Armadilha nº 6: O recuo diante do coletivo, a rebelião na sombra

A menina calça os sapatos vermelhos às escondidas, vai até a igreja, não presta nenhuma atenção ao alvoroço  ao seu redor, é desprezada pela comunidade. Os habitantes da aldeia a denunciam. Ela é repreendida. Os sapatos vermelhos são retirados. É, porém, tarde demais. Ela foi fisgada. Não se trata ainda de uma obsessão, mas a questão é que o coletivo inspira e reforça sua fome interna ao exigir que ela capitule diante de seus valores estreitos.
Pode-se tentar levar uma vida secreta, mas mais cedo ou mais tarde o superego, um complexo negativo e/ou a própria cultura a atacarão. E difícil esconder algo proibido que  lhe inspira voracidade. É difícil ocultar prazeres furtivos mesmo quando eles não são benéficos.

A natureza das culturas e dos complexos negativos consiste em se abater sobre qualquer discrepância entre o consenso sobre o que é o comportamento aceitável e o impulso divergente do indivíduo. Da mesma forma que algumas pessoas ficam furiosas com uma única folha caída na entrada de casa, o julgamento negativo se mune das suas serras para amputar qualquer membro que não se harmonize com o todo.

Ocasionalmente,  o coletivo pressiona a mulher para ser uma santa, ser uma pessoa esclarecida, ser politicamente correta, ser controlada, para que cada uma das suas iniciativas resulte numa obra-prima. Se recuarmos diante do coletivo, cedendo às pressões no sentido de um  conformismo irracional, estaremos protegidas do isolamento, mas, ao mesmo tempo, estaremos também traindo nossas vidas selvagens e as colocando em risco.
Há quem pense que já se foi o tempo em que chamar uma mulher de selvagem equivalia a xingá-la. Se ela  foi rebelde, ou seja, se agiu de acordo com a natureza do seu self profundo, ela foi classificada de “errada” ou “má”. Não é verdade que esse tempo já passou. O que mudou foram os tipos de comportamento considerados “descontrolados” no caso das mulheres. Por exemplo, em diversas partes do mundo hoje em dia, se uma mulher toma uma posição política, social ou ambientalista, é muito freqüente que suas motivações sejam examinadas para detectar se ela “perdeu o controle”, ou seja, se enlouqueceu.
Para uma criança selvagem nascida numa comunidade de valores rígidos, a conseqüência normal é a de passar pela vergonha de ser evitada. É uma atitude em que a vítima é tratada como se não existisse. O ostracismo retira da pessoa que dele é vítima o interesse espiritual,  o amor e outras necessidades psíquicas. A idéia é de forçar a vítima a se ajustar, e se isso não acontecer, destruí-la espiritualmente e/ou expulsá-la da aldeia para que definhe e morra nos ermos.
Se uma mulher é repudiada, quase sempre isso ocorre porque  ela fez algo ou está a ponto de fazer algo relacionado ao selvagem, freqüentemente algo tão simples quanto a expressão de uma crença ligeiramente diversa da corrente ou quanto o uso de uma cor não-aprovada — questões insignificantes assim como questões maiores.
Precisamos lembrar que não se trata de a mulher reprimida se recusar a se ajustar, mas ela  não poder se ajustar sem morrer. Sua integridade espiritual está em jogo, e ela tentará se livrar de todas as formas possíveis, mesmo daquelas que a coloquem em risco.
Temos um exemplo recente. De acordo com a CNN, no início da Guerra do Golfo, as mulheres muçulmanas da Arábia Saudita, proibidas de dirigir por motivos religiosos, entraram nos carros e saíram dirigindo. Depois da guerra, as mulheres foram levadas a tribunais que condenaram seu comportamento e, finalmente, após muitos interrogatórios e censuras, libertaram as mulheres para a custódia dos seus pais, irmãos ou maridos, que tiveram de prometer mantê-las sob controle no futuro.
