A perda da pele

O desenvolvimento do conhecimento, como apresentado em versões do “Barba-azul”, de “Rapunzel”, da “Parteira do Diabo”, da “Roseira Brava”, e de outros contos, resulta primeiro do fato de se estar desatenta, de ser enganada de uma forma ou de outra e, a partir daí, de reencontrar nosso acesso ao poder. O tema da captura fatal que testa a consciência e termina num conhecimento profundo é um tema recorrente nos contos de  fadas com protagonistas femininas. Tais histórias transmitem instruções profundas a todas nós a respeito do que devemos fazer se e quando formos capturadas e como podemos voltar do cativeiro com a capacidade de pasar a través del bosque como una loba, atravessar a floresta como uma loba,  con un ojo agudo, com um olhar penetrante.

“Pele de foca, pele da alma” tem um tema invertido. Os contadores de histórias chamam esses contos de “histórias às avessas”. Na maioria dos contos de fadas, um ser humano é encantado e transformado num animal. Aqui, porém, temos o oposto: um animal que é levado à vida humana. A história produz um insight na estrutura da psique feminina. A mulher-foca, à semelhança da natureza selvagem na psique das mulheres, é uma combinação mística de animal que ao mesmo tempo é capaz de viver entre os seres humanos com desembaraço.
A pele na história não é tanto um objeto mas a representação de um estado de sentimento e de um estado de ser — um estado que é coeso, profundo e que pertence à natureza feminina selvagem. Quando a mulher se encontra nesse estado, ela se sente inteiramente dona de si mesma, em vez de se sentir fora de si mesma, a se perguntar se está agindo corretamente, se está pensando certo. Embora esse estado de comunhão “consigo mesma” seja um estado com o qual ela ocasionalmente perca  contato, o tempo que ela anteriormente passou ali a sustenta enquanto ela se dedica ao seu trabalho no mundo. A volta periódica ao estado selvagem é o que reabastece suas reservas psíquicas para seus p rojetos, sua família, seus relacionamentos e sua vida criativa no mundo objetivo.
Toda mulher afastada do lar da sua alma acaba se cansando. E isso é o que deveria ocorrer mesmo. É então que ela procura sua pele de foca para revitalizar seu sentido de identidade e de alma, para restaurar seu conhecimento penetrante e oceânico. Esse vasto ciclo de idas e vindas reflete dentro da natureza instintiva das mulheres e é inato a todas as mulheres pela vida afora, desde a infância, a adolescência, o início da idade adulta quando se torna amante, quando se torna mãe, até quando se torna uma especialista, um repositório de sabedoria, uma anciã, e ainda adiante. Essas fases não seguem necessariamente uma ordem cronológica, pois algumas mulheres de meia-idade são recém-nascidas, algumas velhas são amantes ardentes e há meninas que têm grande conhecimento dos feitiços das velhas.
Muitas e muitas vezes perdemos a sensação de estarmos inteiras dentro da nossa própria pele em decorrência de fatos já mencionados bem como de  longos períodos de coação. Quem trabalha com grande esforço sem descanso também corre esse risco. A pele da alma desaparece quando não prestamos atenção ao que realmente estamos fazendo e, especialmente, ao custo disso para nós.
Perdemos a pele da alma quando ficamos muito envolvidas com o ego, quando nos tornamos por demais exigentes, perfeccionistas, quando nos martirizamos desnecessariamente, somos dominadas por uma ambição cega ou quando nos sentimos insatisfeitas — com o próprio self, com a família, a comunidade, a cultura, o mundo  — e não fazemos nem dizemos nada a respeito disso; também quando fingimos ser uma fonte ilimitada para os outros e quando não fazemos o possível para nos ajudar. Ora, existem tantos modos para se perder a pele da alma quantas  são as mulheres do mundo.
O único meio de permanecer agarrada a essa essencial pele da alma consiste em manter uma conscientização delicadamente imaculada a respeito dos seus valores e utilidades. No entanto, como ninguém consegue manter permanentemente uma conscientização aguçada, ninguém consegue permanecer com a pele da alma a todo momento do dia e da noite. Podemos, porém, restringir os furtos a um mínimo.
Podemos desenvolver aquele  ojo agudo, olhar penetrante que observa as condições ao nosso redor e  vigia nosso território psíquico de acordo com essas condições. A história da “Pele de foca, pele da alma” trata, porém, de um exemplo do que poderíamos chamar de roubo com agravante. Esse grande roubo pode, com a conscientização, ser abrandado no futuro se  prestarmos atenção aos nossos ciclos e à voz que nos chama de volta a casa.
