Desembaraçando o esqueleto

A história da Mulher-Esqueleto é uma dentre muitas histórias universais de “teste do pretendente”. Numa história desse tipo, os amantes precisam provar sua boa intenção e seu poder, demonstrando geralmente que têm os  cojones ou ovarios para encarar  alguma força numinosa mais poderosa e assustadora… Embora aqui a estejamos chamando de natureza da vida-morte-vida, outros poderiam chamá-la de um aspecto do Self ou de espírito do amor, e ainda outros, de Deus, de Grada, um espírito de energia, ou de uma infinidade de nomes.

O pescador demonstra sua boa intenção, sua força e seu envolvimento crescente com a Mulher-Esqueleto ao desemaranhá-la. Ele olha para ela toda dobrada para um lado e para o outro e vê nela um vislumbre de algo, ele nem sabe de quê. Ele havia fugido dela, ofegante e soluçante. Agora ele cogita tocar nela. Só por existir, ela de algum modo está tocando o coração do pescador. Quando compreendermos a solidão da natureza da vida-morte-vida, que é constantemente rejeitada, embora não por culpa sua… então talvez possamos nos sentir tocados pelo seu sofrimento.
Se for ao amor que estivermos nos dedicando, muito embora nos sintamos apreensivos ou assustados, estaremos dispostos a desembaraçar a linha dos ossos da natureza da morte. Estaremos  dispostos a ver como tudo isso vai funcionar junto. Estaremos dispostos a tocar o não-belo no outro e em nós mesmos. Oculto nesse desafio está um teste inteligente do Self. Ele se encontra em termos mais claros nos contos em que o belo assume a aparência de feio com o objetivo de pôr à prova a personalidade de alguém.
Na história “Diamantes, rubis e pérolas”, uma enteada bondosa, porém maltratada, puxa água do poço para um desconhecido rico e recebe a recompensa de verter diamantes, rubis e pérolas da boca, quando fala. A madrasta manda que suas filhas preguiçosas fiquem junto ao mesmo poço e atendam ao rico desconhecido.
Dessa vez, porém, aparece uma desconhecida esfarrapada. Quando ela implora por um caneco d’água, as filhas perversas se negam altivamente. A desconhecida as recompensa fazendo com que cobras, sapos e lagartos caiam das suas bocas para todo
o sempre.
Na justiça dos contos de fadas, assim como na psique profunda, a gentileza no trato com aquilo que pareça inferior é recompensada pelo bem, e a  recusa a fazer o bem a quem não é belo é censurada e castigada. O mesmo ocorre nos importantes estados emocionais, como no amor. Quando nos superamos para tocar o não-belo,somos recompensados. Quando desfazemos do não-belo, somos isolados da vida e deixados desamparados.
Para alguns, é mais fácil ter pensamentos mais elevados, mais belos e tocar aquilo que decididamente nos transcende do que tocar, ajudar e apoiar o que não é tão positivo. Ainda mais, como a história ilustra, é fácil rejeitar o não-belo e ainda ter uma sensação enganosa de correção. É esse o problema de amor no trato com a Mulher-Esqueleto.
O que é o não-belo? Nosso próprio anseio secreto de sermos amados é o não-belo. Desamar e mal-amar são o não-belo. Nossa negligência na lealdade e na devoção não é bela. Nossa sensação de isolamento da alma é sem graça. Nossas incompreensões, falhas e imperfeições psicológicas bem como nossas fantasias infantis são o não-belo. Além disso, a natureza da vida-morte-vida, que dá à luz, destrói, incuba e dá à luz novamente, é considerada nas nossas culturas o não-belo.
Desemaranhar a Mulher-Esqueleto é compreender esse erro conceitual e corrigi-lo. Desemaranhar a Mulher-Esqueleto é compreender que o amor não significa apenas velas tremeluzentes e plenitude. Desemaranhar a Mulher-Esqueleto significa que encontramos o entusiasmo em vez do medo nas trevas da regeneração. Significa um bálsamo para velhas feridas. Significa modificar nosso jeito de ver e de ser de modo a refletir a saúde da alma em vez da sua penúria.
Para amar, tocamos a mulher ossuda primitiva e não-tão-bela, decifrando para nós mesmos o sentido da natureza da vida-morte-vida, devolvendo-lhe o estado natural, permitindo que volte a viver. Não é suficiente puxar o inconsciente até a superfície; nem mesmo arrastá-lo por acaso até dentro de casa. Sentir medo ou desdém do inconsciente por muito tempo impede o avanço do amor.
Desemaranhar a Mulher-Esqueleto é começar a quebrar o encanto — ou seja, o medo de sermos consumidos, de morrermos para sempre. Em termos arquetípicos, desemaranhar algo é empreender uma descida, seguir por um labirinto, penetrar no mundo subterrâneo ou no lugar em que as coisas são reveladas de uma forma inteiramente nova, ser capaz de acompanhar um processo complexo. Nos contos de
fadas, soltar a faixa, desfazer o nó, desamarrar e desenredar representam começar a entender algo, a entender suas aplicações e usos, a se tornar um mago, uma alma sábia.
Quando o pescador solta a Mulher-Esqueleto, ele começa a ter conhecimento “prático” das articulações da vida e da morte. O esqueleto é uma excelente imagem para a natureza da vida-morte-vida. Como imagem psíquica, o esqueleto é composto de centenas de peças compridas e redondas, grandes e pequenas, de formato estranho, em permanente relação harmoniosa umas com as outras. Quando um osso gira, os restantes giram, mesmo que de modo imperceptível. Os ciclos da vida-morte-vida são exatamente assim. Quando a vida se movimenta, os ossos da morte também se movimentam em solidariedade. Quando a morte se movimenta, os ossos da vida também a seguem.
De modo semelhante, quando um ossinho minúsculo está deslocado, lascado, deformado, com luxação, ele afeia a integridade do todo. Quando a natureza da vida-morte-vida é reprimida numa pessoa ou num relacionamento, ocorre o mesmo. A vida segue claudicante, hesita, vacila, impede o movimento. Quando houve algum dano a essas estruturas e ciclos, sempre ocorre uma interrupção da libido. O amor deixa, então, de ser possível. Ficamos debaixo d’água; só ossos, rolando de um lado para o outro.
