Recuar e dar a volta: As manobras Psíquicas

Recuar e dar a volta são movimentos de um animal que se enfurna na terra para fugir e aparece de novo às costas do predador. Essa é a manobra psíquica que a esposa do Barba-azul efetua para restabelecer o domínio sobre sua própria vida.

O Barba-azul, ao descobrir o que considera a falsidade da esposa, a segura pelo cabelo e a arrasta escada abaixo. “Agora é a sua vez!” ruge ele. O elemento assassino do inconsciente se levanta e ameaça destruir a mulher consciente.

A análise, a interpretação dos sonhos, o autoconhecimento, a investigação, todas essas atividades são realizadas por serem meios de recuar e de dar a volta. Elas são meios de mergulhar e vir à tona por trás da questão, vendo-a de uma perspectiva diferente. Sem a capacidade de ver, de ver realmente, deixa-se escapar o que foi aprendido a respeito do self do ego e do aspecto numinoso do Self.

Na história do Barba-azul, a psique tenta agora evitar ser morta. Tendo perdido a ingenuidade, ela se tornou astuciosa. Ela pede tempo para se compor — em outras palavras, tempo para se recompor para o combate final. Na realidade externa, encontramos mulheres planejando suas fugas, seja de um antigo estilo destrutivo, de um amante, seja de um emprego. Ela pára para ganhar tempo, ela espera a hora certa, ela planeja sua estratégia e reúne suas forças interiores antes de realizar uma mudança externa. Às vezes é exatamente esse tipo de ameaça imensa do predador que faz com que a mulher deixe de ser um amor de pessoa que se adapta a tudo e passa a ter o olhar suspeito dos desconfiados.

Por ironia, os dois aspectos da psique, o do predador e o do jovem potencial, chegam ao ponto de ebulição. Quando a mulher percebe que foi presa, tanto no mundo interior quanto no exterior, ela mal consegue tolerar a situação. É um golpe na raiz de quem ela realmente é, e ela planeja, como seria sua obrigação, destruir a força predatória.

Enquanto isso, seu complexo predatório está furioso por ela ter aberto a porta proibida e começa a dar suas voltas, tentando bloquear todos os caminhos de fuga. Essa força destrutiva torna-se assassina e diz à mulher que ela violou o que havia de mais sagrado e por isso deve morrer.

Quando aspectos opostos da psique de uma mulher atingem seu ponto de saturação, a mulher pode sentir um cansaço incrível pois sua libido está sendo sugada em duas direções opostas. No entanto, mesmo uma mulher que esteja morta de cansaço com suas lutas infelizes, não importa quais sejam, muito embora ela esteja com a alma exausta, ela ainda assim precisa planejar sua fuga. Ela precisa se forçar a seguir adiante seja como for. Esse período crítico assemelha-se a ficar ao relento em temperatura abaixo de zero um dia e uma noite. Para sobreviver, não se pode ceder à fadiga. Ir dormir significa morte certa.

Essa é a iniciação mais profunda, a iniciação de uma mulher nos sentidos instintivos correios através dos quais o predador é identificado e banido. É esse o momento no qual a mulher cativa passa da condição de vítima para a condição de alguém com a mente afiada, os olhos astuciosos, a audição apurada. É essa a hora na qual um esforço quase sobre-humano consegue impelir a psique exausta para que realize sua última tarefa. As perguntas-chave continuam a ajudar, pois a chave continua a verter seu sangue sábio apesar de o predador proibir a conscientização. Sua mensagem maníaca é a de que a mulher morra por querer a consciência. A resposta da jovem consiste em fazer com que ele pense que ela se dispõe a ser sua vítima enquanto está de fato planejando sua destruição.

Entre os animais diz-se que existe uma misteriosa dança psíquica entre o predador e a presa. Diz-se que, se a presa mantiver uma espécie de olhar servil, e um certo estremecimento que cause um leve ondular da pele sobre os músculos, ela estará reconhecendo sua fraqueza diante do predador e concordando em ser sua vítima.

Existe a hora de estremecer e correr, e existe a hora de não agir assim. Nesse momento específico, uma mulher não deve estremecer e não deve rastejar. O pedido da jovem esposa do Barba-azul por algum tempo para se recompor não é um sinal de submissão ao predador. É seu modo astucioso de reunir energias para usar da força. Como certas criaturas da floresta, ela está armando um bote contra o predador. Ela mergulha no chão para escapar dele e ressurge inesperadamente às suas costas.

CLARISSA PINKOLA ESTÉS, em Mulheres Que Correm Com Lobos.

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