A perda brutal nos contos de fadas

É mais do que razoável que se pergunte por que motivo os contos de fadas têm finais tão brutais. Trata-se de um fenômeno  encontrado por toda a parte nas mitologias e no folclore. O horripilante fecho dessa história é típico dos finais de histórias de fadas nas quais a protagonista espiritual é incapaz de completar um esforço de transformação.

Em termos psicológicos, o episódio brutal comunica uma verdade psíquica imperiosa. Essa verdade é tão urgente  — e no entanto tão fácil de ser descartada quando dizemos: “Ah, sim, é, entendo” e seguimos, mesmo assim, na direção da  nossa ruína — que é improvável que prestemos atenção ao aviso se ele for expresso em termos mais leves.
No mundo tecnológico moderno, os episódios brutais dos contos de fadas foram substituídos por imagens nos comerciais da televisão como, por exemplo, aquelas que mostram uma fotografia de uma família com um dos membros eliminado e com um rastro de sangue cobrindo a fotografia para mostrar o que acontece quando a pessoa dirige alcoolizada, ou aquelas imagens que tentam convencer as pessoas a não usarem drogas ilícitas mostrando um ovo a borbulhar numa frigideira e salientando que é isso o que ocorre com o cérebro submetido a drogas. A imagem brutal é um velho recurso para fazer com que o self emotivo preste atenção a uma mensagem muito séria.
A verdade psicológica na história dos sapatinhos vermelhos é a de que a vida expressiva da mulher pode ser sondada, ameaçada, roubada ou seduzida a não ser que ela se mantenha fiel à sua alegria básica e ao seu valor selvagem, ou que os resgate. A história chama a nossa atenção para armadilhas e venenos com os quais nos envolvemos com excessiva facilidade quando estamos sem a proteção da alma selvagem. Sem uma firme participação da natureza selvagem, a mulher definha e cai numa obsessão pelo que a faça se sentir melhor, pelo que a deixe em paz e por qualquer um que a ame, pelo amor de Deus.
Quando está esfaimada, a mulher aceita qualquer substituto que lhe seja oferecido, incluindo-se aqueles que, como os placebos, não fazem absolutamente nada por ela e os que são destrutivos e perigosos, que a fazem gastar seu tempo e seu talento de modo revoltante ou que expõem sua vida a perigos físicos. Trata-se de uma fome da alma que leva a mulher a optar por aquilo que a fará sair dançando descontrolada — e a levará também perto demais da porta do carrasco.
Portanto, para podermos compreender essa história com maior profundidade, precisamos ver como uma mulher pode se perder de forma tão drástica ao perder sua vida selvagem e instintual. O jeito de nos mantermos fiéis ao que temos, o jeito de descobrir o caminho de volta ao feminino selvagem, está em ver os erros que pode cometer uma mulher presa numa armadilha dessas. Só então podemos voltar atrás para consertar os estragos. Só então podemos ter uma reunião.
Como veremos, a perda dos sapatos vermelhos feitos à mão representa a perda da vitalidade passional e da vida que a própria mulher projetou para si, aliadas à adoção de uma vida domesticada em excesso. Isso acaba levando à perda da percepção aguçada, que induz aos excessos, à perda do pé, a plataforma sobre a qual pousamos, nossa base, um  aspecto profundo da nossa natureza instintual que sustenta a nossa liberdade.
“Os sapatinhos vermelhos” nos mostra como tem início uma deterioração e o estado a que chegamos se não tomamos qualquer iniciativa em defesa da nossa própria natureza selvagem. Que não reste dúvida, quando a mulher se esforça por intervir e combater seus próprios demônios, quaisquer que sejam eles, essa é uma guerra das mais valiosas, tanto em termos arquetípicos quanto nos da realidade consensual. Muito embora ela possa, como ocorre na história, chegar ao fundo do poço em decorrência da fome, do cativeiro, do instinto prejudicado, de escolhas destrutivas e de todo o resto, lembrem-se de que no fundo é onde ficam as raízes vivas da psique. É ali que estão os alicerces selvagens da  mulher. No fundo está o melhor solo para semear e ver crescer algo de novo. Nesse sentido, chegar ao fundo do poço, embora extremamente doloroso, é chegar ao terreno de semeadura.
Apesar de que jamais desejaríamos os venenosos sapatinhos vermelhos e subseqüente definhamento para nós mesmas nem para ninguém mais, existe no seu centro ardente e destrutivo algo que mescla a ferocidade e a prudência na mulher que dançou a dança maldita, que perdeu a si mesma e à sua vida criativa, que se transportou até o inferno numa cestinha barata (ou cara) e que, mesmo assim, de algum modo se manteve fiel a uma palavra, um pensamento, uma idéia até poder fugir desses demônios por uma fresta no tempo e poder sobreviver para contar sua história.
Portanto, a mulher que perdeu  o controle pela dança, que perdeu seu equilíbrio e seus pés e compreende esse estado de privação no final da história, tem um conhecimento especial e valioso. Ela é como um  saguaro, um belo cacto gigante que sobrevive no deserto. Esses cactos podem ser perfurados por muitos tiros, podem ser entalhados, derrubados, pisoteados e ainda assim sobrevivem, ainda assim armazenam a água que dá vida, ainda assim crescem loucamente e se recuperam com o tempo.
Apesar de os contos de fadas acabarem ao final de dez páginas, nossas vidas não acabam junto. Nós somos coleções de muitos volumes. Na nossa vida, mesmo que um episódio represente um desastre total, sempre há um outro episódio à nossa espera e depois mais outro. Há sempre outras oportunidades para acertar, para moldar nossa vida do jeito que merecemos que ela seja. Não percam tempo amaldiçoando alguma derrota. O fracasso é um mestre mais eficaz do que o sucesso. Ouçam, aprendam, insistam. É isso o que estamos fazendo com essa história.
Estamos ouvindo sua mensagem  antiqüíssima. Estamos aprendendo lições sobre modelos deteriorantes para podermos prosseguir com a força de quem sabe pressentir as armadilhas, arapucas e iscas antes de nos defrontarmos com elas ou de com elas nos envolvermos.
Comecemos a destrinchar essa significativa história compreendendo o que acontece quando a vida que mais valorizamos, não importa a impressão que ela cause nos outros, a vida que mais amamos, é desvalorizada e reduzida a cinzas.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Crazy Fast

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