Todas as criaturas do planeta voltam para casa. É uma ironia que nós tenhamos construído santuários para a íbis, o pelicano, a garça-real, o lobo, o grou, o cervo, o camundongo, o  alce e o urso, mas não para nós mesmos, nos lugares em que vivemos nosso dia-a-dia. Nós compreendemos que a perda do  habitat é o acontecimento mais desastroso que pode se abater sobre um ser livre. Apontamos com veemência como os territórios naturais de outras criaturas foram cercados por cidades, fazendas, rodovias, barulho e outras incongruências, como se nós mesmos não estivéssemos cercados pêlos mesmos problemas, como se não fôssemos afetados do mesmo modo. Sabemos que para que os animais continuem a vi ver, eles precisam pelo menos de vez em quando de um lar, um lugar em que se sintam protegidos e livres.
Faz parte da nossa tradição compensar a perda de um  habitat mais sereno tirando férias ou dias de folga, o que supostamente representaria dar prazer ao  próprio self, só que freqüentemente as férias são qualquer coisa menos isso. Podemos compensar nossa dissonância rotineira reduzindo as atividades que nos fazem retesar nossos deltóides e trapézios, transformando-os em nós dolorosos. E tudo isso é muito bom, mas para a psique-self-alma, as férias não equivalem ao santuário. “Tempo de folga” ou “de licença” não equivale a voltar para casa. A tranqüilidade não é o mesmo que a solidão.
Para começar, podemos conter essa perda de alma mantendo-nos próximas à pele. Constato, por exemplo, nas mulheres talentosas da minha experiência clínica que o roubo da pele da alma pode decorrer de relacionamentos com pessoas que não estão elas mesmas dentro das suas peles de direito, e de relacionamentos que são decididamente  venenosos. São necessárias força e determinação para superar tais relacionamentos, mas é algo que pode ser feito, especialmente se, como ocorre na história, a pessoa der ouvidos à voz que chama de casa e voltar ao âmago do self onde o conhecimento imediato é pleno e acessível. A partir daí, a mulher pode decidir com clarividência o que é que ela precisa ter e o que é que ela quer fazer.
O grave roubo da pele da foca também ocorre com muito maior sutileza através da apropriação indevida do tempo e dos recursos de uma mulher. O mundo anseia pelo consolo, pelos quadris e seios das mulheres. Ele clama com milhares de mãos, milhões de vozes, acenando para nós, puxando-nos e nos beliscando, à procura da nossa atenção. Às vezes a impressão que temos é a de que, para qualquer lado que nos voltemos, haverá algo ou alguém que precisa, quer, deseja. Algumas pessoas, questões e objetos do mundo são atraentes e charmosos; outros podem ser exigentes e raivosos; e ainda outros parecem indefesos ao ponto de partir o coração, tanto que, mesmo contra nossa vontade, a compaixão se derrama e nosso leite escorre pelo nosso ventre. No entanto, a não ser que se trate de uma questão de vida ou morte, reserve algum tempo, crie o tempo suficiente para “vestir o sutiã de lata”. Pare de ser a mãezona do mundo. Dedique-se à tarefa de voltar para casa.
Embora saibamos que a pele pode ser perdida com um amor frustrante e devastador, ela também pode ser perdida com um amor certo e profundo. Não é exatamente o fato de uma pessoa ou coisa ser certa ou errada que provoca o roubo da pele da alma, mas seu custo para nós. Trata-se, sim, do que ela nos custa em tempo, energia, observação, atenção, indecisão, sugestões, instruções, ensinamentos, treinos.
Esses movimentos da psique são como saques em  dinheiro de uma caderneta de poupança psíquica. A questão não está nos próprios saques de energia, pois eles são importantes para o toma-lá-dá-cá da vida. No entanto, é a existência de um  saque a descoberto que provoca a perda da pele e o embotamento e enfraquecimento dos nossos instintos mais aguçados. É a falta de novos depósitos de energia, conhecimento, reconhecimento, idéias e animação que faz com que a mulher sinta estar morrendo em termos psíquicos.
Na história, quando a jovem mulher-foca perde sua pele, ela está envolvida numa bela ocupação, está dedicada à liberdade. Ela dança e dança, sem prestar atenção ao que está ocorrendo ao seu redor. Quando estamos na nossa natureza selvagem de direito, todas nós sentimos essa vida luminosa. Ela é um dos sinais de que estamos próximas à Mulher Selvagem. Todas nós entramos no mundo, dançando. Sempre começamos com nossas peles intactas. Contudo, pelo menos até que nos conscientizemos melhor, todas nós passamos por esse estágio no processo de individuação. Todas  nós nadamos até o rochedo, dançamos e não prestamos atenção. É aí que o aspecto mais trapaceiro da psique cai sobre nós, e em algum ponto da estrada nós de repente procuramos e não conseguimos mais encontrar aquilo que nos pertence e a que pertencemos. Falta-nos, misteriosamente, nosso sentido de alma e, ainda pior, ele está escondido. Por isso,  vagueamos por aí parcialmente atordoadas. Não é bom tomar decisões quando estamos atordoadas, mas é isso o que fazemos.
