Um hino para o Homem Selvagem: Manawee

Se as mulheres querem que os homens as conheçam, que eles realmente as conheçam, elas têm de lhes ensinar algo do seu conhecimento profundo. Algumas mulheres dizem que estão cansadas, que já se esforçaram demais nessa área. Sugiro humildemente que elas estiveram tentando ensinar um homem sem vontade de aprender. A maioria dos homens quer saber, quer aprender. Quando os homens demonstram essa disposição, é a hora de fazer revelações; não apenas a esmo, mas porque mais uma alma perguntou.

Vocês verão que é assim. Seguem-se, portanto, alguns dos pontos que irão tornar mais fácil para um homem compreender, para que ele venha na direção da mulher. É uma linguagem, a nossa linguagem.
Não há dúvida quanto ao fato de o Homem Selvagem procurar sua noiva nas profundezas da terra. Em lendas comuns entre os celtas, existem os famosos casais de deuses selvagens que se amam mutuamente. Eles muitas vezes vivem no fundo de um lago, onde são protetores da vida oculta e do mundo oculto. Na mitologia da Babilônia, Inanna, a de coxas de cedro, chama seu amado, o Arado do Touro, “Venha me cobrir com seu ardor.” E mesmo nos tempos modernos, mesmo agora na região mais ao norte do Meio-Oeste, ainda se diz durante as tempestades que a Mãe e o Pai de Deus estão rolando da cama de molas, provocando o trovão.
Da mesma forma, não há ninguém que a Mulher Selvagem ame mais do que um parceiro que seja seu igual. No  entanto, talvez desde o início dos tempos, incessantemente aqueles que queriam ser seus parceiros não estão muito seguros de compreender a verdadeira natureza da mulher.

O que realmente deseja a mulher?
Essa é uma pergunta antiga, um enigma expressivo da natureza rebelde e misteriosa que todas as mulheres possuem. Embora a megera em “The Wife of Bath” resmungasse que a resposta dessa pergunta era a de que as mulheres desejavam soberania sobre suas próprias vidas, e isso seja na verdade um fato irrevogável, existe ainda uma outra verdade de igual vigor que também responde a essa pergunta.
Segue-se uma história que responde à questão antiqüíssima acerca da natureza da mulher. Aqueles que se empenharem do modo demonstrado na história serão amantes e companheiros da mulher selvagem para sempre.

A senhorita V. B. Washington me passou esta versão da lenda afro-americana chamada Manawee.

