As armadilhas

Armadilha n° 1: A carruagem dourada, a vida desvalorizada

No simbolismo dos arquétipos, a carruagem é uma imagem literal, um veículo que transporta alguma coisa de um lugar para outro. Nos temas de sonhos modernos e no folclore contemporâneo, ela foi suplantada principalmente pelo automóvel, que dá a mesma “impressão” arquetípica. Do ponto de vista clássico, esse tipo de veículo de “transporte” é compreendido como a disposição central da psique, que nos transporta de um lado da psique para o outro, de uma idéia para outra, de um pensamento para outro e de uma iniciativa para outra.

O ato de subir na carruagem dourada da velha senhora nesse ponto é muito parecido com a entrada na gaiola dourada. Ela supostamente oferece algo mais confortável, menos estressante, mas na realidade sua função é a de cativeiro. Ela prende de um jeito imperceptível de imediato, já que a princípio os dourados costumam ser ofuscantes. Imaginemos, portanto, que vamos descendo a estrada da nossa vida, com nossos sapatos feitos por nós mesmas, e somos acometidas por uma disposição de ânimo que nos diz algo como “Talvez outra coisa fosse melhor; talvez algo que não fosse tão difícil; algo que consumisse menos tempo, energia e esforço.”
Isso ocorre muitas vezes na vida das mulheres. Estamos no meio de um empreendimento e não importa como nos sintamos a respeito dele. Estamos simplesmente criando nossa vida  à medida que avançamos e fazendo o melhor  possível. Logo, porém, somos inundadas por algo que nos diz, isso é muito difícil, mas olhe só aquela beleza logo ali; aquele negócio todo enfeitado parece ser mais fácil, mais bonito, mais irresistível. De repente,  uma carruagem dourada se aproxima, a porta se abre, a escadinha cai e nós subimos. Fomos seduzidas. Essa tentação ocorre com regularidade, às vezes diariamente. E às vezes é difícil dizer não.
Por isso, nós nos casamos com a pessoa errada porque nossa vida será mais fácil em termos econômicos. Desistimos de uma peça nova na qual estivemos trabalhando e voltamos a usar a velha e desgastada fórmula, porém mais fácil, que viemos tentando forçar nos últimos dez anos. Não levamos aquele belo poema ao nível de  refinamento máximo mas o deixamos no terceiro rascunho em vez de trabalhar nele mais um pouco.
A passagem da carruagem dourada supera a alegria modesta dos sapatos vermelhos. Embora pudéssemos interpretar esse fato como a procura por parte da mulher de bens e confortos materiais, muitas vezes ele exprime um mero desejo psicológico de não ter de se esforçar tanto com os aspectos básicos da vida criativa. O desejo de facilitar a vida não é a armadilha, pois é natural que o ego tenha esse desejo. Ah, mas o preço. O preço é que é a armadilha. A armadilha se fecha quando a menina vai morar com a senhora velha e rica. Nessa casa, ela deverá ficar bem-comportada e em silêncio… Não lhe será permitido verbalizar nenhum anseio e, mais especificamente, não lhe será permitida a realização desse anseio. É o início da fome da alma para o espírito criativo.
A psicologia junguiana tradicional salienta que a perda da alma ocorre especialmente na metade da vida, por volta dos trinta e cinco anos de idade, ou pouco depois. No  entanto, para as mulheres na cultura moderna, a perda da alma é um perigo a cada dia que passa, quer se tenha dezoito, quer oitenta anos, sejamos casadas ou não, independente da nossa linhagem, instrução ou nível econômico.
Muitas pessoas “instruídas” sorriem com superioridade quando ouvem falar que as pessoas “primitivas” possuem listas intermináveis de experiências e acontecimentos que na sua opinião podem roubar sua alma — desde ver um urso na época errada do ano até entrar numa casa que não foi benzida depois de ali ter ocorrido uma morte.
Embora muitos aspectos da cultura moderna sejam maravilhosos e revitalizantes, ela também possui maior quantidade de ursos em época errada e locais não-abençoados num único quarteirão do que em milhares de quilômetros quadrados de mato. O fato psíquico crucial continua a ser o de que nosso vínculo com o significado, com a paixão, com o envolvimento e com a natureza profunda é algo que precisamos proteger. Existem muitas coisas que tentam nos forçar, nos arrastar, nos seduzir para longe dos sapatos feitos à mão, que aparentam ser simples como quando dizemos: “numa outra hora, eu danço, planto, abraço, procuro, planejo, aprendo, faço as pazes, limpo… numa outra hora.” Só armadilhas.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: Mendhak

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