As más companhias

O patinho feio vai de um lado a outro à procura de um lugar onde possa repousar. Apesar de não estar plenamente desenvolvido seu instinto para detectar exatamente onde ir, o instinto de vaguear até encontrar o que ele precisa está em perfeito funcionamento. No entanto, ocorre às vezes uma  espécie de patologia na síndrome do patinho feio. Continuamos batendo nas portas erradas mesmo depois de más experiências. É difícil imaginar como se poderia esperar que uma pessoa soubesse quais portas são as certas se ela, para começar, nunca chegou a saber o que é uma porta certa. No entanto, as portas erradas são aquelas que fazem com que voltemos a nos sentir proscritos.

Essa reação ao isolamento é a do tipo “procura do amor em todos os lugares errados”. Quando a mulher se volta para um comportamento repetitivamente compulsivo — reencenando um comportamento frustrante, que provoca a decadência em vez de uma vitalidade permanente — com o objetivo de abrandar seu isolamento, ela na realidade está causando mal ainda maior porque a ferida original não está sendo tratada e a cada incursão ela ganha novas feridas.
Essa atitude se assemelha à de pingar algum remedinho no nariz quando se tem um talho aberto no braço. Mulheres diferentes escolhem tipos diferentes de “remédio errado”. Algumas optam pelo que é obviamente inadequado, como as más companhias, os excessos nos prazeres que são prejudiciais e destrutivos da alma, e tudo que primeiro a incentiva e a coloca lá no alto para depois atirá-la no rés-do-chão.
Existem diversas soluções para essas más escolhas. Se  a mulher conseguisse parar para examinar seu próprio coração, ela veria nele uma necessidade de que suas habilidades, seus dons e suas limitações fossem respeitosamente reconhecidos e aceitos. Portanto, para começar a cura, pare de se iludir com a idéia de que um pequeno paliativo irá consertar uma perna quebrada. Seja franco frente às suas feridas, e assim terá uma imagem correta do remédio necessário. Não jogue no vazio o que for mais fácil ou estiver mais disponível. Faça questão do medicamento adequado. Você o reconhecerá porque ele irá fortalecer sua vida, em vez de enfraquecê-la.

A aparência indevida

Como o patinho feio, o intruso aprende a evitar situações em que possa agir certo mas mesmo assim dar a impressão errada. O patinho, por exemplo, sabe nadar bem, mas não tem a aparência devida. Por outro lado, a mulher pode ter a aparência perfeita e não conseguir agir corretamente. Existem muitos ditados sobre pessoas que não conseguem (e que no fundo não querem) esconder o que são, desde um muito conhecido no leste do Texas “você pode vesti-las com esmero, mas não pode sair com elas” até um espanhol “ela era uma mulher com uma plumagem negra por baixo da saia”.”
Na história, o patinho começa agir como um  dumm-ling, um pateta, aquele que não consegue fazer nada certo… ele joga poeira na manteiga e cai no barril de farinha, mas não antes de mergulhar primeiro no latão de leite. Todas nós já passamos por isso. Não conseguimos fazer nada certo. Tentamos melhorar. Em vez disso, pioramos. Não era para o patinho ter entrado naquela casa. Mas isso acontece quando se está desesperado. Vai-se ao lugar errado em busca da coisa errada. Como dizia uma querida amiga minha já falecida, “não se pode tirar leite na casa do carneiro”.
Embora seja útil abrir canais até mesmo para aqueles grupos aos quais não pertencemos e seja importante tentar ser gentil, é também imperioso não nos esforçarmos demais, não acreditar demais que se agirmos corretamente, se conseguirmos conter todos os impulsos e contrações da  criatura selvagem, poderemos realmente passar por damas educadas, recatadas, contidas e reprimidas.
É esse tipo de atitude, aquele tipo de desejo do ego de integrar-se a todo custo, que destrói o vínculo com a Mulher Selvagem na psique. E então, em vez de uma mulher vital, temos uma mulher simpática, a quem foram arrancadas as garras. Temos, então, uma mulher bem-comportada, com boas intenções, nervosa, ofegante no anseio de ser boa. Não, é melhor, mais elegante e muito mais profundo ser o que somos e como somos, deixando que os outros também o sejam.

Sentimentos congelados, criatividade congelada

As mulheres lidam com o isolamento de outras formas. Como o patinho que fica preso no gelo do lago, elas se congelam. O congelamento é a pior atitude que uma pessoa pode tomar. A frieza é o beijo da morte para a criatividade, para os relacionamentos, para a própria vida. Algumas mulheres agem como se conseguir ser fria fosse um grande feito. Não é. É um ato de ira defensiva.
Na psicologia arquetípica, estar frio representa  não ter sentimentos. Há histórias da criança congelada, da criança que não conseguia sentir, dos corpos presos no gelo, durante um período em que nada podia se mexer, nada podia se transformar, nada podia nascer. Um ser humano congelado significa que ele está propositalmente sem sentimentos, em especial para consigo mesmo, mas também e às vezes ainda mais para com os outros. Embora esse seja um mecanismo de autoproteção, ele prejudica a psique-alma, porque a alma não reage ao gelo, mas ao calor. Uma atitude  gélida apagará o fogo criativo da mulher. Ela inibirá a função criativa.
É esse um problema grave, mas a história nos dá uma idéia. O gelo precisa ser quebrado, e a alma, retirada do congelamento.
Quando os escritores, por exemplo, se sentem secos, áridos, sem vida, eles sabem que o jeito para voltar à fertilidade reside em escrever. No entanto, se eles estiverem presos no gelo, não conseguirão escrever. Há pintores que estão ansiosos por pintar, mas dizem a si mesmos, “larga disso. Seus quadros são estranhos e feios”.
Existem muitos artistas que ainda não firmaram sua posição e outros que são veteranos de guerra no desenvolvimento da sua vida criativa, e mesmo assim cada vez que eles pegam da pena, do pincel, das fitas, do roteiro, eles ouvem, “você só causa problemas. Seu trabalho é marginal ou totalmente inaceitável porque você mesmo é marginal e inaceitável.”
Portanto, qual é a solução? Aja como o patinho. Siga em frente, supere tudo com a luta. Apanhe logo a caneta, comece a escrever e pare de resmungar. Escreva.
Pegue o pincel e, para variar, seja má consigo mesma: pinte. Bailarina, vista sua malha, amarre fitas no cabelo, na cintura ou nos tornozelos e diga ao corpo que se mexa. Dance. Atriz, dramaturga, poeta, musicista ou qualquer outra. Em geral, pare de falar. Não pronuncie mais uma palavra sequer, a não ser que você seja cantora.
Tranque-se num quarto com teto ou numa clareira sob os céus. Exerça sua arte. Sabe-se que o que está em movimento não se congela. Por isso, mexa-se. Vá em frente.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: ObertoMaydelis

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