O sono da confiança

Nesse estágio do relacionamento, o amante volta ao estado de inocência, estado no qual ele ainda se amedronta com os elementos emocionais, no qual ele está cheio de desejos, esperanças e sonhos. A inocência é diferente da ingenuidade. No interior existe um antigo ditado: “A ignorância é não saber nada e ser atraído pelo bem. A inocência é saber tudo e ainda assim ser atraído pelo bem.”

Vejamos até onde chegamos. O pescador-caçador trouxe a natureza da vida-morte-vida para a superfície. Contra sua própria vontade, ele foi “perseguido” por ela; mas ele também conseguiu encará-la. Sentiu pena do seu estado emaranhado e a tocou. Tudo isso o leva a uma participação plena. Tudo isso o leva a uma transformação, ao amor.
Embora a imagem do sono possa indicar o inconsciente, nesse caso ele simboliza a criação e a renovação. O sono é o símbolo do renascimento. Nos mitos da criação, as almas adormecem enquanto se realiza uma transformação de uma duração determinada, pois no sono nós nos recriamos, nos renovamos.

…sono que deslinda a meada enredada das preocupações, [o sono é] o banho reparador do trabalho doloroso, [o] bálsamo das almas feridas, o segundo prato na mesa da grande Natureza, o principal alimento do festim da vida.
— Shakespeare, Macbeth, II, ii, 36

Se tivéssemos a possibilidade de ver a pessoa viva mais calejada, a mais cruel e impiedosa, durante o sono ou no instante em que acorda, veríamos essa pessoa por um momento como o espírito não-conspurcado, a pura inocência. No sono, somos devolvidos mais uma vez a um estado de doçura. No sono, nos refazemos. Somos recriados de dentro para fora, novos em folha como inocentes.
Esse estado de sábia inocência é alcançado quando descartamos o cinismo e as atitudes defensivas e voltamos a mergulhar no estado de deslumbramento que vemos na maioria dos seres humanos que são muito jovens e em muitos que são bem velhos.

