Preocupações com o passado e com o futuro

Aos trancos e barrancos, pedaço por pedaço, agonizando aos poucos, abrimos mão do conhecido domínio que o Ego tem sobre a nossa personalidade, em função do nosso Eu Maior. Pouco a pouco, aprendemos a morrer para tudo o que antes pensávamos ser com a finalidade de reivindicar tudo o que somos. Nas palavras de Reshad Field, em  Footprints in the Sand [Pegadas na Areia]; “Você não morre até viver, e não vive até morrer. Uma vez morto para si mesmo, há apenas o momento presente e você nasce para a Eternidade.”

No encalço de uma revelação importante, a vida tem um modo de nos mandar de volta ao Ser todos os dias. Durante um desses períodos “diários” de minha vida, comecei a participar de um retiro espiritual num simpático convento católico. Cheguei lá com todos os tipos de idéias preconcebidas: agora eu não estaria tão ocupada; agora minha mente iria se desanuviar; agora o Espírito poderia dizer as coisas para mim. Eu tinha marcado um encontro! Com grande expectativa, fui para a sala de meditação e me sentei. E comecei a chorar. E a chorar. Durante dois dias, eu chorei.
Eram lágrimas estranhas, pois eu não tinha nenhuma infelicidade específica para lamentar. Eu não tinha nenhuma sensação da Presença, nenhum ofuscamento, nada.
Apenas lágrimas.  Finalmente, na segunda noite, o meu choro cessou. Pálida e com os olhos inchados, eu me limitava a ficar sentada na sala de meditação. Então, gradualmente, senti um calor crescente em torno de mim. A paz caiu sobre mim e eu ouvi, do Espírito, as palavras de amor: “Aquele a quem vou preencher, devo primeiro esvaziar.”
Uma grande parte do processo de recordar nossa totalidade e depois vivê-la é exatamente isso: esvaziar, deixar sair, morrer.
“Eu quero a Verdade”, gritamos para Deus.
“Ótimo”, responde Deus, “mas primeiro você tem de morrer.”
“Bem, na verdade, eu tinha algo um pouco menos doloroso em mente”, retrucamos.
Como o jovem Santo Agostinho, nossa tendência é rezar: “Senhor, torna-me casto — mas não ainda.”
Durante todos os nossos ritos de passagem, estamos celebrando tanto funerais como nascimentos — ou, como diz um amigo islandês, “futurais”. Uma criança que vai à escola pela primeira vez está morrendo para um modo de vida anterior a fim de nascer para outro. Os jovens pais morrem para a sua própria infância. Uma mudança para outra cidade, uma promoção no trabalho, uma aposentadoria — em cada caso, algo é cedido para que se ganhe.
Onde há morte há tristeza. Não importa quanto estejamos comprometidos com um novo direcionamento, uma parte de nós vai lamentar aquilo que tem de ser deixado para trás. Uma das mágoas mais intensas que já suportei foi quando o Mestre que tinha estado comigo em Espírito durante os sete primeiros anos do meu trabalho resolveu me “promover” e eu não tive mais a sua presença comigo de maneira consciente. Eu só consegui perceber que tinha perdido alguma coisa inestimável quando um amigo me fez esta observação: “Ele não foi a parte alguma. Para onde iria? Há apenas um Universo.”  Não está muito na moda falar sobre a parte agonizante da mudança, mesmo nos círculos da Nova Era. No Ocidente, crescemos acreditando na nossa capacidade de consertar as coisas instantaneamente: “Estou vendo, já entendi — e depois?” No Oriente, os principiantes aprendem a respeitar e a aceitar o estágio de purificação para a transformação. Teoricamente, é claro, a transformação instantânea é possível. Mas a maioria de nós não vê uma Verdade nem se torna essa verdade numa única jogada.
A maioria de nós tem a tendência de se agarrar à auto-imagem e aos vícios com muita tenacidade.
Enquanto nos apegamos a alguma necessidade de alimentar um antigo vício, o Universo nos deixa fazer isso. Ele apenas continua a fluir e a preencher os moldes que desejamos concretizados, não importando se estão muito longe do objetivo. Porém, essa realização incessante de nossas criações, boas ou ruins, é um presente de amor — não uma recusa da graça. Parte da graça está recebendo o privilégio incondicional de tornar-se consciente.
