Ouvindo o chamado da Mais Velha

O que é esse grito que vem do mar? Essa voz no vento que chama para tirar a criança da cama e para fazê-la sair noite adentro é semelhante a uma espécie de sonho noturno que chega à consciência de quem sonha como uma voz incorpórea e nada mais. Esse é um dos sonhos mais fortes que uma pessoa pode ter. Qualquer coisa que seja dita por essa voz é considerada uma transmissão direta da alma.

Diz-se que sonhos com vozes incorpóreas podem ocorrer a qualquer hora, mas especialmente quando a alma está angustiada. É então que o self profundo como que corre no encalço. Pronto! A alma da mulher fala. E ela nos diz o que vem depois.
Na história, a velha foca sai do seu próprio elemento para dar início ao chamado. É uma profunda característica da psique selvagem que, se não voltamos por nossa própria vontade, se não prestamos atenção às nossas próprias fases e à hora da volta, a Mais Velha virá nos buscar, chamando e tornando a chamar até que alguma coisa em nós responda.
É uma felicidade que esse sinal natural de orientação para o lar fique cada vez mais forte quanto mais necessitarmos dessa volta. O sinal é disparado no instante em que tudo começa a ser excessivo  — seja em termos negativos, seja em termos positivos. Pode tanto estar na hora de voltar para casa quando existe um excesso de estímulo positivo como quando há uma discrepância incessante. Podemos estar nos dedicando demais a alguma coisa. Podemos estar esgotadas demais por alguma outra. Podemos estar sendo amadas demais, amadas de menos, trabalhando demais, trabalhando de menos… cada um desses casos custa muito caro. Diante dos excessos, vamos aos poucos ressecando, os nossos corações se esgotam, as nossas energias começam a nos faltar, e surge em nós um misterioso anseio por “alguma coisa”, para a qual quase nunca temos um nome. Então, a Mais Velha chama.
Nessa versão da história, é interessante que quem ouve o chamado do mar e tem uma reação a ele é a pequena criança espiritual. É ele quem se arrisca lá fora passando pelas pedras e penhascos gelados, que segue o chamado sem questionar e que acidentalmente tropeça na pele de foca enrolada da sua mãe.
O sono irrequieto da criança é um retraio agudo e nítido da inquietação que a mulher sente quando anseia por voltar ao seu lugar de origem psíquica. Como a psique é um sistema completo, todos os seus elementos ressoam ao chamado. A inquietação da mulher durante esse período vem muitas vezes acompanhada de irritabilidade e de uma sensação de que tudo está perto demais para ser agradável, ou longe demais para nos proporcionar paz. Ela se sente de alguma forma pouco e muito “perdida”, pois ficou muito tempo longe de casa. Tais sentimentos são exatamente os que ela deveria ter. São uma mensagem que lhe diz “Venha agora”. A sensação de dilaceramento vem de ouvir, consciente ou inconscientemente, algo que nos chama, que nos chama de volta, algo a que não podemos dizer não, sem nos machucar.
Se não voltarmos na hora certa, a alma virá nos buscar, como vemos nesses versos de um poema intitulado “Mulher que vive no fundo do lago”.

one night
there’s a heartbeat at the door.
Outside, a woman in the fog,
with hairs of twigs and a dress of weed,
dripping green lake water.
She says, “I am you,
and I have traveled a long distance.
Come with me, there is something I must show you…”
She turns to go, her cloak falls open.
Suddenly, golden light… everywhere, golden light…

{uma noite/batem à porta./Ali fora, uma mulher na névoa./com o cabelo de gravetos e vestes de ervas daninhas,/gotejando a verde água do lago./Ela diz “Eu sou você,/e viajei uma enorme distância./Venha comigo, tenho algo a lhe mostrar…”/Ela se volta para ir embora, seu manto cai aberto,/de repente, uma luz dourada… por toda a parte, uma luz dourada… (N. da T.) }

A velha foca surge à noite, e a criança sai aos tropeções também à noite. Nessa e em muitas outras histórias, vemos o personagem principal descobrir uma verdade assustadora ou recuperar um tesouro inestimável enquanto tateia no escuro. É um tema onipresente nos contos de fadas e ocorre de qualquer maneira, a qualquer custo.
Nada realça a luz, a maravilha, o tesouro melhor do que as trevas. A “noite escura da alma” quase se transformou num lugar-comum em certas culturas. A recuperação do divino tem lugar nas trevas de Hel, do Hades ou “lá”. A volta do Cristo chega como um fulgor do crepúsculo do inferno. A deusa asiática do sol, Amaterasu, explode a partir da escuridão de debaixo da montanha. A deusa suméria Inanna, na sua forma aquática, entra em combustão transformando-se em ouro branco quando jaz num sulco recém-aberto na terra negra. Nas montanhas em Chiapas, diz-se que a cada dia o sol precisa abrir um buraco na huipil, blusa, mais negra, a fim de poder se erguer no céu.
Essas imagens de movimentos dentro e através da escuridão transmitem uma mensagem antiqüíssima que diz: “Não tema ‘não saber’.” Em várias fases e períodos da nossa vida, é assim que deve ser. Essa característica dos contos e dos mitos nos estimula a seguir o chamado, mesmo quando não temos a menor idéia de onde ir, em que direção ou por quanto tempo. Tudo o que sabemos é que, à semelhança da criança na história, precisamos acordar, nos levantar e ir ver o que é. Assim, pode ser que saiamos no escuro aos trambolhões  por algum tempo, tentando descobrir o que nos chama, mas, como conseguimos impedir que nos convencêssemos a não atender ao chamado do lado selvagem, invariavelmente acabamos por tropeçar na pele da alma. Quando respiramos esse estado da alma, automaticamente mergulhamos na sensação de que “Isso está certo. Sei do que preciso”.
Para muitas mulheres de hoje, não é a perambulação nas trevas à procura da pele da alma que é mais apavorante. Mas, sim, é o mergulho na água, a verdadeira volta ao lar e especialmente a despedida em si que são mais terríveis. Embora as mulheres estejam voltando para dentro de si mesmas, tratando de vestir a pele de foca, fechando-a bem, e estejam prontas para partir, é difícil partir. É realmente difícil ceder, renunciar a tudo com que se esteve ocupada e simplesmente ir embora.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: Bert Werk

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s