O amor dentro da escuridão

A trilha da mudança consciente engloba todas as nossas experiências, tanto boas como ruins. Quanto mais nos expandimos em direção à nossa totalidade, mais intensamente sentimos as partes de nós que estão com medo. Quando o sol brilha ao meio-dia, as sombras são mais fortes, mais claramente definidas.

Jung fez aumentar a percepção do lado sombrio de nossa natureza que muitas vezes negamos. Em The Archetypes and the Collective Unconscious [Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo], ele diz: “A sombra personifica tudo o que o sujeito se recusa a reconhecer a seu próprio respeito e, no entanto, está sempre se lançando sobre ele direta ou indiretamente como, por exemplo, nos traços de caráter inferiores e em outras tendências incompatíveis.” Mais tarde, ele comenta na sua autobiografia Memories, Dreams, Reflections [Memórias, Sonhos, Reflexões], que “o conflito entre os opostos pode extenuar nossa psique até o ponto de ruptura, se os levarmos a sério ou se eles nos levarem a sério… se tudo correr bem, a solução, aparentemente por vontade própria, acontece naturalmente. Então, e só então, ela é convincente. É vista como uma ‘graça'”.
Toda vez que aceitamos outra parte de nós mesmos, estamos nos abrindo para receber mais graça. A graça é uma fonte de luz sempre presente jorrando incondicionalmente. O problema é que, sedentos e carentes, geralmente nos sentamos com as nossas canecas de mendigos ao lado das águas sagradas e julgamos a nós próprios, e aos outros, indignos de usufruí-las.
A transformação não é possível com a negação. A negação é uma escolha no sentido de permanecermos inconscientes. Mas ela não altera o efeito magnetizador das antigas crenças. Não importa se as  admitimos ou não, nossas crenças sobre a realidade estão modelando a realidade em que vivemos. Elas constroem nossas expectativas. Todos os programas dos Doze Passos para lidar com os vícios do álcool e das drogas apresentam, como primeiro passo, o reconhecimento de que o vício existe. Referir-se nominalmente ao “demônio” é o primeiro passo para nos livrarmos dele.
Ana era uma jovem mulher adorável que veio pedir aconselhamento sobre uma questão: sentia-se bloqueada em sua vida espiritual e não sabia a razão disso.
Quando me sintonizei com ela, percebi que estava grávida há bem pouco tempo. Ela riu e confirmou que era verdade. Então, fui invadida pela mensagem de que ela estava firmemente agarrada à culpa por ter feito um aborto quando era jovem. Esse era o bloqueio do seu subconsciente. Embora estivesse contente com a segunda gravidez, ainda não se tinha livrado do aborto. Inconscientemente, ela sentia que tinha cometido uma grande ofensa contra o Espírito. Enquanto não encarasse e eliminasse a culpa, todos os exercícios espirituais que fizesse seriam como apertar o acelerador com o breque puxado.
No trabalho pioneiro da dra. Elisabeth Kübler-Ross sobre a morte e o momento de morrer, seu modelo de progressão dirige-se aos seres que morrem conscientes em estado de negação. Ela afirma que não se pode trabalhar com os outros estados — raiva, depressão, barganha e, finalmente, aceitação — enquanto a negação de que a pessoa está morrendo não for enfrentada e superada. Além disso, diz ela, não começamos realmente a viver enquanto não encararmos a nossa mortalidade.
Enquanto não encararmos a morte, tudo o que estamos fazendo é gastar um monte de energia evitando-a.
É preciso muita energia para manter também nossas defesas contra a morte de uma sombra. Há uma diferença muito grande entre negar uma sombra e negar a autoridade que ela tem sobre nós. Quando estamos negando a sombra, podemos dizer: “Não tenho medo de ser abandonada.” Mas o medo de ser abandonada ainda está agindo inconscientemente, talvez sabotando relacionamentos numa manobra do tipo “vou fazer isso com você antes que você faça comigo”. Negar a autoridade da sombra é admitir a sua existência.
Quando a identidade se desloca do ego para o Espírito, as sombras tornam-se aspectos de nós que necessitam de amor, e não de julgamento. Quando fugimos de uma sombra, estamos dando a ela poder sobre nós. Quando a encaramos e abraçamos, estamos retirando esse poder; nós lhe negamos autoridade. Aprendemos, como dizia o romancista Nikos Kazantzakis, a “encarar, com olhos desanuviados, toda a escuridão”.
Muitas vezes, as pessoas com quem convivemos assumem uma posição favorável para com a nossa sombra. Se não conseguimos aceitar nossos preconceitos, com certeza nós os veremos retratados pelas pessoas que nos rodeiam. Se você quer descobrir em que medida o ego é habilidoso para se justificar, tente fazer este exercício com a maior honestidade para consigo mesmo.
Faça uma lista de todas as pessoas das quais você não gosta; marque o que você não gosta nelas e, então, para fazer o exercício, faça de conta que essa é uma característica que existe dentro de você. Suponha que não são o egoísmo, a grosseria, a aspereza ou os preconceitos delas que você não consegue tolerar, mas os seus próprios, que você não aceitou (você pode querer utilizar o exercício “reunindo-se com o comitê” — para descobrir quem foi designado como o vilão do seu drama).
No Budismo tibetano, ensina-se aos aprendizes que se pode lidar com a sombra empregando uma destas três maneiras: o aluno pode transmutar uma energia de vibração inferior (o problema) gerando energia superior intensa suficiente para forçar a mudança. Ou, então, o aprendiz pode encarecer o problema, tratando-o como necessário. O terceiro modo é dirigir-se para dentro do problema e deixar que a sombra siga o seu caminho. Isso faz com que o estudante desenvolva uma parte do eu que se limita a observar a coisa toda com uma consciência mais elevada e mais aberta.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 231

Foto:WolfSoul

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