É a prática de se olhar com os olhos de um espírito sábio e amoroso, em vez de olhar com os do cão açoitado, da criatura acuada, da boca acima do estômago, do ser humano ferido e irritado. A  inocência é um estado que se renova quando dormimos. Infelizmente, são muitos os que a deixam de lado junto à colcha ao acordar. Seria melhor se sempre trouxéssemos conosco uma inocência alerta e a apertássemos junto ao corpo para sentir seu calor.
Embora  a princípio a volta a esse estado possa exigir que eliminemos anos de pontos de vista desgastados, décadas de meticulosa construção de amuradas desumanas, uma vez que voltemos a ele, nunca mais precisaremos indagar por ele, escavar à sua procura. Voltar a  uma inocência alerta não exige tanto esforço, como o de mover um monte de tijolos de um lugar para o outro, mas, sim, que fiquemos parados o tempo suficiente para que o espírito nos encontre. Diz-se que tudo que procuramos também está à nossa procura; que, se ficarmos bem quietos, o que procuramos nos encontrará. Ele está esperando por nós há muito tempo. Depois que ele aparecer, não devemos fugir. Descansemos. Vejamos o que acontece em seguida.
É esse o jeito de se aproximar da natureza da morte, não com  astúcia e esperteza, mas com a confiança do espírito. O termo  inocente é muitas vezes usado para indicar uma pessoa sem conhecimento, um simplório. No entanto, a origem da palavra significa inocente de dano ou de lesão. Em espanhol, a palavra  inocente descreve uma pessoa que tenta não prejudicar o outro, mas que  também é capaz de curar qualquer lesão ou dano causado a si mesma.
La Inocenta é com freqüência o nome dado a uma curandera, uma benzedeira, a que cura os outros de lesões ou danos. Ser inocente significa ser capaz de ver com nitidez qual é o problema e corrigi-lo. Essas são as poderosas imagens por trás da inocência. Ela é considerada não só uma atitude de evitar o dano aos outros ou ao próprio self, mas também a capacidade de curar e recuperar a si  mesma (e aos outros). Pense nisso. Imagine as vantagens para todos os ciclos do amor.
Através da imagem do sono inocente, o pescador confia o suficiente na natureza da vida-morte-vida para repousar e se revitalizar na sua presença. Ele está entrando numa  transição que o levará a um conhecimento mais profundo, a um estágio superior de maturidade. Quando os amantes entram nesse estado, eles estão se entregando às forças interiores, àquelas que possuem confiança, fé e o profundo poder da inocência. Nesse sono  espiritual, o amante confia que as tarefas da sua alma serão realizadas nele, que tudo será como deve ser. Ele dorme o sono dos sábios, em vez do sono dos prudentes.
Existe uma prudência que é verdadeira, quando o perigo está por perto, e uma prudência que não tem justificativa e que se origina de algum ferimento anterior. Esta última faz com que os homens ajam de modo irritadiço e desinteressado mesmo quando eles sentem que gostariam de demonstrar carinho e afeto. As pessoas que têm medo de “ser ludibriadas” ou de “entrar num beco sem saída” — ou que não param de vociferar seus direitos de querer “ser livre” — são as que deixam o ouro escapar por entre os dedos.
Muitas vezes ouvi um homem dizer que tem “uma boa mulher”, que está interessada nele e ele, nela; mas que ele simplesmente não consegue “se soltar” o suficiente para saber o que realmente sente por ela. O momento crítico para uma pessoa desse tipo ocorre quando ela se permite amar “apesar de”… apesar de ter suas angústias, apesar de ficar nervoso, apesar de ter sido ferido anteriormente, apesar de temer o desconhecido.
Às vezes não existem palavras que estimulem a coragem. Às vezes é preciso simplesmente mergulhar. Tem de haver em algum ponto da vida de um homem um período em que ele confie na direção que o amor o levar, em que ele tenha mais medo  de ficar confinado a algum leito rachado do rio seco da psique do que de estar solto num território exuberante porém inexplorado. Quando uma vida é excessivamente controlada, cada vez há menos vida a controlar.
Nesse estágio de inocência, o pescador volta a ser uma alma criança, pois no seu sono ele está ileso e não existe a recordação do que aconteceu ontem ou antes. No seu sono, ele não está lutando para assumir algum lugar ou posição. No sono, ele se renova.
Dentro da psique masculina, há uma criatura, um homem incólume, que acredita no bem, que não tem dúvidas acerca da vida, que não só é sábio, mas também não tem medo de morrer. Alguns a identificariam como o self guerreiro, mas não se trata disso. É um  self do espírito, e de um espírito jovem ainda por cima, que continua a amar independente de ter sido atormentado, ferido e exilado, porque a seu próprio modo ele cura a si mesmo, recupera a si mesmo.
As mulheres podem testemunhar ter visto essa criatura o culta num homem fora dos limites da sua própria percepção. A capacidade desse espírito jovem de fazer com que o poder da cura atue na sua própria psique é tamanha que chega a estarrecer. Sua confiança não depende de que sua parceira não o magoe. Ela é uma confiança na possibilidade da cura de qualquer ferimento que ele sofra, uma confiança na vida nova que se segue à antiga. Uma confiança na existência de um significado mais profundo em todas essas coisas, em que acontecimentos aparentemente ínfimos não são desprovidos de significado, em que todos os aspectos da vida  — os ásperos, os .recortados, os alegres e os sublimes  —, todos podem ser aproveitados como energia da vida.
É também preciso que se diga que às vezes, à medida que o homem vai ficando mais livre e mais próximo da Mulher-Esqueleto, sua parceira passa a ter mais medo e tem de se esforçar por si mesma no que diz respeito a decifrar e observar o sono que devolve a inocência e a aprender a confiar na natureza da vida-morte-vida. Quando os dois parceiros estiverem bem iniciados, juntos eles terão o poder de amenizar qualquer sofrimento, de sobreviver a qualquer dor.
Pode ocorrer que uma pessoa tenha medo de “adormecer” na presença do outro, medo de voltar a uma inocência psíquica ou de que o outro tire alguma vantagem dela. Essas pessoas projetam sobre o outro todos os tipos de motivações e simplesmente não confiam em si mesmas. No entanto, não é dos seus parceiros que desconfiam. É que eles ainda não se acertaram com a natureza da vida-morte-vida. É na natureza da morte que eles precisam confiar. Como no sono, a natureza da vida-morte-vida na sua forma mais primitiva é tão simples quanto uma delicada expiração (um término) e inspiração (um início). A única confiança necessária é a de saber que, quando ocorre um final, vai surgir um novo começo.
Para conseguir isso, se tivermos sorte, somos vencidos e nos entregamos à influência da confiança. O método mais precipitado consiste em nos lançarmos num estado mental confiante  — forçando-nos a eliminar todas as condições, todas as restrições. No entanto, geralmente não faz sentido esperar até que nos sintamos fortes o suficiente para confiar, porque esse dia não vai chegar nunca. Por isso, assumimos o risco de acreditar estar errado o que nos foi ensinado acerca da natureza da vida-morte-vida, e de que nossos instintos estão certos.
Para que o amor viceje, o parceiro precisa confiar que o que vier a ser será de natureza transformadora. Ele deve se permitir entrar naquele estado de sono que nos devolve a uma sábia inocência, que cria e recria, como seria de esperar, as espirais mais profundas da experiência da vida-morte-vida.

