Armadilha n° 4: Danos aos instintos básicos, a conseqüência do cativeiro

Os instintos são algo difícil de definir, pois suas configurações são invisíveis e, embora pressintamos que eles fazem parte da natureza humana desde o início dos tempos, ninguém sabe precisamente onde eles se localizariam em termos neurológicos nem de que modo exato eles nos influenciam. À luz da psicologia, Jung propôs que os instintos seriam derivados do inconsciente psicóide, aquela camada da psique na qual a biologia e o espírito talvez se encontrem. Depois de muito refletir,sou da mesma” opinião, e me arriscaria a propor que o instinto criador, em especial,tanto é a expressão lírica do Self quanto a simbologia dos sonhos.

Etimologicamente, a palavra instinto deriva do latim instinguere, que significa incitar ou induzir uma inspiração inata, bem como de instinctus, que significa “impulso”. A idéia do instinto pode ser valorizada como alguma coisa interna que quando mesclada com a previsão e a consciência, orienta os seres humanos no sentido de um comportamento integral. A mulher nasce com todos os instintos intactos.

Embora pudéssemos dizer que a menina da história foi arrastada para um ambiente novo, ambiente no qual sua falta de polimento é corrigida e as dificuldades eliminadas da sua vida, na realidade seu processo de individualização pára, seu esforço no sentido do desenvolvimento é interrompido. E, quando a velha senhora, uma presença inibidora, considera a obra do espírito criador um lixo, em vez de um bem, e queima os sapatos vermelhos, a menina fica mais do que calada. Ela se entristece, que é o estado esperado quando o espírito criativo é isolado da vida profunda natural.

Pior que isso, o instinto da criança para fugir dessa aflição fica embotado a ponto de desaparecer. Em vez de ter como objetivo uma nova vida, ela fica presa numa poça de cola psíquica. A recusa a tentar fugir, quando essa atitude é plenamente justificada, causa a depressão. Mais uma armadilha.

Chamem a alma do que quiserem — a união com o lado selvagem, a esperança no futuro, uma corrente de energia, a paixão pela criação, um jeito de ser, de fazer, o ser amado, o noivo selvagem, a “pluma pousada no sopro de Deus”. Quaisquer que sejam as palavras ou imagens que empreguemos para descrever esse aspecto da nossa vida, foi ele que foi capturado. É por isso que o espírito da psique fica tão desolado.

Em estudos a respeito da vida de diversas espécies de animais selvagens em cativeiro, foi descoberto que, independente do carinho com que foram construídos os seus ambientes nos zoológicos, independente do amor, realmente verdadeiro, dos seus tratadores, muitas vezes os animais tornam-se incapazes de procriar, alteram-se seus apetites para o alimento e para o descanso, seu comportamento vital definha até chegar à letargia, à irritabilidade ou à agressividade desmedida. Os zoólogos chamam esse comportamento no cativeiro de “depressão animal”. Sempre que o animal é enjaulado, deterioram-se seus ciclos naturais de sono, de seleção do parceiro, do estro, dos cuidados consigo mesmo e dos cuidados com os filhotes, entre outros.

À  medida que se vão perdendo os ciclos naturais, segue-se o vazio. O vazio não é cheio, como no conceito budista do vazio sagrado, mas, sim, um vazio como o de se estar dentro de uma caixa vedada sem aberturas.
Assim, quando a mulher entra nos domínios da velha e árida senhora, ela sofre de perda de decisão, confusão mental, tédio, depressão simples e súbitas crises de ansiedade que são semelhantes aos sintomas que os animais apresentam quando estão atordoados pelo cativeiro ou por traumas.

Um excesso de domesticação gera impulsos fortes e essenciais no sentido de brincar, de se relacionar, de saber lidar, de perambular, de comungar e assim por diante. Quando uma mulher concorda em ser bem-educada demais, seus instintos por esses impulsos caem nas trevas do seu inconsciente mais profundo, fora do seu alcance imediato. Diz-se, então, que ela está com seus instintos prejudicados. O que deveria vir naturalmente acaba não vindo ou vem só depois de muito esforço, muitos empurrões, muita racionalização e lutas consigo mesma.

Quando falo do excesso de domesticação como forma de cativeiro, não estou me referindo à socialização, o processo pelo qual as crianças são ensinadas a se comportar de um modo mais ou menos civilizado. O desenvolvimento social é de importância crítica. Sem ele, a mulher não tem como progredir no mundo. No entanto, o excesso de domesticação se assemelha a proibir que a essência vital saia dançando. Em seu estado saudável e característico, o Self selvagem não é dócil e vazio. Ele é alerta e sensível a qualquer movimento ou momento. Ele não se prende a um modelo absoluto e repetitivo para toda e qualquer circunstância. Ele tem opções criativas.

