A vontade de existir

Qual é a força que canaliza a energia do rio para dentro das células das árvores, de outro ser vivente, ou da estrutura molecular das rochas?

O que é que, em primeiro lugar, motiva-os a existir? Uma semente? Um padrão? É claro que sim. Mas ainda há mais. Há a vontade de existir. Sem essa vontade, a energia é novamente liberada para o fluxo universal. Retire a vontade de qualquer coisa, e essa coisa morrerá. Isso vale tanto para uma emoção como para um corpo físico. Se você decidir
retirar a vontade do ódio, do ressentimento e do medo, essas emoções morrerão de morte natural por falta de energia para sustentá-las.

A palavra-chave é escolha. E nós fazemos essas escolhas o tempo todo.

O dr. Viktor E. Frankl, psiquiatra e filósofo judeu, foi preso pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Em seu livro, Man’s Searchfor Meaning [A Busca do Significado pelo Homem], ele observou que até mesmo na mais degradada de todas as condições possíveis, num campo de concentração nazista, desprovidas até mesmo da dignidade
mais simples e incapazes de mudar os acontecimentos, as pessoas continuaram a fazer escolhas. Suportando o insuportável, algumas pessoas ascenderam à nobreza, compartilhando as coisas com as outras e se interessando por elas, descobrindo a paz interior em meio à loucura. Elas não podiam mudar os acontecimentos, mas podiam escolher o modo como reagiriam a eles.

Não podemos simplesmente congelar-nos e dizer que não faremos, não pensaremos ou não sentiremos nada em determinada situação. Esta é uma escolha que, por si só, energiza o nosso medo. Podemos sempre decidir-nos a escolher o status quo. Mas, se o fizermos, as guerras, a pobreza e as injustiças que foram “bastante boas para o querido papai” também serão bastante boas para nós. Contudo, também podemos fazer a escolha de novos planos, dar à luz novos desejos, pensar novos pensamentos, proferir novas palavras.

A história se repetirá enquanto continuarmos a criar a partir da vontade inferior que nos separa de Deus e dos outros homens.

A Inquisição, o Holocausto, Hiroshima, as perseguições aos cristãos — todos os horrores da nossa história são variações do tema da alienação da humanidade em relação às suas origens espirituais.
Quando criamos a partir da vontade inferior, apenas com a finalidade de satisfazer a ganância, nossas melhores obras caem por terra antes do tempo com a mesma facilidade que os castelos de areia ruem com a invasão do mar. Mas quando
ouvimos nossos impulsos mais profundos,  que se originam da vontade superior, estamos criando a partir de um modelo que parece ser muito mais amplo do que o nosso próprio. Nós nos tornamos co-criadores em conjunto com o universo, trazendo para o domínio físico novos sons, símbolos, conceitos, descobertas e invenções que nos enriquecem a todos. Tais criações são belas, e elas perduram porque proporcionam o bem a todos.
Em The Education of Little Tree [A Formação da Pequena Árvore], de Forrest Carter, o vovô exprime bem isso: “É o que acontece com as pessoas que armazenam mais coisas do que o quinhão que lhes cabe e com elas se beneficiam. Tudo acaba sendo tirado delas. E haverá guerras por isso… e elas procurarão fazer longos discursos, tentando obter mais do que lhes cabe. Dirão que têm à frente uma bandeira que lhes garante o direito de fazê-lo… e os homens morrerão por causa das palavras e da bandeira… mas não mudarão as regras do Caminho.”
Através dos tempos, os Mestres vêm nos ensinando o Caminho, independentemente de cultura e religião. Eles nos dizem que, se quisermos compreender a vontade divina, devemos olhar para dentro de nós mesmos, que nossa origem é divina e que fomos literalmente  criados à imagem de Deus. Mas temos a tendência de ficar exaltados quando alguém leva isso muito a sério.