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Manawee

Era uma vez um homem que vinha cortejar duas irmãs gêmeas.
— Você não poderá se casar com elas a não ser que consiga adivinhar seus nomes — dizia, porém, o pai das moças.
Manawee tentava e tentava, mas não conseguia adivinhar os nomes das irmãs. O pai das moças abanava a cabeça e mandava Manawee embora todas as vezes.
Um dia Manawee levou seu cachorrinho junto numa visita de adivinhação, e o cachorro percebeu que uma irmã era mais bonita do que a outra e que a outra era mais delicada do que a primeira. Embora nenhuma das duas irmãs possuísse todas as virtudes, o cachorrinho gostou muito delas porque elas lhe deram petiscos e sorriram olhando fundo nos seus olhos.
Também naquele dia Manawee não conseguiu adivinhar os nomes das jovens e voltou irritado para casa. O cachorrinho, porém, voltou correndo para a choupana das irmãs. Ali ele enfiou a orelha por baixo de uma das paredes laterais e ouviu as moças dando risinhos e falando sobre como Manawee era bonito e másculo.
Enquanto falavam, as irmãs se chamavam mutuamente pelo nome, e o cachorrinho, tendo ouvido, voltou correndo com a maior velocidade possível para seu dono para lhe passar a informação.
No caminho, porém, um leão havia deixado um grande osso ainda com carne perto do caminho, e o minúsculo cachorrinho sentiu imediatamente o cheiro, não pensou em mais nada e se desviou mato adentro arrastando o osso. Ali, ele lambeu e mordiscou o osso com grande prazer até que todo o sabor desapareceu. Ah! O pequeno cãozinho de repente se lembrou da tarefa esquecida, mas infelizmente ele também havia esquecido os nomes das moças.
Por isso, ele correu de volta à choupana das gêmeas e dessa vez já era de noite e as jovens estavam passando óleo nos braços e pernas uma da outra e se arrumando como se fosse para uma festa. Mais uma vez o cãozinho as ouviu chamando-se mutuamente pelo nome. Ele deu pulos de alegria e  estava correndo pelo caminho afora na direção da choupana de Manawee quando do meio do mato veio o aroma de noz-moscada fresca.
Ora, não havia nada que o cachorrinho adorasse mais do que noz-moscada. Por isso, ele se desviou um pouco do caminho e correu para o lugar onde uma bela torta de laranjas estava esfriando em cima de uma tora. Bem, logo a torta já não existia mais, e o cachorrinho tinha um adorável hálito de noz-moscada. Enquanto trotava de volta para casa com a pança cheia, tentou pensar nos nomes das moças, mas, mais uma vez, ele os havia esquecido.
Finalmente, o cachorrinho tornou a voltar correndo até a choupana das irmãs, e dessa vez as irmãs estavam se preparando para se casar. “Ah, não!” pensou o cachorrinho, “quase não tenho mais tempo.” E,  quando as irmãs se chamaram pelo nome, ele guardou os nomes na mente e saiu em disparada, com a determinação resoluta e absoluta de que nada iria impedi-lo de transmitir os preciosos nomes a Manawee imediatamente.
O cãozinho vislumbrou caça pequena recém-morta no caminho, mas a ignorou e saltou por cima dela. Por um instante, pareceu-lhe sentir o aroma de noz-moscada no ar, mas ele o ignorou e preferiu continuar correndo na direção da sua casa e do seu dono. No entanto, ele não contava com a possibilidade  de um estranho de negro saltar do mato, agarrá-lo pelo pescoço e sacudi-lo ao ponto de seu rabo quase cair. Pois, foi o que aconteceu.
— Diga-me aqueles nomes! Diga-me os nomes das moças para que eu as possa
conquistar — gritava o estranho o tempo todo.
O cãozinho achou que ia desmaiar com aquele punho lhe apertando o pescoço, mas lutou com bravura. Ele rosnou, arranhou, esperneou e, afinal, mordeu o estranho entre os dedos. Os dentes do animal picavam como vespas. O estranho berrava como um búfalo-da-índia, mas o cãozinho não o soltava.

O estranho correu pelo mato adentro com o cãozinho pendurado numa das mãos.
— Solte-me, solte-me, cãozinho, e eu o soltarei  — implorou o estranho de negro.
— Não me volte por aqui — rosnou entre dentes o cãozinho — ou não verá mais a luz do dia. E assim o estranho fugiu pelo mato, gemendo enquanto corria.

O cachorrinho prosseguiu meio mancando, meio correndo, pelo caminho até encontrar
Manawee.
Muito embora seu pêlo estivesse sujo de sangue e suas mandíbulas doessem, os nomes das jovens estavam bem nítidos na sua mente, e ele se aproximou de Manawee, claudicante, mas feliz da vida. Manawee lavou os ferimentos do cãozinho, e este lhe contou toda a história assim como o nome das moças. Manawee correu de volta até a aldeia das moças com o cachorrinho nos ombros, e as orelhas do cachorro
dançavam ao vento como rabos de cavalos.
Quando Manawee chegou até o pai com os nomes das filhas, as gêmeas receberam Manawee completamente vestidas para viajar com ele. Elas haviam estado à sua e spera o tempo todo.

Foi assim que Manawee conquistou duas das donzelas mais belas da região. E todos os quatro, as irmãs, Manawee e o cãozinho, viveram juntos em paz por muito tempo.

Krik Krak Krout, now this story is out. Krik Krak Krun, now this story is done. 

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Ricky David

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