É um caso em que a marca de vida transmitida e propiciada pela mulher num mundo louco é definida como escandalosa, insensata e descontrolada. Ao contrário da menina na história, que permite que a cultura circundante a empurre para situações ainda mais áridas, às vezes a única  alternativa a adotar diante de uma coletividade ressequida consiste em perpetrar um ato impregnado de coragem. Esse ato não tem necessariamente de provocar um terremoto. A coragem significa seguir o coração. Há milhões de mulheres que realizam atos de enorme coragem todos os dias. Não é só o ato singular que reformula uma coletividade encarquilhada, mas também a continuidade desses atos. Como me disse uma vez uma monja budista, “A água consegue furar a pedra”.
Além disso, existe um aspecto muito oculto na maioria dos grupos que estimula a repressão à vida criativa, profunda e selvagem das mulheres: o estímulo interno a uma cultura para que as mulheres se denunciem umas às outras e sacrifiquem suas irmãs (ou seus irmãos) a restrições que não refletem os valores da natureza feminina. Essas restrições abrangem não só o incentivo a que uma mulher denuncie uma outra, expondo-a a punições por se comportar de um modo feminino e pleno, por registrar um horror adequado às circunstâncias ou a discordância quanto a  alguma injustiça, como também o estímulo a que as mulheres mais velhas sejam cúmplices nas violências físicas, mentais e espirituais perpetradas contra as mais jovens, indefesas ou menos poderosas, aliado ao incentivo às mulheres mais jovens no sentido de que  ignorem e desdenhem as necessidades de mulheres que sejam muito mais velhas do que elas.
Quando a mulher se recusa a dar apoio à coletividade árida, ela está se recusando a reprimir seu raciocínio selvagem, e seus atos seguem o mesmo caminho.
A história dos sapatinhos vermelhos na sua essência nos ensina que a psique selvagem precisa ser devidamente protegida — através de uma inequívoca valorização de nós mesmas, com uma defesa veemente dos seus interesses, com uma recusa a se submeter a situações psíquicas pouco saudáveis. Aprendemos, também, que o lado selvagem, por sua energia e beleza, está  sempre na mira de alguém, de alguma instituição, de algum grupo, seja com o objetivo de transformá-lo em troféu, seja com o objetivo de submetê-lo à limitação, alteração, domínio, eliminação, reformulação ou controle. O lado selvagem precisa sempre de um guarda junto ao portão, ou poderá ser utilizado para fins impróprios.
Quando o coletivo é hostil à vida natural da mulher, em vez de aceitar os rótulos desrespeitados  ou pejorativos que lhe são aplicados, ela pode e deve, como o patinho feio, resistir, agüentar e procurar aquilo a que ela pertence  — e preferivelmente sobreviver a quem a rejeitou, vicejando e criando mais do que eles.
O problema com a menina dos sapatinhos vermelhos está em que ela, em vez de se fortalecer para a luta, está na terra dos sonhos, encantada pela sedução daqueles sapatos vermelhos. O que há de mais importante na rebeldia é a forma que ela assume para ser eficaz. O fascínio da menina pelos sapatinhos vermelhos na realidade impede uma rebeldia significativa, uma que promova a mudança, que transmita uma mensagem, que provoque um despertar.
Eu gostaria de poder afirmar que a esta altura não existem mais todas essas armadilhas para as mulheres, ou  que elas já estão tão calejadas que detectam essas armadilhas de longe. No entanto, isso não acontece. Nós ainda temos o predador na nossa cultura, e ele ainda tenta sabotar e destruir toda a conscientização e todas as tentativas de alcançar a totalidade.  Há uma grande verdade no ditado de que é preciso batalhar de novo pela liberdade a cada vinte anos. Às vezes, a impressão é de que é preciso lutar por ela a cada cinco minutos.
No entanto, a natureza selvagem nos ensina que devemos enfrentar os desafios à medida que eles se apresentem. Quando os lobos são atormentados, eles não saem dizendo, “Ah, não! De novo!!!” Eles saltam, investem, correm, desaparecem, fingem-se de mortos, pulam na garganta do agressor, fazem o que tiver de ser feito. Portanto, não podemos ficar escandalizadas com a existência de entropia, deterioração, tempos difíceis. É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Amigwen

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