A afirmação bíblica “Sois deuses” parece ser direta demais. Muitas pessoas sofreram perseguições ao longo dos séculos porque descobriram essa verdade e falaram a respeito dela. Nos velhos tempos, isso se chamava blasfêmia. Dependendo do modelo de realidade em uso, as acusações vão desde a decepção pessoal e arrogância até a presunção, incluindo aquele velho bicho-papão — a possessão demoníaca.
Chego a pensar que ficamos apavorados com a responsabilidade inerente a viver à altura do nosso potencial divino. É mais fácil jogar a culpa pelos acontecimentos nas forças que estão fora de nós ou, em estado de frustração, pretender afirmar que não há nenhuma inteligência dirigindo o espetáculo. Isso nos permite perpetuar a ilusão de que não temos nada que ver com o caos de nossas vidas pessoais, nada que ver com todas as mudanças e menos ainda com a loucura
que se verifica no planeta.

Contudo, quando nos alinhamos com a Vontade Única, estamos nos comportando como agentes para a implantação dessa vontade na Terra.
A vontade é o nosso direito inato, sagrado. Assim como o raio de sol está para o sol, assim nós estamos para a Fonte de toda a vida. A luz dessa Fonte está dentro de cada um de nós, não importa quão fraca possa parecer às vezes. Nunca houve uma época em que não existíssemos como parte do Todo. Nem haverá época em que não seremos parte do Todo.
Nós perdemos esse sentido de totalidade quando conferimos autoridade à vontade inferior, e retornamos à totalidade quando transferimos essa autoridade à vontade superior. Nós carregamos as duas dentro de nós o tempo todo.

Não é uma questão de negar, de reprimir e de subjugar a vontade inferior. É uma questão de escolher qual delas estará no comando de nossas vidas.

A vontade superior abrange a vontade inferior e trabalha através dela, e não o contrário. A vontade superior dentro
de nós escolhe as circunstâncias do nosso nascimento. Ela está interessada no crescimento da alma e no seu retorno à unidade. A dor e a decepção são vistas como uma oportunidade de crescimento tão importante quanto o sucesso e o prazer.

A vontade inferior muitas vezes faz escolhas que são boas para o ego e encara a dor e a decepção como mero fracasso. A vontade inferior tende a ver um universo de limitações. Ela procura símbolos externos de sucesso para dar validade a si mesma. Ela sente a necessidade de controlar. Deus é concebido como uma entidade separada do eu— uma entidade à qual temos de suplicar, de invocar e mesmo de solicitar favores. Se o eu inferior não consegue aquilo que quer, ele acredita que orações não foram atendidas; ele vive no medo.
A vontade superior visualiza um universo de abundância ilimitada, um universo no qual há muitos recursos para todos. Vivendo em unidade com Deus, ela dirige para si tudo aquilo de que necessita. Ela não encara o universo como um fornecedor relutante; em vez disso, faz uso do conhecimento como instrumento de sabedoria, vivendo na fé de que tudo está se desenrolando na mais perfeita ordem. Ela vive a vida plenamente, fazendo escolhas a partir de uma orientação interior, e não exterior. Ela vive no amor.
Uma pessoa que vive sob o domínio da vontade inferior não é boa nem má, apenas se encontra adormecida e tem uma compreensão imatura das coisas. Mas,antes de podermos começar a submeter a vontade inferior à Superior, temos de saber, em primeiro lugar, que a nossa vontade tem a capacidade de criar.

O dom do livre-arbítrio nos permite explorar nossas habilidades para criar, e quando estamos prontos para abrir mão da vontade inferior em nome da superior, fazemos isso como seres inteiramente conscientes, não como sonâmbulos.

Houve um tempo em que estávamos conscientes de que vivíamos em total unidade com a Fonte. Nossos mitos nos fazem lembrar dessa época — nós a chamamos de paraíso, de lar.

Na história da Queda, o ego usurpou a vontade e dela fez uso como seu próprio veículo de validação. Lamentavelmente, ao nos tornarmos mais civilizados, aprofundamos a cisão, e o espírito tornou-se o inimigo da carne. Ao mesmo tempo que amamos a Terra, lutamos com ela como a prisão de nossos espíritos.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 39.

Foto: Swansea

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