Decifrar a natureza da vida-morte-vida significa aprender seus movimentos, seus hábitos, seus enfraquecimentos. Significa aprender os ciclos da vida e da morte, guardá-los de cor para ver como funcionam juntos, para ver que todos formam um único organismo, da mesma forma que o esqueleto é um único organismo.
O medo é uma desculpa insuficiente para não realizar essa tarefa. Todos temos medo. O medo não é nenhuma novidade. Quem está vivo tem medo. Entre o povo inuit, o corvo é o  trickster. Em seu lado não desenvolvido, ele é uma criatura voltada para o apetite. Ele aprecia apenas o prazer e tenta evitar toda e qualquer incerteza assim como os temores gerados por ela. Ele é muito cauteloso e extremamente voraz, ao mesmo tempo. Se algo não lhe parecer satisfatório de imediato, ele sente medo. Se lhe parecer satisfatório, ele ataca.
O corvo gosta das belas conchas nacaradas, de contas de prata, de banquetes intermináveis, de mexericos e do sono aquecido sobre o buraco da chaminé. O ego-corvo é o pretendente que quer ” uma coisa certa”. O ego-corvo teme que a paixão termine. Ele tem medo e tenta evitar o fim da refeição, o fim do fogo, o fim do dia e o fim do prazer. Ele passa a agir com astúcia sempre prejudicando a si mesmo pois, quando se esquece da própria alma, ele perde seu poder.
O ego-corvo receia que, se admitirmos a natureza da vida-morte-vida nas nossas vidas, nunca mais seremos felizes. Afinal, será que esse tempo todo fomos assim tão perfeitamente felizes, hein? Não. Só que  o ego-corvo é muito simplório, como uma criança antes de ser socializada, e também uma criança não muito otimista. Ele é mais como uma criança que passa o tempo todo observando para ver qual é a fatia maior, qual cama é a mais macia, qual namorado é o mais bonito.
Três aspectos diferenciam a vida a partir da alma, da vida a partir do ego apenas. Eles são a capacidade de pressentir novos caminhos e de aprendê-los, a tenacidade necessária para atravessar uma fase difícil e a paciência para aprender o amor profundo com o tempo. O ego-corvo, no entanto, tem uma queda e uma predisposição para evitar o aprendizado. A paciência não é o forte do ego. Nem o relacionamento duradouro. Portanto, não é a partir do ego inconstante que amamos o outro, mas, sim, do fundo da alma selvagem.
Uma paciência desenfreada, como coloca a poeta Adrienne Rich,  é imprescindível para desemaranhar ossos, para aprender o significado da Morte, para ter a tenacidade de ficar com ela. Seria um erro pensar que é necessário um herói musculoso para conseguir isso. Não é, não. É preciso um coração disposto a morrer, renascer, morrer e renascer repetidamente.
O ato de desenredar a Mulher-Esqueleto revela que ela é antiqüíssima, anterior à história. É ela quem compara o peso da energia com o da distância, o do tempo com o da libido, o do ânimo com o da sobrevivência. Ela medita, ela examina, ela considera e depois age a fim de investi-lo com uma centelha ou duas, ou com uma chama repentina de fogo grego. Ou ainda ela o abafa, soca ou o extingue totalmente. Ela sabe o que é preciso. Ela sabe quando chegou a hora.
Na tarefa de desembaraçá-la, adquirimos a capacidade de pressentir o que virá depois, de compreender melhor como se relacionam todos os aspectos da psique da natureza, como podemos participar. Desembaraçá-la é conquistar um conhecimento articulado do próprio self e do outro. Significa reforçar nossa capacidade para acompanhar as fases, os projetos, as eras de incubação, nascimento e transformação em paz e com a maior graça possível.
Portanto, nesse sentido, um parceiro que de início foi muito ingênuo acerca do amor vai ficando muito melhor sob esse aspecto por ter observado essa Mulher-Esqueleto e por ter arrumado seus ossos. À medida que se começa a avaliar os padrões da vida-morte-vida, podem-se prever os ciclos do relacionamento em termos do excesso seguindo-se à falta, e do desgaste seguindo-se à abundância.
Uma pessoa que tenha desembaraçado a Mulher-Esqueleto conhece a paciência, sabe esperar melhor. Ela não se choca com a escassez, nem tem medo dela. Não é dominada pela fruição. Suas necessidades de obter, de “conseguir agora mesmo”, são transformadas num talento mais refinado que procura todas as facetas do relacionamento, que observa como funcionam em conjunto os ciclos do relacionamento. Ela não tem medo de se relacionar com a beleza da ferocidade, com a beleza do desconhecido, com a beleza do não-belo. E ao aprender e praticar tudo isso, essa pessoa se torna o perfeito parceiro selvagem.
Como um homem aprende essas coisas? Como qualquer um consegue aprendê-las? Basta entrar em diálogo direto com a natureza da vida-morte-vida, prestando atenção à voz interna que não é a do ego. Aprenda perguntando à natureza da vida-morte-vida perguntas incisivas sobre o amor e sobre amar; e depois ouça as respostas com atenção. Com isso tudo, aprendemos a não nos deixar levar pela voz irritante que nos diz do fundo da mente: “Isso é uma tolice… Eu é que estou inventando essas coisas.” Aprendemos a ignorar essa voz e a dar atenção ao que se ouve por trás dela. Aprendemos a seguir o que ouvimos  — tudo aquilo que nos aproxima de uma percepção mais aguçada, do amor de devoção e de uma visão nítida da alma.
É bom adotar a prática diária de meditar sobre a repetição do ato de desenredar a natureza da vida-morte-vida. O pescador entoa uma pequena canção de um único verso, que repete para ajudar na tarefa de desembaraçar a linha. Trata-se de uma canção para propiciar a percepção, para auxiliar na soltura da natureza da Mulher-Esqueleto. Não sabemos o que ele está cantando. Só podemos tentar adivinhar. Quando estivermos soltando essa natureza, seria bom que cantássemos algo mais ou menos assim: Ao que eu preciso dar mais morte hoje, para gerar mais vida? O que eu sei que precisa morrer mas hesito em permitir que isso ocorra? O que precisa morrer em mim para que eu possa amar? Qual é a não-beleza que eu temo? Que utilidade pode ter para mim hoje o poder do não-belo? O que deveria morrer hoje? O que deveria viver? Qual vida tenho medo de dar à luz? Se não for agora, quando?  

