A mulher medial: a que respira debaixo d’água

Na história,  é feita uma interessante concessão. Em vez de abandonar seu filho, ou de levar o filho consigo para sempre, a mulher-foca leva a criança em visita aos que vivem no mundo “oculto”. A criança é reconhecida como um membro do clã das focas através do sangue da sua mãe. Ali no lar subaquático, ensinam-lhe os costumes da alma selvagem.

A criança representa uma nova ordem na psique. Sua mãe foca soprou um pouco do seu próprio ar, um pouco da sua própria animação especial, para dentro dos pulmões da criança, transformando-a, portanto, em termos psicológicos, num ser intermediário, um ser medial, um ser capaz de construir uma ponte entre os dois mundos. No entanto, embora essa criança seja iniciada no mundo subaquático, ela não pode ficar ali, mas deve voltar para a terra. Daí em diante, ela preenche um papel especial. A criança que mergulhou fundo e voltou à tona não é inteiramente Ego, nem inteiramente alma, mas fica em algum ponto intermediário.
Existe no âmago de todas as mulheres o que Toni Wolffe, uma analista junguiana que viveu na primeira metade do século XX, chamou de “mulher medial”.
A mulher medial se posiciona entre o mundo da realidade consensual e o do  inconsciente místico, fazendo mediação entre eles. Ela é o transmissor e o receptor entre dois ou mais valores ou idéias. Ela é a que dá à luz novas idéias, transmuta velhas idéias por idéias inovadoras, faz a comunicação entre o mundo do racional e o do imaginário. Ela “ouve” coisas, sabe “coisas” e “pressente” o que virá a seguir.
Esse ponto a meio caminho entre os mundos da razão e da imaginação, entre o raciocínio e o sentimento, entre a matéria e o espírito — entre todos os opostos e todas as nuanças de significado que se possam imaginar  — é o lugar da mulher medial. A mulher-foca na história é uma manifestação de alma. Ela é capaz de viver em todos os mundos, no mundo superficial da matéria e no mundo distante, ou mundo oculto, que é o seu lar espiritual, mas ela não consegue ficar muito tempo na terra. Ela e o pescador, a psique egóica, geram um filho que também consegue viver nos dois mundos, mas que não consegue ficar muito tempo no lar da alma.
A mulher-foca e a criança formam juntas um sistema na psique da mulher que é bem parecido com um mutirão para apagar um incêndio com baldes. A mulher-foca,  o self da alma, passa pensamentos, idéias, sentimentos e impulsos de dentro d’água até o self medial, que por sua vez leva os mesmos até a terra e até a consciência no mundo objetivo. O sistema também funciona no sentido inverso. Os acontecimentos da nossa vida diária, nossos traumas e alegrias passadas, nossos temores e esperanças para o futuro, todos são passados diretamente à alma, que tece seus comentários nos nossos sonhos, manifesta seus sentimentos através do nosso corpo ou nos fisga com um momento de inspiração com uma idéia na ponta.
A Mulher Selvagem é uma combinação de bom senso e senso da alma. A mulher medial é o duplo de si mesma e tem também essa dupla capacidade. Como a criança na história, a mulher medial pertence a este mundo, mas tem condição de viajar até os recessos mais profundos da psique com facilidade. Algumas mulheres nascem com esse dom. Outras mulheres adquirem essa capacidade. Não importa a forma pela qual se chegue a ela, um dos efeitos da regularidade na volta ao lar está no fato de a mulher medial da psique sair fortalecida toda vez que a mulher vai e volta.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Rob Young

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