Mulheres Que Correm Com Lobos, p. 115.

Foto: Flyzipper

9 comentários sobre “O sono da confiança

  1. Estou quebrando a cabeça para entender o que vc coloca neste blog. Nem sei direito mais como vim parar aqui. Acho que comecei com um pesquisa sobre o sifnificado da palavra decoração, cor, espectro, luz, energia…ah! Parei no seu post sobre as cores, e terminei no adulto indigo, que me intrigou demais.
    Preciso entender o que vc faz…

  2. Tudo?
    Falo dos chakras, da figura indiana, dessa filosofia de vida que tem feito sentido para mim ultimamente. Não gostei (ou gostei?), de me identificar COMPLETAMENTE com os índigos. Estou na minha 4º psicóloga, e só nesta que eu tenho agora consegui maturidade psicológica. Ainda posso ouvir a voz da primeira ecoar na minha cabeça “Lilian! Você não vai mudar o mundo!”. Mas eu sempre achei que poderia, e continuo tentando transformar tudo que está a minha volta. As imagens passeiam na minha cabeça, as cores parecem ter um sentido diferente para mim, e luto contra as crises de ansiedade (psicossomática), gastrite, e os pensamentos que entram o tempo todo na minha cabeça, e que eu tento organizar.
    Mas tudo isso é bem difícil para mim, tendo em vista que tenho uma mãe fanática pela igreja evangélica dela, cuja a doutrina é castradora. Por muito tempo me tirou a delícia da arte, e influenciou a minha mãe nas torturas físicas e psicológicas.
    Essa mãe internalizada, e o ceticismo que eu carrego, me deixam sempre em dúvida,,,

    1. Oi Lílian! Que delícia as suas dúvidas, desculpe-me por comentar…significa que vc está VIVA e busca mesmo um mundo melhor, o que também acontece comigo e com muitas outras pessoas, que me induzem a escrever e a postar artigos interessantes neste meu Blog quase todos os dias dessa minha vida maravilhosa. A gente não muda o Mundo, mas muda a gente mesmo…muda o nosso olhar sobre o mundo. E isso faz com que o nosso mundo mude, concorda? Sorry pelo “jargão”, mas é bem por aí mesmo…o importante é a paz que conseguimos a partir do reconhecimento daquilo que queremos ser e do mundo em que queremos viver.
      Me diga, please…vc já estuda a Lei da Atração? Vc quer mudar essa “dificuldade”que vc encontra em entender esses assuntos? O que vc gostaria de ser/fazer?
      Talvez eu possa te sugerir alguma coisa, quem sabe…sem querer interferir muito nas suas escolhas, mas quem sabe?
      Mil beijos e obrigada pela confiança 😉

  3. Ainda não sei o que é lei da atração.
    Esses assuntos começaram a pernear na minha cabeça depois que eu comecei a fazer análise, o que me possibilitou um organização de um grau de consciência que eu pareço ter desde que era pequena, mas estava imaturo. Os simbolismos, a percepção que eu adquiri, e principalmente a sensação de sempre saber o que realmente uma pessoa está pensando desde que e olhe dentro dos seus olhos… procuro alguma coisa que “case” com psiquismo, é o que está fazendo sentido para mim agora. A crença por si só, para mim é meio difícil.
    Quando li o post das cores já sabia que envolvia metafísica.

  4. Oi Lílian.
    Você pode pesquisar no meu Blog as categorias “Abraham” e “Pensamentos para a Alma” que irá encontrar muita coisa sobre a Lei da Atração. Talvez seja isso que vc esteja procurando, sabe?
    Se vc se interessar pelo assunto, poderei enviar-te um livro (em pdf) por email sobre a Lei da Atração, ok?
    Me avise se achar que te interessa.
    Beijos e muita Luz em sua jornada!

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