O veneno no rio

Há inúmeros mitos relativos à deterioração e represamento do criativo e do selvagem, quer eles tratem da contaminação da pureza, como foi representado pela névoa nociva que se espalhou sobre a ilha de Lecia, onde eram armazenadas as meadas da vida com as quais as Parcas teciam, quer tratem de histórias sobre malfeitores que tapam os poços de aldeias, causando, com isso, sofrimento e morte.

Duas das histórias mais profundas são as atuais “Jean de Florette” e “Manon da Primavera”. Nessas histórias, dois homens, na esperança de despojar um pobre corcunda, sua esposa e sua filhinha pequena das terras que eles vinham tentando revitalizar com flores e arvores, tampam a nascente que alimenta aquela terra, provocando a destruição da família trabalhadora e dedicada.
O efeito mais comum da poluição na vida criativa da mulher é a perda da vitalidade. Isso prejudica a capacidade mulher de criar ou agir no mundo “lá fora”.
Embora existam épocas nos ciclos da vida criativa saudável da mulher nas quais o rio da criatividade desaparece no subsolo temporariamente, algo está se desenvolvendo do mesmo jeito. Nessas ocasiões, estamos em incubação. A sensação é muito diferente da de uma crise espiritual.
Num ciclo natural, existe inquietação e impaciência, talvez, mas não ocorre jamais uma sensação de que a alma selvagem esteja morrendo. Podemos saber a diferença através da avaliação da nossa expectativa: mesmo quando nossa energia criativa está envolvida num longo processo de incubação, nós ainda ansiamos pelo resultado. Sentimos os estalos e ondulações dessa nova vida que gira e zumbe dentro de nós.
No entanto, quando a vida criativa morre porque não estivemos cuidando da saúde do rio, a situação é inteiramente outra. Sentimo-nos exatamente como o rio que morre. Sentimos a perda de energia, sentimo-nos cansadas. Não há nada rastejando, incomodando, levantando folhas, refrescando, aquecendo. Nós nos tornamos turvas, lentas de um modo negativo, envenenadas pela contaminação ou por um refluxo e estagnação de todas as nossas riquezas. Tudo dá a impressão de estar poluído, impuro e envenenado.
Como pode a vida  criativa da mulher ser poluída? Esse enlameamento da vida criativa invade todas as cinco fases da criação: a inspiração, a concentração, a organização, a implementação e a manutenção. As mulheres que perderam uma ou mais dessas fases relatam que não “conseguem pensar” em nada de novo, de útil ou que desperte sua empatia. Elas se vêem facilmente ”perturbadas” por casos de amor, pelo excesso de trabalho, pelo excesso de lazer, pela fadiga ou pelo receio de fracassar.
Por vezes, elas não conseguem dominar a  mecânica da organização, e seus projetos acabam espalhados por aí em centenas de lugares, aos pedaços. Às vezes, os  problemas se originam da ingenuidade da mulher acerca da sua própria extroversão.
Ela acha que, ao fazer alguns movimentos no mundo exterior, realmente fez alguma coisa. Isso equivale a fazer os braços de alguma coisa, mas não as pernas nem a cabeça, e considerá-la pronta. Ela se sente necessariamente incompleta.
Às vezes, a mulher tropeça na própria introversão e quer simplesmente que as coisas existam só porque ela deseja. Ela pode acreditar que basta pensar que a ideia é suficientemente boa e que não há necessidade de nenhuma manifestação externa. Só que ela se sente despojada e incompleta do mesmo jeito. Todas essas são manifestações de poluição no rio. O que está sendo fabricado não é a vida, mas algo que inibe a vida.
Outras vezes, ela sofre agressões por parte daqueles que a cercam ou das vozes que lhe soam na cabeça: “O que você faz não está bem certo, não é bom o suficiente, não é suficientemente isso ou aquilo. É pretensioso demais, ínfimo demais, insignificante demais, demora demais, é fácil ou difícil demais.” Isso equivale a derramar cádmio no rio.
Há uma outra história que descreve o mesmo processo, mas emprega um simbolismo diferente. Na mitologia grega, há um episódio no qual os deuses determinam que um grupo de aves chamadas Harpias deverá punir um indivíduo conhecido como Fineu. Cada vez que a comida de Fineu é servida magicamente, o bando aparece voando, rouba parte do alimento, espalha outra parte e defeca sobre o resto, deixando o pobre homem com uma fome extrema.
Essa poluição literal também pode ser compreendida em termos figurados com uma fieira de complexos internos à psique, cuja única razão de ser consiste em atrapalhar. Essa história é decididamente um temblón, uma história de arrepiar. Ela nos dá arrepios de reconhecimento já que todas nós passamos por isso. A “Síndrome das Harpias” destrói através do menosprezo aos nossos talentos e esforços e através de um diálogo  interior de enorme depreciação. A mulher propõe uma idéia, e a Harpia caga sobre ela. A mulher diz, “Bem, acho que eu devia fazer isso e aquilo.” A Harpia responde, “Que idéia idiota. Ninguém vai ligar para isso. É ridiculamente simplista. Ora, ouça o que  lhe digo, suas idéias são todas estúpidas, as pessoas vão rir, você realmente não tem nada a dizer.” E assim que a Harpia fala.
As desculpas são outra forma de poluição. De escritoras, pintoras, bailarinas e outras artistas, ouvi todo tipo de desculpa inventada desde que a Terra esfriou. “Bem, um desses dias vou arranjar tempo para meu trabalho.” Enquanto isso não acontece, ela se mantém numa depressão sorridente. “Estou ocupada, é, consigo um tempinho aqui e ali para escrever, ora, escrevi dois poemas no ano passado, é, e terminei um quadro e parte de outro nos últimos dezoito meses. É, a casa, as crianças, o marido, o namorado, o gato, o bebê precisam de minha total atenção. Vou conseguir me dedicar ao meu trabalho. Não tenho dinheiro, não tenho tempo, não consigo encontrar tempo, não consigo criar tempo, não posso começar sem ter os melhores e mais caros instrumentos ou experiências, simplesmente não estou com vontade agora, ainda não estou com a disposição de ânimo certa. Só preciso de pelo menos um dia  para conseguir, só preciso de uns dias para conseguir. Só preciso de algumas semanas comigo mesma para conseguir. Eu só, eu só…”

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: H.Koppdelaney

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