A preservação do Self: A identificação de armadilhas, arapucas e iscas envenenadas

A mulher braba

Segundo o Oxford English Dictionary, a palavra  feral, em inglês, deriva do latim fer… que significa “animal selvagem”. No emprego mais comum da palavra, um animal “brabo” é aquele que um dia foi selvagem, foi depois domesticado e voltou ao estado natural ou indomado.
A mulher braba é aquela que um dia viveu num estado psíquico natural — ou seja, em perfeito estado mental selvagem — e que depois se tornou cativa de alguma reviravolta dos acontecimentos, passando, assim, a ser excessivamente domesticada e amortecida nos seus instintos próprios. Quando essa mulher tem a oportunidade de voltar à sua natureza selvagem original, quase sempre ela é vítima de todos os tipos de armadilhas e venenos.

Como seus ciclos e seus sistemas de proteção foram manipulados, ela corre riscos naquele que costumava ser seu estado selvagem natural. Já não mais alerta e desconfiada, ela se torna presa fácil.
Existe um padrão específico para a perda dos instintos. É essencial que estudemos esse modelo, que na realidade o decoremos, para que possamos proteger os tesouros das nossas naturezas básicas bem como os das nossas filhas. Nos bosques psíquicos, há muitas armadilhas enferrujadas que ficam escondidas por baixo das folhas verdes do chão da floresta. Em termos psicológicos, o mesmo vale para o mundo objetivo. Existem vários chamarizes aos quais somos suscetíveis: relacionamentos, pessoas e empreitadas tentadoras. Dentro da isca sedutora há, porém, algo afiado, algo que acabará com nosso espírito no momento em que dermos a primeira mordida.
As mulheres brabas de todas as idades, e especialmente as jovens, têm uma enorme vontade de compensar períodos de fome e de isolamento. Elas se arriscam quando fazem esforços excessivos e irracionais para se aproximar de pessoas e objetivos que não são benéficos, concretos ou duradouros. Não importa onde ou em que época elas vivam, há sempre arapucas à sua espera. Há sempre vidas menores para onde as mulheres se vêem forçadas ou atraídas.
Se você alguma vez foi capturada, se você alguma vez sofreu de  hambre del alma, uma fome da alma, se você alguma vez se sentiu num alçapão e especialmente se você tem uma compulsão a criar, é bem provável que você tenha sido ou seja uma mulher braba. A mulher braba tem em geral uma fome extrema por algo profundo e, muitas vezes, pode ingerir qualquer veneno disfarçado na ponta de uma flecha, na crença de que ele é aquilo pelo qual sua alma anseia.
Embora algumas mulheres brabas se desviem das armadilhas no último instante com mínimas perdas de pêlo, um número muito maior cai nessas armadilhas sem perceber, ficando temporariamente desorientadas, enquanto outras são alquebradas pelas armadilhas e ainda outras consigam se libertar e se arrastar dali até uma caverna para cuidar dos seus ferimentos sozinhas.
Para evitar esses ardis e engodos propiciados pelo tempo que a mulher passa no cativeiro e na fome, precisamos ter a capacidade de prevê-los e de nos desviarmos deles. Temos de voltar a desenvolver o insight e a prudência. Temos de aprender a nos desviar. Para poder distinguir as opções corretas, temos de poder ver as erradas.

Existe uma história ilustrativa contada por velhas a respeito das aflições da mulher esfaimada e braba. Ela é conhecida pelos títulos diversos de “As sapatilhas do Diabo”, “Os sapatos ardentes do Diabo” e “Os sapatinhos vermelhos”. Hans Christian Andersen escreveu um conto de fadas baseado nessa antiga história, dando-lhe este último título. Como um verdadeiro contador de histórias, ele envolveu o enredo básico com uma boa parte da sua própria inteligência e sensibilidade étnica, mas o esqueleto da história é o mesmo.
Segue-se uma versão germânico-magiar que minha tia Tereza costumava nos contar quando éramos crianças. Na sua versão da história, ela sempre começava dizendo: “Olhem para seus sapatos e agradeçam por eles serem sem graça… porque é preciso que se viva com muito cuidado quando os sapatos são vermelhos demais.”

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Bronayur

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