A MÃE FORTE, A PROLE FORTE

O remédio está em obter cuidados de mãe para nossa própria mãe interna. Isso se obtém com mulheres reais no mundo objetivo que sejam mais velhas, mais sábias e que, de preferência, tenham sido temperadas como o aço. Elas se tornaram calejadas por terem passado por tudo o que passaram. Independente do custo, mesmo agora, seus olhos  vêem, seus ouvidos  ouvem, suas línguas  falam, e elas são gentis.

Mesmo que tivéssemos a mãe mais maravilhosa do mundo, ainda poderíamos acabar tendo mais de uma. Como muitas vezes disse às minhas filhas: “vocês nasceram de uma mãe mas, se tiverem sorte, terão mais de uma. E entre todas elas encontrarão quase tudo que precisarem”. Nossos relacionamentos com  las todas madres, as muitas mães, serão com maior probabilidade relacionamentos permanentes, pois nunca passamos da idade de necessitar de orientação e conselho, e  isso também não deveria ocorrer, a partir do ponto de vista da profunda vida criativa das mulheres.
Os relacionamentos entre mulheres, sejam elas da mesma família de sangue ou almas gêmeas, seja o relacionamento entre analista e analisando, entre mestre e aprendiz, ou entre espíritos afins, são todos relacionamentos de afinidade da maior importância.
Embora alguns dos teóricos da psicologia dos nossos tempos alardeiem o abandono do modelo total da mãe como um golpe que, se não for realizado, irá nos prejudicar para sempre e embora haja quem diga que a difamação  da própria mãe é positiva para a saúde mental do indivíduo, na realidade a imagem e o conceito da mãe selvagem não podem e não devem jamais ser abandonados. Pois, se o forem, a mulher estará abandonando sua própria natureza profunda, a que detém todo o conhecimento, todos os sacos de sementes, todas as agulhas de espinheiro para os remendos, todos os remédios para o trabalho e o descanso, para o amor e a esperança.
Em vez de nos desapegarmos da mãe, estamos procurando uma mãe selvagem.
Não vivemos e não podemos viver separadas dela. Nosso relacionamento com essa mãe da alma deve girar sempre, mudar, transformar-se; e ele é um paradoxo. Essa mãe é a escola na qual nascemos, a escola na qual aprendemos, a escola na qual ensinamos, tudo ao mesmo tempo e pelo resto das nossas vidas. Quer tenhamos filhos, quer não, quer cuidemos do jardim, das ciências, das tormentas da poética, sempre nos depararemos com a mãe selvagem em nosso caminho para qualquer lugar. E é assim que deve ser.
Mas o que dizer da mulher que realmente passou por uma experiência com uma mãe destrutiva na própria infância? É claro que esse período não pode ser apagado, mas ele pode ser atenuado. Ele pode não ser suavizado, mas pode agora ser reconstruído com firmeza e da forma correta. Não é a reconstrução da mãe interna que é tão assustadora para tantas mulheres, mas, sim, o medo de que algo de essencial tenha morrido naquele período, algo que nunca mais possa ser ressuscitado, algo que não recebeu alimento e proteção, pois em termos psíquicos era  a nossa própria mãe que morreu. Para vocês, eu digo, tranqüilizem-se, vocês não estão mortas, vocês não sofreram danos letais.
Como na natureza, a alma e o espírito têm recursos espantosos. À semelhança dos lobos e de outras criaturas, a alma e o espírito  conseguem sobreviver com muito pouco e, às vezes, passam muito tempo sem nenhum alimento. Para mim, esse é o milagre dos milagres.

Uma vez eu estava transplantando uma cerca-viva de lilases. Um enorme arbusto havia morrido de causa desconhecida, mas os restantes estavam cobertos de roxo na primavera. O pé morto rachou e se esfarelou como pé-de-moleque quando o desenterrei. Descobri que suas raízes estavam ligadas a todos os outros lilases vivos na cerca.
O que me espantou ainda mais foi o fato de a planta morta ser a “mãe”. Eram dela as raízes mais grossas e mais velhas. Todos os seus filhotões estavam muito bem embora ela própria estivesse  botas arriba, como que de canelas esticadas. Os lilases se reproduzem por meio do que se chama de sistema de rebentões, de modo que cada pé provém de um rebento da raiz da planta mãe. Com esse sistema, mesmo que a mãe fraqueje, o rebento pode sobreviver. É esse o modelo psíquico e a esperança para aquelas que tiveram pouco ou nenhum cuidado materno, bem como para as que sofreram cuidados torturantes. Muito embora a mãe de certo modo esteja acabada, muito embora ela não tenha mais nada a oferecer, os rebentos irão sei desenvolver, crescer independentes, e ainda vicejar.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: Njtrout_2000

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