Armadilha n° 2: A velha secarrona, a força senescente

Na interpretação dos sonhos e dos contos de fadas, compreende-se que aquele que possui o “veículo de atitudes”, a carruagem dourada, é o principal valor que pressiona a psique, que a força a seguir adiante, que a impulsiona na direção que lhe apraz. Nesse caso, os valores da velha senhora proprietária da carruagem começam a conduzir a psique.
Na psicologia junguiana tradicional, a figura arquetípica do idoso é às vezes chamada de força “senex”. Em latim,  senex significa “velho”. Com maior propriedade e sem a atribuição de gênero, o símbolo do idoso pode ser compreendido como a força senescente: aquilo que age de um modo peculiar aos idosos.
Nos contos de fadas, essa força da idade é encarnada por uma pessoa idosa que é freqüentemente descrita como tendo apenas um aspecto, o que indica que o processo psíquico central está também se desenvolvendo apenas num aspecto. Em termos ideais, uma mulher de idade simboliza a dignidade, a capacidade de orientação, a sabedoria, o autoconhecimento, a atenção às tradições, os limites bem definidos e a experiência… com uma boa dose de irreverência irritadiça, franca e encantadora para contrabalançar.
No entanto, quando uma velha num conto de fadas usa esses atributos de forma negativa, como na história dos sapatinhos vermelhos, somos avisadas de que certos aspectos da psique que deveriam ser mantidos aquecidos estão a ponto de serem congelados no tempo. Algo que normalmente vibra dentro da psique está prestes a ser engomado e alisado, a ser espancado ou deformado ao ponto de não ser mais reconhecido. Quando a menina entra na carruagem dourada da velha senhora e em seguida na sua casa, ela foi capturada exatamente como se, de propósito, tivesse enfiado a pata numa armadilha de dentes pontiagudos.
Como vemos na história, o fato de ser adotada pela velha senhora, em vez de dignificar o novo, permite que a atitude senescente destrua a inovação. Em vez de orientar sua protegida, a velha senhora tentará mumificá-la. A velha senhora nessa história não é sábia, mas  se dedica, sim, à repetição de um único valor sem experimentos nem renovação.
Através de todas as cenas localizadas na igreja, concluímos que esse valor único é o de que a opinião do coletivo importa mais do que qualquer coisa e deveria superar as necessidades da alma selvagem individual. Com freqüência, considera-se que o coletivo é a cultura  que cerca um indivíduo. Embora isso seja verdade, a definição de Jung era a de “muitos comparados com o indivíduo”. Somos influenciados por inúmeros coletivos, tanto  pelos grupos aos quais nos associamos quanto por aqueles dos quais não somos integrantes. Sejam os grupos que nos cercam de natureza acadêmica, espiritual, financeira, profissional, familiar, quer de alguma outra natureza, eles impõem poderosas recompensas e punições a seus membros e aos não-membros com idêntica aplicação. Eles operam de modo a influenciar e controlar todas as áreas possíveis — desde os nossos pensamentos até a nossa escolha de parceiros e o trabalho da nossa vida. Eles podem também depreciar ou desestimular os esforços que não se harmonizem com as suas preferências.
Nessa história, a velha senhora é um símbolo da rígida guardiã da tradição coletiva, de quem sustenta o  status quo sem questioná-lo, do “comporte-se; não crie confusão; não pense demais; não se superestime; não chame a atenção; seja mais uma cópia; seja simpática; aceite tudo, mesmo que não goste, mesmo que não se ajuste a você, que não seja do tamanho certo e que machuque.” E assim por diante.
Obedecer a um sistema de valores tão desprovido de vida provoca uma perda extrema de vínculo com a alma. Independente de quaisquer influências ou afiliações com grupos, nosso desafio em defesa da alma selvagem e do nosso espírito criador consiste em  não nos fundirmos com o coletivo, mas em  nos distinguirmos dos que nos cercam, construindo pontes até eles à nossa escolha. Nós vamos decidir quais pontes irão se solidificar e ter muito movimento, e quais permanecerão em esboço e vazias. E os grupos com os quais devemos nos relacionar serão aqueles que proporcionarem maior apoio à nossa alma e à vida criativa.
Se a mulher trabalha na universidade, ela está num grupo acadêmico. Ela não deve se fundir com qualquer proposta apresentada por esse ambiente coletivo, mas deve, sim, acrescentar-lhe sua própria contribuição especial. Como criatura inteira que é, a menos que tenha outras criações fortes na sua vida para contrabalançar isso, ela não pode permitir se transformar numa pessoa rabugenta e preconceituosa do  tipo que “faz seu trabalho, vai para casa, volta para o trabalho…” Se a mulher tenta fazer parte de uma organização, associação ou família que deixe de examiná-la para ver do que ela é feita, que deixe de se perguntar o que faz essa pessoa funcionar e que não se esforce para desafiá-la ou incentivá-la de nenhum modo positivo… sua capacidade de prosperar e criar fica reduzida. Quanto piores as circunstâncias, mais empurrada ela será na direção de uma terra estéril onde foi espalhado sal para que nada ali crescesse.
A separação da vida e da mente de uma mulher de um pensamento coletivo nivelador e o desenvolvimento dos seus talentos exclusivos estão entre as realizações mais importantes que a mulher pode alcançar, pois esses atos impedem que tanto a psique quanto a alma caiam na escravidão. Uma cultura que promova genuinamente o desenvolvimento individual não pode jamais ter uma classe de escravos de qualquer grupo ou sexo.
Contudo, na história, a menina aceita os valores áridos da velha senhora. A menina torna-se, assim, braba, por passar de um estado natural para um de cativeiro. Logo, ela será lançada na loucura dos diabólicos sapatos vermelhos, mas já sem seus sentidos inatos é incapaz de perceber o perigo.
Se nos afastarmos da nossa vida real e pulsante e entrarmos na carruagem dourada da velha senhora sem vida, estaremos na verdade adotando a  persona e as ambições dessa frágil perfeccionista. Então, como todo animal em cativeiro, caímos numa tristeza que leva a uma anseio obsessivo, muitas vezes caracterizado como uma inquietação sem nome. Daí em diante, corremos o risco de nos agarrar à primeira coisa que promete fazer com que voltemos a nos sentir vivas.
É importante que mantenhamos os olhos abertos e que consideremos com cuidado as ofertas de uma existência mais fácil, de uma estrada sem problemas, especialmente se nos for pedido em troca que entreguemos a nossa própria alegria criadora a um forno crematório em vez de aquecê-la num fogo criado por nós mesmas.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: J. Bell

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s