A separação, o mergulho

O que significa a volta ao lar? Ela é o instinto de retorno, de volta ao lugar de que nos lembramos. É a capacidade de encontrar, à luz do sol ou nas trevas, nossa terra natal. Todas nós sabemos voltar para casa. Não importa quanto tempo tenha passado, nós encontramos o caminho. Atravessamos a noite, passamos por terras estranhas, por tribos desconhecidas, sem mapas e perguntando qual é o caminho a quem quer que encontremos na estrada.
A resposta exata à pergunta de onde fica o lar é mais complexa… mas de certo modo ele fica num lugar interno, um lugar em algum ponto do tempo, não do espaço, onde a mulher se sinta inteira. O lar é onde um pensamento ou sentimento pode ser mantido em vez de sofrer interrupções ou de ser arrancado de nós porque alguma outra coisa exige nosso tempo e atenção. E, pelos séculos afora, as mulheres sempre descobriram inúmeros meios de chegar a ele, de criá-lo para si, mesmo quando seus deveres e afazeres pareciam intermináveis.
Aprendi isso na comunidade em que vivi durante a minha infância, em que muitas devotas acordavam antes das cinco da manhã e, nos seus longos vestidos escuros, seguiam pela madrugada cinzenta para ir se ajoelhar na fria nave da igreja, com sua visão periférica protegida por lenços amarrados ao queixo, puxados bem para a frente. Elas enterravam o rosto nas mãos avermelhadas e oravam, contavam histórias para Deus, conseguiam alcançar a paz, a força e o  insight. De vez em quando, minha tia Katerin me levava com ela. Quando um dia eu lhe disse, “É tão calmo e bonito aqui”, ela piscou enquanto fazia com que eu me calasse. “Não conte para ninguém. É um segredo importantíssimo.” E era mesmo, porque o trajeto até a igreja na madrugada e o interior sombrio da nave  eram os dois únicos lugares naquela época em que era proibido perturbar a mulher.
É correto e conveniente que as mulheres procurem, liberem, conquistem, criem, conspirem para obter e afirmem seu direito à volta ao lar. O lar é uma sensação ou uma disposição constante que nos permite vivenciar sensações não necessariamente mantidas no mundo concreto: o assombro, a imaginação, a paz, a despreocupação, a falta de exigências, a liberdade de estar afastada da tagarelice constante. Todos esses tesouros do lar deveriam ficar armazenados na psique para seu uso futuro no mundo objetivo.
Embora existam muitos lugares físicos onde a mulher pode ir para “tatear” o caminho de volta a esse lar especial, esse lugar físico específico não é o lar. Ele é apenas o veículo que embala o Ego para que ele adormeça e nós possamos percorrer o resto do caminho sozinhas. Os veículos com os quais e através dos quais a mulher chega ao lar são muitos: a música, a arte, a floresta, o vapor do mar, o nascer do sol, a solidão. Todos eles nos  levam de volta a um mundo interior benéfico que tem idéias, organização e sustentação próprias.
O lar é a pura vida instintiva que funciona tão bem quanto uma engrenagem bem azeitada, onde tudo é como deveria ser, onde todos os ruídos parecem certos, a luz é boa e os cheiros nos acalmam em vez de nos deixarem alarmadas. Não é importante como passamos o tempo nesse retorno. O que é essencial é qualquer coisa que propicie o equilíbrio. O lar é isso.
Não há só tempo para contemplar, mas também para aprender e  descobrir o esquecido, o enterrado, o que está fora de uso. Ali podemos imaginar o futuro e também nos debruçar sobre os mapas de cicatrizes da psique, descobrindo o que levou ao quê e onde iremos em seguida. Como colocou Adrienne Rich a respeito da volta ao self em seu poema evocativo “Diving into the wreck”,

There is a ladder.
The ladder is always there
hanging innocently
dose to the side of the schooner…
I go down…
I carne to explore the wreck…
I carne to see the damage that was done  
and the treasures that prevail…

“O mergulho no barco naufragado”. Há uma escada./A escada está sempre ali/inocentemente suspensa/junto à lateral da escuna…/Vou descendo…/Vim explorar os destroços…/Vim ver os danos sofridos/e os tesouros que restaram…