A mulher cujos instintos estão prejudicados não tem escolha. Ela simplesmente fica impossibilitada de prosseguir. Há muitos modos de se estar impedida de prosseguir. A mulher cujos instintos estão feridos geralmente se denuncia por enfrentar muita dificuldade para pedir ajuda, para reconhecer suas próprias necessidades. Seu instinto natural para a luta ou para a fuga é drasticamente reduzido ou mesmo extinto. São inibidos ou exagerados o seu reconhecimento das sensações de saciedade, de sabor estranho, de suspeita, de cautela, e seu impulso no sentido de amar plena e livremente.

Como na história, uma das agressões mais insidiosas ao Self selvagem consiste em receber ordens para agir corretamente, com a insinuação de que uma recompensa se seguirá (um dia, quem sabe?). Embora esse método possa (dou ênfase especial a esse “possa”) temporariamente convencer uma criança de dois anos a arrumar seu quarto (nada de brinquedo enquanto a cama não estiver feita), ele jamais funcionará na vida de uma mulher cheia de energia.

Apesar de a coerência, a persistência e a organização serem elementos essenciais à implementação de uma vida criativa, a ordem da velha senhora para que ela se comporte elimina qualquer oportunidade de expansão. Não é o bom comportamento, mas a atividade lúdica que é a artéria central, o cerne, o bulbo cerebral da vida criativa. O impulso para o lúdico é instintivo. Sem o lúdico, não há vida criativa. Com o comportamento restrito ao “bom”, não há vida criativa. Quando estamos sentadas sem nos mexer, não há vida criativa. Quando falamos, pensamos e agimos apenas com modéstia, não há vida criativa.

Qualquer grupo, sociedade, instituição ou organização que incentive as mulheres a desprezar o que for excêntrico, a suspeitar do que for novo e in-comum, a evitar o que for inovador, vital, veemente,  a despersonalizar o que lhe for característico, estará à procura de uma cultura de mulheres mortas.

Janis Joplin, uma cantora de blues da década de 60, é um bom exemplo de uma mulher braba cujos instintos se viram prejudicados por forças alquebradoras do espírito. Sua vida criativa, sua curiosidade inocente, seu amor pela vida, sua atitude irreverente para com o mundo durante os anos do seu crescimento eram impiedosamente criticados pelos seus mestres e por muitos dos que a cercavam na comunidade batista de meninas brancas “bem-comportadas”, no sul dos Estados Unidos. Embora fosse excelente aluna e pintora talentosa, era repudiada pelas outras meninas por não usar maquiagem e pela vizinhança por ouvir jazz e gostar de escalar uma formação rochosa fora da cidade para ficar lá cantando com seus amigos. Quando afinal fugiu para o mundo do blues, era uma pessoa tão carente que não sabia mais dizer quando era a hora de parar. Ela não tinha limites no que dizia respeito a sexo, bebidas ou drogas.

Há algo em Bessie Smith, Anne Sexton, Edith Piaf, Marilyn Monroe e Judy Garland que apresenta o mesmo padrão de instintos prejudicados pela fome da alma: a tentativa de “se ajustar”, a tendência à intemperança, a impossibilidade de parar. Poderíamos trazer uma longa relação de mulheres talentosas de instintos feridos que, num estado de vulnerabilidade, fizeram escolhas infelizes. Como a criança da história, todas elas perderam seus sapatos feitos à mão em algum ponto do caminho e de algum modo chegaram aos perigosos sapatinhos vermelhos. Todas elas estavam cheias de mágoa por ansiarem por alimento para o espírito, por histórias para a alma, por vaguear naturalmente por aí, por enfeites que se adequassem às suas próprias necessidades, pelo aprendizado de Deus e por uma sexualidade simples e sã. No entanto, distraídas, elas escolheram os sapatos amaldiçoados — crenças, atos, idéias que fizeram com que sua vida se deteriorasse cada vez mais — que as transformaram em espectros a dançar loucamente.

Não se pode subestimar o dano causado aos instintos como raiz do problema quando as mulheres parecem estar loucas, são possuídas por uma obsessão ou quando estão presas a modelos menos maléficos mas, ainda assim, destrutivos. A recuperação do instinto ferido começa com o reconhecimento de que a captura ocorreu, de que uma fome da alma se seguiu, de que os limites normais de insight e proteção foram perturbados. É preciso reverter o processo que causou a captura da mulher e a conseqüente fome. Antes de mais nada, porém, muitas mulheres passam pêlos estágios que se seguem, como está descrito na história.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: Ind{yeah}

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