Sabemos que as más decisões ocorrem de inúmeras formas. Uma mulher casa-se cedo demais. Outra engravida muito jovem. Ainda outra fica com um parceiro errado. Outra renuncia à sua arte para “ter coisas”. Outra se vê seduzida por uma série de ilusões; outra, por promessas; outra, por “ser boazinha” demais e não ter alma suficiente; ainda outra, por ser visionária ao extremo e lhe faltar os “pés no chão”. E nos casos em que a mulher vive só com metade da pele da alma, não é necessariamente porque suas decisões estão erradas mas porque ela se mantém afastada do seu lar espiritual por muito tempo, começa a se ressecar e é de ínfima utilidade para qualquer um, menos ainda para si mesma. Existem centenas de meios para se perder a pele da alma.
Se mergulharmos no símbolo da pele animal, descobriremos que em todos os animais, incluindo-se o ser humano, o eriçamento dos pêlos ocorre como reação a coisas vistas bem como a coisas pressentidas. O eriçamento do pêlo transmite um “frio” a toda a criatura, despertando nela a suspeita, a precaução e outros sinais de defesa. Em meio ao povo  inuit, diz-se que tanto os pêlos quanto as penas têm a capacidade de ver o que acontece à distância, e é por isso que um angakok, um xamã, usa muitos pêlos e muitas penas, de modo a ter centenas de olhos para melhor examinar os mistérios. A pele da foca é um símbolo da alma que não só fornece calor, mas que também, com a sua visão, representa um sistema de alerta antecipado.
Nas culturas dedicadas à caça, a pele equivale ao alimento enquanto importantíssimo fator de sobrevivência. Ela  é usada para fazer botas, para forrar parkas, para a impermeabilização a fim de manter o rosto e os pulsos livres do gelo acumulado. A pele mantém as criancinhas secas e em segurança, protege e aquece partes vulneráveis do corpo humano, o ventre, as costas, os pés, as mãos e a cabeça. A perda da pele significa a perda da nossa proteção, do nosso calor, do nosso sistema de alerta antecipado, da nossa visão instintiva. Sob o aspecto psicológico, o fato de estar sem a pele faz com que a mulher aja como acha que deveria agir, não da forma que ela realmente deseja. Isso faz com que ela acompanhe quem quer que lhe dê a impressão de ser mais forte  — quer seja benéfico para ela, quer não. Nesse caso, ela salta demais e olha de menos. Ela brinca em vez de ser direta. Não dá importância às coisas. Deixa tudo para depois. Ela se recusa a dar o próximo passo, a empreender a descida necessária e a se manter ali o tempo suficiente para que algo aconteça.
Portanto, podemos ver que, num mundo que valoriza mulheres teleguiadas que não sabem parar, o roubo da pele da alma é muito fácil, tanto assim que o primeiro roubo acontece em algum ponto entre as idades de sete e dezoito anos. A essa altura, a maioria das mocinhas já terá começado a dançar na rocha no mar. A essa altura, a maioria terá procurado pela sua pele da alma, mas sem encontrá-la no lugar onde a havia deixado. E, embora isso a princípio pareça ter a intenção de causar o desenvolvimento de uma estrutura medial na psique — ou seja, de uma capacidade para aprender a viver no mundo do espírito bem como na realidade concreta — com grande freqüência esse resultado não se realiza, como também não se realiza o restante da experiência de iniciação, e a mulher vagueia pela vida sem sua pele.
Mesmo que tenhamos tentado impedir  uma reincidência do roubo praticamente nos costurando à nossa pele da alma, são pouquíssimas as mulheres que atingem a maioridade com mais do que alguns tufos da pele original intactos.
Deixamos de lado nossas peles quando dançamos. Aprendemos o mundo, mas perdemos nossa pele. Descobrimos que, sem nossas peles, começamos lentamente a definhar. Como a maioria das mulheres foi educada de modo a suportar esse tipo de  estado com estoicismo, como suas mães suportaram antes delas, ninguém percebe que algo esteja definhando, até que um dia…
Quando somos jovens e a vida da nossa alma entra em colisão com os desejos e exigências da cultura e do mundo, nós realmente nos sentimos perdidas, longe de casa. No entanto, na idade adulta, continuamos a nos empurrar cada vez mais para longe de casa, em conseqüência das nossas próprias opções sobre quem, o quê, onde e por quanto tempo. Se nunca nos ensinaram a voltar ao lar profundo da nossa infância, nós repetimos ad infinitum o modelo de “ser roubada e vaguear perdida por aí”. Entretanto, mesmo que nossas próprias escolhas infelizes nos tenham desviado do curso — para muito longe do que precisamos — não vamos perder a fé, porque no interior da alma está o dispositivo de orientação de retorno. Todas nós podemos encontrar nosso caminho de volta.

Mulheres Que Correm Com Lobos, por Clarissa Pínkola Estés.

Foto: Phooky

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