O que posso lhe dizer de mais importante quanto ao momento certo desse ciclo de volta ao lar é o seguinte: quando está na hora, está na hora. Mesmo que você não se sinta pronta, mesmo que algumas coisas fiquem por fazer, mesmo que  hoje seja o dia da sua sorte grande. Quando chegou a hora, chegou a hora. A mulher-foca volta para o mar, não porque ela simplesmente tenha sentido vontade, não porque aquele fosse um dia adequado para ir, não porque sua vida estivesse toda nos eixos — não existe uma hora em que tudo esteja nos eixos para ninguém. Ela vai porque chegou a hora, e por isso precisa ir.
Todas nós temos nossos métodos preferidos para nos convencer a não tirar o tempo necessário para a volta ao lar. No entanto, quando resgatamos  nossos ciclos instintivos e selváticos, ficamos sob a obrigação psíquica de organizar nossa vida para que possamos vivê-la cada vez mais em harmonia. Discussões sobre a conveniência e a inconveniência da despedida para a volta ao lar são inúteis. A verdade é que, quando chegou a hora, chegou a hora.
Algumas mulheres nunca voltam ao lar e, em vez disso, passam a vida a  la zona zombi, na faixa dos zumbis. A parte mais cruel desse estado sem vida reside no fato de a mulher funcionar, caminhar, falar, agir, até realizar muitas coisas, mas sem sentir os efeitos do que não deu certo. Se ela sentisse, a dor faria com que imediatamente se voltasse para corrigir a situação.
No entanto, não é isso o que ocorre. A mulher nesse estado segue em frente com dificuldade,  com os braços estendidos, defendendo-se da dolorosa perda do lar, cega e, como dizem nas Bahamas, “ela se tornou  sparat“, querendo dizer que sua alma partiu sem ela e a deixou com uma sensação de não ser inteiramente sólida, por mais que se esforce. Nesse  estado, as mulheres têm a estranha impressão de que estão realizando muito, mas com muito pouca satisfação. Elas estão fazendo o que achavam que deviam fazer, mas não se sabe como o tesouro nas suas mãos se transformou em pó. Essa é a percepção adequada que a mulher deve ter nesse estado.
O descontentamento é a porta secreta que leva a mudanças significativas e revigorantes.
Algumas mulheres com quem trabalhei que não voltaram ao lar nos últimos vinte anos ou mais sempre choram no instante em que voltam a pôr os pés nesse terreno psíquico. Por diversos motivos, que aparentavam ser bons em cada ocasião, elas passaram anos aceitando o exílio permanente da sua terra natal. Estavam esquecidas de como é bom quando a chuva cai na terra ressecada.
Para algumas, o  lar corresponde à dedicação a algum tipo de iniciativa.
Algumas mulheres começam a cantar depois de anos em que não encontravam razão para fazê-lo. Elas se comprometem a aprender algo que há muito tempo tinham vontade de aprender. Elas procuram entrar em contato com pessoas e coisas que pareciam perdidas na sua vida. Elas reassumem sua voz e começam a escrever. Elas repousam. Elas transformam algum cantinho do mundo no seu próprio canto. Elas levam a cabo decisões imensas ou intensas. Elas fazem coisas que deixam sua marca. Para algumas mulheres, o lar é a floresta, o deserto, o mar. Na realidade, o lar é holográfico. Ele está com todo o seu potencial até mesmo numa única árvore, num cacto solitário na vitrina de uma loja de plantas, num lago de água parada.  Ele também está com todo o seu potencial numa folha amarela caída no asfalto, num vaso de barro vermelho à espera de um feixe de raízes, numa gota d’água na pele.
Quando você concentrar os olhos da alma, verá o lar num grande número de lugares.
Por quanto  tempo a pessoa fica no lar espiritual? O máximo de tempo possível, ou até que você seja novamente dona de si mesma. Com que freqüência é necessária essa volta? Com uma freqüência muito maior se você for uma pessoa “sensível” e muito ativa no mundo objetivo. Algo menos se você for um pouco insensível e não se “expuser” tanto. Cada mulher sabe no fundo do coração a freqüência e a duração necessárias. É uma questão de saber avaliar a condição do brilho nos nossos olhos, da vibração do nosso ânimo, da vitalidade dos nossos sentidos.
Como equilibramos a necessidade da volta ao lar espiritual com a nossa vida de rotina? Basta que planejemos previamente o espaço para o lar espiritual nas nossas vidas. É sempre surpreendente como é fácil para a mulher “arrumar um tempo” quando ocorre uma doença na família, quando uma criança precisa dela, quando o carro enguiça, quando ela tem uma dor de dente. É preciso que demos o mesmo valor à volta ao lar, se necessário que lhe atribuamos proporções de crise.
Pois a verdade inequívoca é que, se a mulher não for quando chegou sua hora de ir, a fenda finíssima na sua alma/psique se transforma numa ravina, e a ravina se transforma num abismo fragoroso.
