Deixar de lado os controles, não as capacidades

A entrega significa abandonar os controles. Mas isso não quer dizer tornar-se passivamente irresponsável. Nós não abrimos mão de nossas capacidades. Aquilo que abandonamos é o uso delas no sentido de manipular o mundo. As capacidades devem ser cuidadosamente administradas,  não devem ser encarregadas da nossa encarnação.  O marinheiro ou o praticante habilidoso de windsurf sabe que não se aprende a controlar o mar. Você aprende os princípios do esporte e depois assimila-os tão bem de modo a poder confiar nas suas reações à medida que se entrega ao vento e às ondas. Uma boa corrida é uma mistura sutil de controle e abandono.

Ninguém sabe nos dizer exatamente como é o sentimento de ter controle e não ter controle ao mesmo tempo. É como aprender a saltar de pára-quedas. Podemos aprender tudo o que é possível sobre equipamentos, segurança e técnica. Mas nunca nos tornaremos pára-quedistas apenas observando os outros ou lendo um manual, mesmo que nos tornemos especialistas  teóricos em pára-quedismo. Em algum momento, teremos de pular do avião, confiando ao mesmo tempo no nosso preparo e no vento sobre o qual não temos nenhum controle.
É um tanto irônico mas, para atingir a fase da entrega, temos de retirar de outras pessoas o controle da nossa vida. Enquanto estamos sendo dirigidos pelas vozes interiorizadas e pelas ordens dos outros, não estamos em contato com a nossa própria vontade; não estamos no controle. É mais como copiar, talvez com a imaginação, mas mesmo assim trata-se mais de uma reação que de uma ação.
Porém, tão logo nos movemos para dentro da força criativa de nossa vontade, nós nos deparamos com o abandono dessa vontade ante uma diretriz superior — a vontade Una. Nesse nível de sintonia, nosso lugar no plano superior é-nos revelado.
Desistir do controle é algo que sucede pouco a pouco para a maioria de nós.
“Vou abrir mão do meu talento, meu Deus, mas estou mantendo o controle dos meus relacionamentos.” “Vou confiar em você até esse ponto, mas prefiro preocupar eu mesmo com estas outras coisas.” Parece tolice, mas isto é um testemunho tanto da força da nossa vontade individual como das crenças profundamente arraigadas que depositamos na separação.
Deixar o barco correr não é o mesmo que abrir mão das coisas. Abrir mão geralmente significa que não podemos encontrar um modo de pôr a funcionar a forma antiga, mas que o desejo ainda está vivo. Deixar que as coisas aconteçam é acabar até mesmo com o desejo da forma antiga. Às vezes, é difícil distinguir a diferença.
O rito de passagem de Amy girava em torno do seu intenso desejo de escrever.
Ela foi uma criança brilhante e cresceu numa família de pessoas cultas que valorizavam a escolaridade acima de tudo. Ela desenvolveu o desejo de escrever enquanto era jovem, mas também desenvolveu uma forma secreta que era mais ou menos assim: “Ser uma escritora prova que eu sou uma pessoa digna.” Amy cresceu e se notabilizou em muitas áreas, como professora e ministra leiga do culto, e também como escritora. Mas nunca deu atenção à sua crença secreta até o momento em que disse a Deus que queria ser totalmente consciente. Foi nesse momento que ela se deparou com o desafio. Por mais que tentasse manipular o seu mundo de modo a poder escrever, as exigências de sua vida não lhe permitiam que sobrasse muito tempo ou energia para isso. O seu eu espiritual, que estava amadurecendo, sabia que seu trabalho era válido, mas ela não estava em paz consigo mesma. Por baixo de todo o seu sucesso havia a antiga crença de que qualquer outra coisa que não fosse escrever em período integral não era suficientemente boa. Ela se encontrava em profunda resistência — uma luta ambivalente entre a crescente evidência do mundo exterior e a suposição há muito tempo mantida no seu mundo interior.
Seu despertar aconteceu quando ela compreendeu que não podia mais dizer a Deus: “Seja feita a Tua vontade — contanto que ela signifique escrever.” Quando Amy começou a desconfiar que estava impondo as condições de seu discipulado, partiu para o compromisso com a “Tua vontade” e realmente foi sincera. Logo, ela começou a ver seus alunos e suas oportunidades sob uma nova luz. Porém, as condições de que necessitava não apareciam. Levou muito tempo até Amy perceber que estava passando pela purificação, porque estava secretamente apegada à antiga crença. Sua entrega só aconteceu quando ela aceitou, de boa vontade, o fato de que seu papel neste plano poderia não ser o de escritora, mas que ainda assim ela era uma pessoa, escritora ou não. Ela estava disposta a deixar o barco correr e a servir do modo como fosse indicado pela sua orientação interior e pelas circunstâncias externas. Foi uma entrega genuína, um abandono no amor e na aceitação, não uma concessão desesperada. Dentro de algumas semanas, um livro que ela já havia escrito foi comprado por uma editora, e o pessoal da universidade em que lecionava ofereceu-se para reorganizar seu horário de modo a lhe dar tempo para escrever. Amy não foi “premiada” com um editor e uma equipe de ajuda — ela simplesmente saiu do seu próprio caminho. Enquanto manteve a “crença” não purificada no seu subconsciente, o Universo não pôde se movimentar. Aquilo era como o  plug que mantinha o antigo padrão no mesmo lugar. Escrever em si nunca foi o verdadeiro problema. A verdadeira lição era a respeito do valor e da identidade pessoal. Escrever foi meramente o símbolo. Assim que ela eliminou as restrições de sua mente, sua vida se organizou para permitir que ela escrevesse, o que, em si, não era o problema.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p.261

Foto: Shenghung Lin

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