A sedução furtiva dos apetites

Não é por acaso que homens e mulheres se esforçam para descobrir o lado mais profundo da sua natureza e, no entanto, têm sua atenção desviada por inúmeras razões, em  sua maioria prazeres de diversos tipos. Alguns tornam-se dependentes dessas preferências e ficam para sempre enredados nelas, sem conseguir jamais continuar seu trabalho.

O cãozinho a princípio também é distraído pelo seu apetite. Os apetites são muitas vezes  forajidos pequenos e encantadores, ladrões, dedicados ao roubo do tempo e da libido.
Do  seu tempo e da  sua libido, Jung observou que é preciso impor algum controle aos apetites humanos. Se não, como podemos ver, iremos parar a cada osso que apareça na estrada, a cada torta esfriando numa tora.
Os pretendentes à procura dos nomes das dualidades podem, como o cachorro, perder sua determinação quando são tentados a sair do caminho. Isso pode ocorrer especialmente se eles próprios forem criaturas ferozes  ou esfaimadas. Além do mais, eles podem se esquecer do que os motivava a agir. Eles podem ser tentados/atacados por algum aspecto do seu próprio inconsciente que deseja se impor às mulheres para tirar vantagens, seduzir as mulheres para seu próprio prazer ou num esforço no sentido de acabar com uma sensação de vazio típica do caçador.
No caminho de volta ao dono, o cãozinho é distraído por um osso suculento e, com isso, esquece os nomes das jovens. Esse episódio retraía uma ocorrência muito comum no trabalho psíquico profundo: as distrações dos caprichos atrapalham o processo básico. Não se passa um mês em que eu não ouça de um analisando alguma das seguintes queixas: “Bem, desviei minha atenção do trabalho sério porque entrei numa fase de grande excitação sexual que levou sete dias para ser controlada”, “… ou “porque resolvi que esta semana era a época exata para dar uma podadinha em todas as minhas quinhentas plantas ornamentais” ou ainda “… porque entrei em sete novas iniciativas criativas, adorei o que estava fazendo e depois concluí que nenhuma delas realmente ia dar em nada e joguei tudo para o alto.”
Como se pode ver, o osso na estrada está à espera de todas nós. Ele tem aquele cheiro forte e apetitoso que um cachorro dificilmente ignoraria. Na pior das hipóteses, é provável que ele seja uma dependência preferida, alguma que já nos custou muito e que continua custando. No entanto, mesmo que já tenhamos fracassado repetidas vezes, precisamos tentar de novo, até que consigamos passar por ela e prosseguir com nosso trabalho principal.
O trabalho profundo é muito parecido com a excitação sexual. Ele começa do nada, vai se acelerando em platôs e atinge um estágio uniforme e intenso. Se os platôs forem interrompidos abruptamente (imaginemos um ruído forte e inesperado), teremos de começar tudo de novo. Existe uma tensão de excitação semelhante no trabalho com a camada arquetípica da psique. Se a tensão for interrompida, é preciso que se comece praticamente do nada. Portanto, há muitos ossos na estrada, ossos suculentos, belos, interessantes, irresistivelmente atraentes. De algum modo, porém, eles fazem com que soframos de uma espécie de amnésia, com que nos esqueçamos não só de onde estávamos no nosso trabalho mas também do que o trabalho tratava para começar.
Recomenda o Alcorão: “Sereis chamados a prestar contas de todos os prazeres permitidos na vida de que não tiverdes usufruído durante vossa estada na terra.” Não obstante, o prazer em excesso ou mesmo em quantidade ínfima na hora errada pode
provocar uma enorme perda de conscientização. Nesse caso, em vez de um grande afluxo de sabedoria, vagueamos por aí como um professor distraído, resmungando: “E agora, onde é que eu estava mesmo?”

Semanas, às vezes meses, são necessárias para que nos recuperemos dessas distrações.
Na história, o cachorro volta correndo até a choupana das irmãs, ouve novamente seus nomes e sai a toda velocidade mais uma vez. Esse cão tem o instinto certo para tentar e insistir em tentar. No entanto, ai, ai, lá está a torta de laranjas que o distrai, e ele mais uma vez esquece os nomes. Um outro aspecto do apetite dominou a criatura e voltou a afastá-lo da sua tarefa. Embora sua pança esteja satisfeita, o trabalho da alma não foi cumprido.
Começamos a compreender que esse processo de nos mantermos conscientes, e em especial de não ceder a apetites perturbadores enquanto tentamos realizar a conexão psíquica, é longo e que é difícil manter a fidelidade a ele. Vemos o astuto cãozinho dando o máximo de si. Mesmo assim, é longo o caminho desde o inconsciente profundo dos arquétipos até a mente consciente. É demorado o mergulho até os nomes lá no fundo, e demorada a volta até a superfície. Manter o conhecimento no consciente é difícil quando há armadilhas ao longo do caminho.
A torta de laranjas e o  osso representam seduções perturbadoras que são deliciosas a seu modo… em outras palavras, existem elementos na psique de todo mundo que são traiçoeiros, trapaceiros e maravilhosos. Esses elementos são inimigos da conscientização. Eles vicejam por manter  tudo oculto e excitante. Às vezes é difícil nos lembrarmos de que estamos aguardando a alegria da luz.
O cãozinho é quem traz a luz. Ele está tentando criar um vínculo consciente com a mística natureza dual. “Alguma coisa” tenta impedi-lo de cumprir essa missão, alguma coisa que não é visível, mas que sem a menor dúvida é quem coloca ossos no caminho e arranja tortas. Sem dúvida, deve ser o estranho sinistro, outra versão do predador natural da psique que se opõe à consciência. Em virtude da ocorrência natural desse oponente na psique das pessoas, até mesmo a mente mais saudável é suscetível a se desnortear. A lembrança da verdadeira tarefa e sua repetida recordação dentro de nós mesmas, no estilo de um mantra, nos devolverá a consciência.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Snugg

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