A oitava tarefa — De pé nas quatro patas

Baba Yaga sente repulsa pela bênção da mãe falecida e dá a Vasalisa a luz —
uma caveira incandescente numa vara — dizendo-lhe que se vá. As tarefas desta parte da história são as seguintes:  assumir um poder imenso de ver e afetar os outros (o recebimento da caveira); ver as situações da própria vida com essa nova luz (descobrir o caminho de volta à família da madrasta).

Baba Yaga sente repulsa porque Vasalisa foi abençoada pela mãe, ou ela sente repulsa por bênçãos em geral? Na realidade, nem uma alternativa nem outra.
Considerando-se acréscimos religiosos cristãos mais recentes, também tem-se a impressão de que nesse  ponto a história foi modificada para fazer com que a Yaga parecesse temer o fato de Vasalisa ter sido abençoada, cumprindo, assim, o desejo de patronos da religião mais moderna no sentido de tornar demoníaca essa Velha Mãe Selvagem (tão velha que remonta ao período neolítico) com o objetivo de enaltecer a
nova religião.
O texto original da história poderia ter sido alterado para  bênção a fim de estimular a conversão religiosa, mas para mim a essência do significado original e arquetípico ainda permanece. Pode-se interpretar a questão da bênção da mãe do seguinte modo: a “Vaga não sente repulsa pelo fato da bênção em si, mas está, sim, irritada com o fato de a bênção ser proveniente da mãe-boa-demais, a doce e gentil queridinha da psique. Se a Yaga for fiel a si mesma, ela não gostará de estar próxima demais, por muito tempo, do lado submisso e recatado da natureza feminina.
Embora a Yaga seja capaz de dar o sopro da vida a um filhote de camundongo com uma ternura infinita, ela prefere não se aproximar demais  da doçura e da luz.
Isso ela deixa nas mãos da psique pessoal. Nesse sentido, pode-se dizer que ela sabe muito bem ficar no seu lugar. Seu lugar é o mundo subterrâneo da psique. O lugar da mãe-boa-demais é o mundo da superfície. Embora a doçura tenha condição de se adaptar ao mundo selvagem, o mundo selvagem não consegue ficar muito tempo
restrito aos limites da doçura.
Quando a mulher integra esse aspecto da Yaga, ela deixa de aceitar sem questionamento cada sugestão, cada farpa, qualquer coisa que lhe apareça pela frente. Para conquistar um distanciamento mínimo da carinhosa bênção da mãe-boa-demais, a mulher aos poucos aprende não só a olhar, mas a fixar os olhos e vigiar com atenção, e cada vez mais a não ter paciência com gente enfadonha.
Tendo criado,  através de sua experiência de servir à Yaga, uma capacidade interior que antes não possuía, Vasalisa recebe uma parte do poder selvagem da Deusa Megera. Algumas mulheres receiam que esse profundo conhecimento por meio do instinto e da intuição irá torná-las irresponsáveis ou desmioladas, mas esse é um medo infundado.
Vale o contrário. A falta de intuição, a falta de sensibilidade para com os ciclos ou a negação a seguir o próprio conhecimento dão origem a escolhas que acabam se revelando infelizes e até mesmo desastrosas. Com maior freqüência, esse tipo de conhecimento da Yaga impulsiona as mulheres com movimentos mínimos, e com freqüência ainda maior fornece orientação ao proporcionar imagens nítidas do “que
está por trás ou por baixo” das motivações, idéias, atos e palavras dos outros.
Se a psique instintiva disser “Cuidado!”, a mulher deve prestar atenção. Se a intuição profunda disser “Faça isso, faça aquilo, vá por esse lado, pare aqui, siga em frente”, a mulher deverá corrigir seus planos conforme seja  necessário. A intuição não é para ser consultada uma vez e depois esquecida. Ela não é descartável. Ela deve ser consultada a cada passo do caminho, quer o trabalho da mulher seja o de enfrentar um demônio interior, quer seja o de completar alguma tarefa no mundo externo.
Examinemos agora a caveira com a luz incandescente. Ela é um símbolo de adoração dos ancestrais.

Em versões mais recentes de arqueologia religiosa da história, diz-se que as caveiras nas varas pertencem a seres humanos que a Yaga matou e  comeu. No entanto, nas religiões mais antigas que praticavam os ritos de afinidade com os ancestrais, os ossos eram reconhecidos como agentes para a invocação de espíritos, sendo a caveira a parte mais notável.
Nos ritos de afinidade com os ancestrais,  acredita-se que o conhecimento especial e atemporal dos velhos de uma comunidade esteja perpetuado nos seus próprios ossos após a morte. Considera-se que a caveira seja a cúpula que abriga um poderoso remanescente da alma que partiu… remanescente este que, se solicitado, pode invocar o espírito do falecido de volta para uma consulta. É fácil imaginar que o Self da alma habite exatamente a catedral óssea da testa, com os olhos como janelas, a boca como a porta e os ouvidos como os ventos.
Portanto, quando  a Yaga dá a Vasalisa uma caveira acesa, ela está lhe dando um ícone de velha, uma “ancestral sábia” que deverá carregar pelo resto da vida. Ela está iniciando Vasalisa no legado matrilinear do conhecimento, que permanece íntegro e vicejante nas grutas e desfiladeiros da psique.
Assim, lá vai Vasalisa pela floresta escura adentro com a caveira na vara. Ela perambulou um pouco para chegar até a Yaga mas agora volta para casa com maior segurança, maior certeza, com a postura ereta, voltada para a frente. Essa é a subida a partir da iniciação da intuição profunda. A intuição foi engastada em Vasalisa como uma pedra preciosa no centro de uma coroa. Quando a mulher chegou a esse ponto, ela conseguiu largar a proteção da sua própria mãe-boa-demais interior, aprendeu a esperar a adversidade no mundo externo e a lidar com ela num estilo forte em vez de complexo. Ela percebeu as características sombrias e inibidoras da sua própria madrasta e irmãs emprestadas, bem como a destruição que elas pretendem lançar sobre ela.
Ela conseguiu transpor as trevas ao ouvir sua voz interior e foi capaz de suportar o rosto da Megera, que é um aspecto da sua própria natureza, mas também da poderosa natureza da Mulher Selvagem. Ela está, portanto, capacitada para compreender poderes espantosos e conscientes, dela mesma e de outros. Nada mais de “mas estou com medo”.
Ela prestou serviços à Deusa Megera da psique, alimentou o relacionamento, purificou a  persona, manteve limpo o raciocínio. Ela conseguiu conhecer essa selvagem força feminina e seus hábitos. Aprendeu a discriminar, a separar o pensamento dos sentimentos. Aprendeu a reconhecer a imensa força selvagem na sua própria psique.
Ela aprendeu acerca da vida-morte-vida e do dom das mulheres sobre tudo isso. Com esse talento recém-adquirido da Yaga, ela não precisa mais sentir falta de confiança ou de potência. Tendo recebido o legado das mães  — a intuição do lado humano da sua natureza e um conhecimento selvagem do lado da psique ligado a La Que Sabe — ela está bem preparada. Segue adiante na vida, com os pés firmes, um atrás do outro, como uma mulher. Ela aglutinou todo o seu poder e agora vê o mundo e sua vida através desse novo enfoque. Vejamos o que acontece quando a mulher se comporta desse modo.

Mulheres Que Correm Com Lobos, de Clarissa Pínkola Estés

Foto: Temari 09

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