O caminho das palavras

O despertar diz: “Eu estou vendo, estou entendendo!”

 O compromisso diz: “Ótimo. Agora, o que você vai fazer a respeito?”

Como diz René Daumal em Mount Analogue: “Você não pode ficar no topo para sempre; tem de descer outra vez. Então, por que se dar ao trabalho de subir ao topo? É o seguinte: o que está em cima sabe o que há embaixo, mas o que está embaixo não sabe o que há em cima. A gente sobe, a gente vê, a gente desce. A gente não vê mais, mas a gente já viu.”
Uma vez que vivenciamos um despertar, nunca mais somos exatamente os mesmos.

Não podemos viver como antes porque não podemos fingir que não vimos uma verdade mais nova e mais elevada. O truque é não criar raízes no ciclo do despertar — ele não é o fim da jornada.
Quando as pessoas são atraídas pela parte do despertar do ciclo, elas podem se tornar como viciados em drogas já crescidos, correndo de uma experiência para outra — a técnica mais nova e “mais quente”, um mestre com algo de novo para dizer, a experiência que vai recriar aquele momento de pico outra vez e outra vez mais. Também é fácil começar a seguir aquilo que alguém chamou de “caminho da parafernália”, comprando campainhas, cristais, pirâmides, terços, livros, fitas e mil outras coisas. Cada um desses caminhos e técnicas tem um valor intrínseco, mas não podemos continuar substituindo o símbolo pela substância. A visão interior — o despertar — não é o mesmo que a integração. Qualquer verdade recém-descoberta torna-se apenas uma força poderosa quando podemos vê-la trabalhando.
Uma coisa é ver a divindade nos olhos de um seguidor da sua seita durante um retiro para meditação; outra bem diferente é vê-la no frentista do posto de gasolina, no instrutor do seu filho ou no fiscal do Imposto de Renda.
Assim que descemos dessa experiência na montanha, geralmente descobrimos que o nosso mundo material ainda está do mesmo jeito que o deixamos.
Se quisermos tornar-nos aquilo em que acreditamos agora, temos de assumir um compromisso sério para voltar a treinar todas as partes de nós mesmos.
É necessário muito compromisso para reescrever nossos  scripts porque a antiga forma está firmemente codificada no arquivo do subconsciente. Por outro lado, também estamos presos à mudança. Há dois trilhões de conexões entre as células nervosas do cérebro. O astrofísico Carl Sagan diz que isso significa que há mais estados mentais potenciais num simples cérebro humano do que átomos no universo conhecido. Não ficamos atolados em nossos padrões de antigas formas, a menos que decidamos assim.
Como diz Marilyn Ferguson em  The Aquarian Conspiracy [A Conspiração Aquariana], “A diferença entre a transformação acidental e a transformação sistemática é como a diferença entre o raio e a lâmpada. Ambos fornecem iluminação, mas o primeiro é perigoso e incerto, enquanto a segunda é relativamente segura, direta, disponível”.
O processo de nos tornarmos a realidade que agora percebemos realiza-se quando fazemos escolhas. Estamos sempre fazendo escolhas, embora nem sempre estejamos conscientes disso. Até mesmo não fazer nada é uma escolha. Odiar, amar, criticar, falar, calar a boca — tudo isso são escolhas. Dizer “eu não pude evitar” é a escolha que abre mão da escolha.
Um homem paralítico disse a um entrevistador que havia sido treinado para ser um atleta de renome mundial antes do acidente que o vitimou. O entrevistador perguntou-lhe se a sua deficiência física não tinha colorido a sua vida. “Sim”, respondeu ele prontamente, “mas eu é que escolhi as cores.”
Durante a fase do compromisso, estamos fazendo a escolha de trazer a nova ideia a nosso próprio respeito para a realidade. Porém, isso é quando precisamos lembrar que o mundo material que vemos na primeira vez que assumimos o compromisso é o resultado das escolhas que fizemos há muito tempo. No momento em que vemos a luz de uma estrela, ela está a milhares de anos-luz de distância de “sua casa”. Anteriormente, no processo de mudança — geralmente durante a resistência — tínhamos a tendência de nos prendermos à aparência, à evidência da antiga forma. Durante o compromisso, fazemos a escolha serena e pacientemente para trazer a nova visão para o mundo material, apesar das aparências. Uma dessas escolhas, como diz o velho truísmo, é acender velas em vez de maldizer a escuridão.
A luz não penetra na escuridão resistindo a ela, mas simplesmente sendo ela mesma.  Ao assumir o nosso poder de escolher conscientemente aquilo que queremos fazer com a nossa energia, nós burilamos nossas habilidades espirituais. Não podemos determinar aquilo que outra pessoa vai fazer, mas temos o controle total do modo como vamos reagir. A modelagem de nossas reações é acentuada pelo aprendizado da diferença entre observar e energizar.
Observamos que o mundo está exprimindo a sua confusão quanto à mudança. Podemos decidir energizar uma imagem de paz.
Observamos que uma pessoa tem uma doença. Podemos decidir energizar uma imagem de saúde.
Observamos que alguns de nossos velhos programas ainda estão prosseguindo a toda velocidade. Podemos decidir energizar nossa visão do despertar.
Nas fases iniciais do processo, os desafios à nossa antiga programação podem fazer com que nos sintamos ameaçados. Mas, durante o estágio de compromisso, aprendemos a observar as nossas reações. “Oh, já estou eu de novo reagindo a isso ou àquilo.” As velhas reações automáticas tornam-se os detonadores para identificar velhos programas que ainda precisam da nossa atenção. Não é negando isso, mas identificando as velhas respostas que gradualmente redefinimos os programas.
Se você, por exemplo, está zangado, fique apenas zangado. É muito melhor ser assim do que ficar doente, engolindo tudo ou se iludindo através de uma falsa piedade que nega a raiva. Tente dizer: “Tudo bem, eu ainda estou zangado com isso. Então, o que a raiva está me dizendo a respeito da minha auto-imagem? O que eu pretendo fazer com essa raiva? É ela que conduz os homens ou sou eu que vou conduzi-la?” A raiva, afinal das contas, é apenas energia. Ela é aquilo que estamos vivenciando; ela não é aquilo que somos. Uma vez encarada e controlada, a raiva pode ser aproveitada criativamente. Observe uma pessoa que está com raiva porque andou assistindo a um noticiário na televisão a respeito do tráfico de bebês. Essa pessoa pode decidir desligar o noticiário e dizer: “Não quero ver isso porque me faz muito mal.” Porém, se ela fizer isso, há boas chances de que a escolha caia no subconsciente e alimente uma sensação de impotência que pode estar ligada a todo o resto de brutalidade existente no planeta, inclusive relativo à experiência pessoal.
Talvez a raiva simbolize uma ambivalência inconsciente. Eu sei que a minha capacidade de agir com base na minha raiva contra o ato de maltratar animais revestiu-se de um caráter bem claro quando dei de presente um casaco de peles que simbolizava um princípio que eu não podia mais aceitar.
Outra pessoa, também sentindo raiva, pode encarar os fatos, ser objetiva com relação à raiva e perguntar: “O que é que vou decidir fazer com isso, se é que vou fazer alguma coisa? Onde é que a energia da minha raiva está sendo bem aplicada? Em combater os caçadores de focas? Em contribuir para a consciência dos direitos das focas? Em criar uma consciência que se volte para todos os aspectos da vida de um modo mais abrangente? Em escrever para o Congresso? Em fazer uma oração de gratidão pelo sacrifício das focas, de modo que nossa indiferença coletiva possa ter seu reflexo voltado para nós?”

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 187

Foto: Saruwine

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