O estranho que passava

Embora na história o lavrador que leva o pato para casa pareça ser um recurso literário para promover a história, em vez de um  leitmotiv arquetípico sobre o exílio, creio ser valiosa uma reflexão sobre esse ponto. A pessoa que talvez pudesse nos tirar do gelo, que talvez até mesmo nos libertasse em termos psíquicos da nossa insensibilidade, não vai necessariamente ser aquela a cujo grupo pertencemos. Pode ocorrer, como na história, mais um daqueles acontecimentos mágicos porém efêmeros que surgem quando menos esperamos, um ato de gentileza de um estranho que passava.

É mais um exemplo de alimentação da psique que ocorre quando estamos numa situação-limite que não podemos mais suportar. É nessa hora que algum sustento aparece do nada para  nos ajudar e depois desaparece noite adentro, deixando-nos perplexas. Teria sido uma pessoa ou um espírito. Talvez tenha sido um repentino acesso de sorte que traz à nossa porte algo muito necessário. Poderia ser algo tão simples quanto uma trégua, um alívio na pressão, um curto período de repouso.
Não estamos falando agora de contos de fadas, mas, sim, da vida real.
Qualquer que seja, é um tempo em que o espírito, de um modo ou de outro, nos sustenta, nos puxa do fundo, nos mostra a passagem secreta, o esconderijo, o meio de escapar. E essa chegada quando estamos por baixo e nos sentimos numa tempestade sombria ou numa calmaria sinistra é o que nos empurra pelo canal que leva ao próximo passo, à próxima fase no aprendizado de ganhar força no isolamento.

O isolamento como dádiva

Se você tentou se adaptar a qualquer tipo de forma e não conseguiu, talvez você tenha muita sorte. É verdade que você pode ser um exilado de alguma espécie, mas sua alma está abrigada. Ocorre um estranho fenômeno quando a pessoa tenta se adequar e não consegue. Muito embora a criatura diferente seja rejeitada, ela ao mesmo tempo é empurrada para os braços dos seus verdadeiros companheiros psíquicos, quer se trate de um linha de estudo, de uma forma de arte, quer de um grupo de pessoas. É pior ficar ali onde não nos sentimos bem do que vaguear perdida por um período em busca da afinidade psíquica e profunda de que precisamos. Nunca é errado ir à procura do que necessitamos. Nunca mesmo.
Há algo de útil em toda essa torção e tensão. Algo no patinho está sendo temperado, está sendo reforçado por esse isolamento. Embora essa situação não seja algo que se deseje a ninguém por nenhum motivo, seu efeito é semelhante ao da produção de diamantes pela pressão aplicada ao carbono puro — ela acaba  levando a uma profunda amplidão e clareza na psique.
Existe um aspecto da alquimia no qual a substância bruta do chumbo é golpeada e martelada. Embora o isolamento não seja algo que se deseje por ser divertido, provém dele um ganho inesperado. As dádivas  do isolamento são inúmeras. Ele elimina a fraqueza com os golpes. Ele erradica as lamentações, proporciona um insight penetrante, aguça a intuição, assegura o poder incisivo de observação e de visão de perspectiva jamais alcançados pelas pessoas “aceitas”.
Apesar de ter seus aspectos negativos, a psique selvagem consegue resistir ao isolamento. Ele faz com que tenhamos um anseio ainda maior no sentido de liberar nossa própria natureza verdadeira, e provoca em nós um desejo intenso por uma cultura que combine com essa natureza. Só esse anseio, esse desejo já faz a pessoa prosseguir. Ele faz com que a mulher continue a procurar. E, se não consegue
encontrar a cultura que a estimule, geralmente ela resolve criar, ela mesma, essa cultura. Isso é bom, pois, se ela a criar, outras que vinham procurando há muito tempo chegarão misteriosamente um dia, proclamando com entusiasmo o fato de estarem procurando por ela o tempo todo.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés

Foto: Derfotoapparat

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