Se a mulher valoriza absolutamente seus ciclos de volta ao lar, os que a cercam irão também aprender a valorizá-los. É verdade que podemos alcançar um nível significativo de volta ao “lar” quando tiramos algum tempo longe da monotonia da rotina diária, um tempo que não pode ser interrompido e que é exclusivamente nosso. Só que “exclusivamente nosso” tem significados diferentes para mulheres diferentes. Para algumas, estar num aposento com a porta fechada, mas ainda estando acessível aos outros, já é uma boa volta ao lar. Para outras, porém, o lugar de onde elas podem mergulhar precisa estar livre até mesmo da menor interrupção.
Nada de “Mamãe, mamãe, onde estão os meus sapatos?” Nada de “Querida, estamos precisando de alguma coisa do mercado?”
Para esse tipo de mulher, a entrada para o lar profundo é evocada pelo silêncio.  No me molestes. Silêncio Absoluto, com “S” maiúsculo e “A” maiúsculo. Para ela, o barulho do vento passando por um grande bloco de árvores é silêncio. Para ela, o ruído de um córrego da montanha é silêncio. Para ela, o trovão é silêncio. Para ela, a ordem normal da natureza, que nada pede em troca, é o silêncio revigorante. Cada mulher escolhe tanto como pode quanto como deve.
Independente do tempo dedicado ao “lar”, uma hora ou dias, lembre-se de que outras pessoas podem cuidar dos seus gatos mesmo que seus gatos digam que só você sabe cuidar certo. Seu cachorro tentará fazer com que você pense que está abandonando uma criancinha numa rodovia, mas acabará por perdoá-la. A grama irá ficar um pouco amarelada, mas reviverá. Você e seu filho sentirão falta um do outro, mas os dois se alegrarão quando você voltar. Seu parceiro pode resmungar. Todos irão superar o problema. Seu chefe pode ameaçá-la. Ele ou ela também superará isso. Demorar-se demais é loucura. A volta ao lar é a decisão saudável.
Quando a cultura, a sociedade ou a  psique não apoiam esse ciclo de volta ao lar, muitas mulheres aprendem a saltar por cima do portão ou a cavar por baixo da cerca, de qualquer jeito. Elas contraem alguma doença crônica e roubam um tempinho para leitura na cama. Dão aquele sorriso amarelo  como se tudo estivesse bem e continuam numa sutil redução do ritmo de trabalho enquanto necessário.
Quando o ciclo de volta ao lar é perturbado, muitas mulheres sentem que, para se verem livres, precisam arrumar uma briga com o chefe, com os filhos, com os pais ou com seu parceiro para afirmar suas necessidades psíquicas. E assim o que ocorre é que no meio de uma explosão ou outra a mulher insiste. “Bem, vou embora. Já que  você é tão( _____) [preencha a lacuna] e obviamente não liga a mínima (_____ )[preencha a lacuna], vou embora, muito obrigada.” E lá se vai ela, com um ronco, um estrondo e uma saraivada de cascalho.
Se a mulher tem de lutar pelo que é seu de direito, ela se sente justificada, ela se sente absolutamente legitimada em seu desejo de voltar ao lar. É interessante observar que, se necessário, os lobos lutam pelo que desejam, seja alimento, sono, sexo ou tranqüilidade. Seria de se imaginar que lutar pelo que se quer é uma reação instintiva adequada à situação de ser tolhida. No entanto, para muitas  mulheres, a luta precisa também, ou apenas, ser empreendida no seu íntimo: uma luta contra todo o complexo interno que para começar nega suas necessidades. Pode-se também fazer recuar uma cultura agressiva com eficácia muito maior quando se foi ao lar e se voltou dela.
Se você tiver de lutar cada vez que quiser ir, seus relacionamentos mais íntimos podem precisar ser cuidadosamente avaliados. Se possível, é melhor demonstrar ao seu pessoal que você estará diferente quando voltar, que você não os está abandonando, mas se reaprendendo e trazendo a si mesma de volta à sua verdadeira vida. Especialmente se você for artista, cerque-se de pessoas que sejam compreensivas para com sua necessidade de volta ao lar, pois é provável que você vá precisar, com maior freqüência do que a maioria das mulheres, minar o terreno psíquico do “lar” a fim de aprender os ciclos da criação. Portanto, seja breve, porém firme. Minha amiga Normandi, uma escritora talentosa, diz que já tem prática e resume tudo a “Estou indo”. Essas são  as melhores palavras possíveis. Diga-as. E vá embora.
Mulheres diferentes têm critérios diferentes para o que consiste ser um período útil e/ou necessário passado no “lar”. A maioria de nós nem sempre pode ficar lá tanto tempo quanto quiser. Por isso, ficamos  o tempo que podemos. De vez em quando, ficamos lá o tempo que precisamos. Em outras ocasiões, ficamos por lá até sentirmos falta do que deixamos. Às vezes mergulhamos, saímos, mergulhamos de novo, rapidamente. A maioria das mulheres de volta aos ciclos naturais alternam entre essas opções, procurando equilibrar as circunstâncias e a necessidade. Uma coisa é certa. É uma boa idéia ter uma pequena valise pronta junto à porta. Para uma eventualidade.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa PÍnkola Estés.

Foto: Easylocum

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