Armadilha nº 8: A dança descontrolada, a obsessão e dependência

A velha senhora cometeu três erros de avaliação. Embora no  nível do ideal espere-se que ela seja o guardião, o guia da psique, ela está cega demais para ver a verdadeira natureza dos sapatos pelos quais ela própria pagou. Ela é incapaz de perceber que a menina ficou encantada por eles ou mesmo de detectar o caráter do homem de barba ruiva que está esperando perto da igreja.
O velho de barba ruiva tamborilou nas solas dos sapatos da menina, e a vibração dessas cócegas pôs os pés da menina a dançar. Ela dança agora, ah, como dança, só que não consegue parar. Tanto a  velha senhora, que supostamente deveria agir como guardião da psique, quanto a menina, que deveria exprimir a alegria da psique, estão completamente desvinculadas de todo instinto e bom senso.

A menina já tentou tudo: adaptar-se à velha senhora, não se adaptar, ser dissimulada, “ser boazinha”, perder o controle e sair dançando, dominar-se e tentar voltar a ser boazinha. Nesse ponto, sua terrível privação do espírito e do significado mais uma vez a força a apanhar os sapatinhos vermelhos, a calçá-los e a começar sua última dança, a dança que a levará para o vazio da inconsciência.
Ela trivializou uma vida árida e cruel, instalando, com isso, na sua sombra um anseio ainda maior pelos sapatos da loucura. O homem de barba ruiva transmitiu vida a alguma coisa, mas não à menina: aos sapatos torturantes. A menina começa então a desperdiçar sua vida num redemoinho que, como qualquer tipo de dependência, não gera a abundância, esperança ou felicidade mas, sim, trauma, medo e esgotamento. Para ela não há descanso.
Quando ela tenta entrar rodopiando no adro de uma igreja, há ali um espírito guardião que não lhe permite a entrada. O espírito lança-lhe a seguinte maldição:
“Você irá dançar com esses sapatos vermelhos até que fique como uma alma penada, como um fantasma, até que sua pele pareça suspensa dos ossos, até que não sobre nada de você a não ser entranhas dançando. Você irá dançar de porta em porta por todas as aldeias e baterá três vezes a cada porta. E, quando as pessoas espiarem quem é, verão que é você e temerão que seu destino se abata sobre elas. Dancem, sapatos vermelhos. Vocês devem dançar.” O espírito guardião a encerra, portanto, numa obsessão que é análoga a uma dependência física.
A vida de muitas mulheres criativas seguiu esse modelo. Quando era adolescente, Janis Joplin tentou se adaptar aos costumes da sua cidadezinha. Mais tarde, ela se rebelou um pouco, escalando os morros à noite e cantando lá de cima, andando na companhia de “artistas”. Depois que seus pais foram chamados à escola para dar conta do  comportamento da filha, ela começou uma vida dupla, agindo na superfície com modéstia, mas atravessando escondida a fronteira para ouvir Jazz. Ela entrou para a universidade, adoeceu gravemente em virtude da dependência às drogas, “recuperou-se” e tentou  levar uma vida normal. Aos poucos, ela voltou a beber, formou uma pequena banda, envolveu-se com drogas e assumiu de vez os sapatos vermelhos. Ela dançou e dançou até morrer de overdose aos vinte e sete anos de idade.
Não foi a música, o canto nem a vida criativa finalmente liberada de Janis Joplin que a mataram. Foi a falta de instinto para reconhecer as armadilhas, para saber quando basta, para criar limites para a defesa da saúde e do bem-estar, para entender que os excessos quebram alguns ossinhos psíquicos, depois outros maiores, até que finalmente todo o esqueleto de sustentação da psique cai por terra e a pessoa vira uma massa amorfa em vez de uma força poderosa.
Ela precisava somente de uma sábia imagem interna à qual pudesse se agarrar, um resquício de instinto que durasse até que ela pudesse dar início ao longo trabalho de reformulação do instinto e da percepção íntima. Ela só precisava dar ouvidos à voz selvagem que vive dentro de todas nós, a que sussurra, “fique aqui o bastante… fique o tempo necessário para reanimar sua esperança, para abandonar seu sangue-frio terminal, para renunciar a meias-verdades defensivas, para se insinuar, para abrir caminho com precisão ou com violência; fique aqui o suficiente para ver o que é bom para você, para se fortalecer, para fazer aquela tentativa que terá sucesso; fique aqui o suficiente para completar a corrida, não importa quanto tempo demore ou de que forma isso ocorra”.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: A5 Magazine

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