O vinho novo não é guardado dentro de odres velhos. Os odres velhos têm de acabar — sejam eles hábitos, desvios da mente ou padrões emocionais. E eles não costumam acabar gratuitamente. No entanto, perda após perda e morte após morte, aprendemos a nos desfazer das amarras que andamos acumulando em torno de nós.
Tudo isso pareceu tão fácil quando estabelecemos o compromisso. “Just do it”, diria a propaganda do velho  Nike. Mas geralmente temos de passar por muitas coisas complicadas para chegar à simplicidade. E as coisas freqüentemente pioram antes de melhorar.
O processo de esvaziamento pode ser esfalfante, monótono e doloroso. Ele pode se arrastar por muitos anos e se revelar de mil maneiras inesperadas.
Casamentos difíceis, doenças longas, falência — tudo isso é a matéria-prima em potencial da iniciação. A dra. Dianne Connelly diz que a nossa dor é como o sino de um mosteiro que nos convoca muitas e muitas vezes, “até ouvirmos aquilo que é velho e conhecido com um novo encanto. Nossa desorientação exige que encontremos o caminho de casa”.
Jean Houston, fundadora de uma Escola Ocultista, escreve que essas “feridas sagradas” são um convite para o seu renascimento. Ao mencionar o tormento de São Paulo, as chagas de Jó, a perna aleijada de Esculápio, o semideus grego da cura, ela chama tais ferimentos de “criação da alma”.
A purificação não acontece instantaneamente só porque cantamos uma dúzia de mantras ou recitamos três Ave-Marias. Ela pode tornar-se aquilo que C. G. Jung chamou de “uma paixão do Ego”. Prestamos um sério desserviço uns aos outros quando não reconhecemos que a purificação é real e inevitável durante a mudança.
Nós nos condenamos uns aos outros a passagens solitárias e confusas quando atacamos uns aos outros com clichês do tipo “Nunca tenha um pensamento negativo”; “Você criou essa realidade”; “Isso é apenas o seu carma que está se cumprindo”. Por mais verdadeiras que elas possam ser, não são apenas respostas insensíveis para alguém que está passando por uma catarse; elas provavelmente revelam o medo profundo que a pessoa tem da parte agonizante do processo de transformação. Parte do medo é de que talvez não saibamos quem somos se nos entregarmos. No entanto, freqüentemente, temos de renunciar num nível para descobrir do que é que realmente precisamos abrir mão.
Geralmente, quando abrimos mão de alguma coisa, descobrimos algo escondido que realmente precisava desaparecer. Conheço uma mulher muito culta e exigente cuja vida espiritual estava paralisada até que ela percebeu, para sua grande surpresa, que estava se agarrando a uma imagem severa e patriarcal de Deus. Seu próprio pai fora ministro de culto, e o seu medo inconsciente era o de que, se abrisse mão dessa imagem constritiva de Deus, estaria abandonando o próprio pai.
Uma antiga máxima Zen aconselha: “Apegue-se de leve; libere-se com firmeza.”  Uma razão pela qual o ciclo de purificação é tão doloroso é porque já passamos pelo despertar que nos assegurou que a mudança estava certa e, durante o compromisso, trabalhamos muito para fazê-la acontecer. Porém, quando a purificação se inicia, pode parecer como se tivéssemos falhado. É fácil sermos presos pela frustração. “O que é que você quer de mim, Deus Pai? Largue o meu pé!”
As tradições místicas de todo o mundo estão repletas de histórias a respeito da “noite escura da alma”, na qual o discípulo inteiramente comprometido sente-se abandonado na batalha com seus inimigos internos.
Uma vez que nos comprometemos a viver uma parte maior da nossa verdade, não podemos sair ilesos com as mesmas coisas que antes. Estamos literalmente, e não simbolicamente, mudando de uma oitava de energia para outra, e toda a substância que estava tranqüila na oitava inferior está fora de lugar na superior. Ela simplesmente não vibra ali. A purificação mata tudo aquilo que, na forma antiga, não consegue vibrar dentro de uma estrutura nova e mais complexa. A energia concernente à forma antiga tem de ser inteiramente transformada. Ela tem de ser reformada.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 223

Foto:Harold Laudeus

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