no estágio de resistência devido à morte inesperada de sua querida filha de dezenove anos. Ele simplesmente não conseguia conciliar seus ensinamentos religiosos com a perda. Para o funeral da moça, foram impressas borboletas no cartão de lembranças, porque a jovem gostava muito delas. A tristeza do pai já durava meses, quando sua secretária decidiu escrever para um ministro de culto muito famoso, pedindo ajuda. O ministro estava fora da cidade quando a carta chegou, mas a secretária dele respondeu por iniciativa própria porque tinha ficado muito comovida com o pedido. Ela comentou, em sua carta, que algo estranho acontecera quando se sentou para escrever: “Uma borboleta pousou no meu dedo.” Poucas semanas depois, o ministro e a esposa foram à praia em busca de tranqüilidade. Estacionaram o carro perto do mar e puseram-se a andar por uma hora aproximadamente. Quando voltaram para o carro, ele estava cercado por centenas de borboletas. O ministro me contou que ele não conseguia entender logicamente por que razão aquele fato resolveu o seu conflito, mas resolveu. Esse acontecimento ensinou-lhe mais a respeito da continuidade da vida do que todas as suas teologias e proporcionou-lhe o despertar frente à sua profunda resistência causada pela morte da
filha.
Às vezes, nossos sonhos trabalham com eventos físicos para provocar o despertar. Tenho um amigo na Islândia que é um médico dedicado e um espiritualista devoto. Ele foi educado num lar liberal que ensinava princípios espiritualistas universais. Nesse contexto, Jesus era reconhecido como mestre, mas apenas um dentre vários outros. Quando meu amigo se expôs às opiniões de cristãos que não admitiam nenhuma outra possibilidade de divindade senão a de Jesus, entrou em conflito, que não conseguia resolver. Foi aí que teve o seguinte sonho: Ele estava de pé no meio de uma grande catedral mórmon durante uma cerimônia religiosa. De repente, Jesus apareceu usando vestes brancas e sandálias, assim como costuma ser representado na arte clássica cristã. Meu amigo disse que teve um momento de aguda ansiedade. “E se eles estavam certos o tempo todo?”, indagou-se ele. “E se realmente só houver um mestre e se esse mestre for Jesus?”
Porém, enquanto ele se punha a olhar para um ponto do infinito, o Jesus do seu sonho pairava entre os bancos da igreja e, ao passar pelo meu amigo, voltou-se para ele e deu-lhe um sinal piscando os olhos. O sentimento de amor que foi comunicado por Jesus era este: “Vou aparecer do modo que você ou qualquer outra pessoa precisar me ver. Se você precisa me ver como Jesus vestido de branco, é assim que eu vou me revelar.” Meu amigo acordou com uma compreensão mais profunda do Cristo Universal, e seu conflito foi resolvido satisfatoriamente.
A sincronicidade veio resolver um conflito para mim quando meu trabalho de cura começou a se desenvolver. Isso ilustra bem como atraímos para nós experiências que se encaixam perfeitamente na nossa vida interior.
Eu tinha começado minha carreira como jornalista e partilhava do sistema de crenças da maior parte dos meus contemporâneos: você trabalha bastante e progride profissionalmente de maneira razoável, inclusive financeiramente. Eu tinha parado de trabalhar como jornalista quando o trabalho de cura começou e levei algum tempo para encontrar o meu novo direcionamento. Eu nunca havia sonhado que a cura e o aconselhamento surgiriam para mim como uma profissão de tempo integral. Tudo começou com o lado penoso da resistência. Como eu poderia ganhar a vida? As pessoas poderiam pensar que eu estava louca. Afinal de contas, o que é que Deus queria de mim? Quanto mais forte ficava a resistência, mais eu pensava em voltar a trabalhar como jornalista. Enquanto isso, eu orava para obter orientação. E o despertar veio, embora de um modo que eu não esperava. Foi-me oferecido aquilo pelo qual eu vinha rezando — o melhor emprego. Quando me sentei para a entrevista, tentando encontrar satisfação com o entusiasmo demonstrado pelo entrevistador, senti-me muito mal. Lá estava exatamente aquilo que eu tinha dito que queria. E, no entanto, eu me sentia infeliz. Cada descarga atinente à minha resistência era formada com letras maiúsculas. Era como se o Espírito me dissesse: “Bem, aqui está uma escolha bem clara. O que é que você vai fazer?”
Eu mal consegui sair do escritório antes de me desfazer em lágrimas. Pulei para dentro do carro, pus a cabeça na direção e disse: “Okay, Deus, você venceu.”
Acabara-se a minha noção preconcebida de que meus grandes momentos com Deus seriam banhados em luz filtrada por vitrais coloridos, com anjos cantando ao fundo. Tudo o que ouvia eram carros buzinando. O espírito utiliza a energia em movimento da sincronicidade em qualquer lugar que estejamos.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 161

Foto: Joe Doe 2010

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