Se entoarmos a canção da consciência até sentirmos o ardor da verdade, estaremos lançando uma labareda para dentro das trevas da psique de modo a poder ver o que estamos fazendo… o que realmente estamos fazendo, não o que queremos pensar que estamos fazendo. É assim que se desenredam nossos sentimentos e tem início a compreensão dos motivos pêlos quais o amor e a vida devem ser vividos a partir dos ossos.
Para encarar a Mulher-Esqueleto, ninguém precisa assumir o papel do heroi intergaláctico, entrar em conflito armado, nem mesmo arriscar a vida na selva. Basta que se queira desemaranhá-la. Esse poder do conhecimento da natureza da vida-morte-vida aguarda os amantes que superam a fuga, que se esforçam para ultrapassar o desejo de se sentir em segurança.
Os antigos que procuravam esse conhecimento da vida e da morte chamavam-no de Pérola de Grande Valor, de Tesouro Inimitável. Segurar os fios desses mistérios e desembaraçá-los gera um poderoso conhecimento do Destino e do Tempo, tempo para todas as  coisas, todas as coisas a seu tempo, rolando no áspero, deslizando no
liso. Para o amor não há conhecimento mais revigorante, mais benéfico, mais protetor do que esse.
É isso o que aguarda o amante que se sentar diante do fogo com a Mulher-Esqueleto, que a  contemplar e permitir que seu sentimento por ela surja. É o que aguarda aqueles que se dispuserem a tocar o não-belo nela e que se dispuserem a soltar sua natureza da vida-morte-vida com carinho.

Mulheres Que Correm Com Lobos, de Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Dimitrij

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