Morte na Califórnia

Pois é, querido leitor… o título é propositalmente cunhado para conferir uma atmosfera agathachristiana mesmo. 

Perdão pelo neologismo aparentemente forçado que deve ser explicado para quem não sabe, pois imagino que exista quem não a conheça : Agatha Christie foi uma escritora inglesa nascida no final do século XIX que só escreveu sobre mortes suspeitas de terem sido criminosas. E os títulos de seus livros são assim, simples e contundentes, como “Morte no Nilo”; “Um Corpo na Biblioteca”; “Morte nas Nuvens”.

Vale a vida ler toda a sua obra sobre mortes.

O fato é que eu, que sempre fiz piadinhas com a morte, estou ainda atônita pela cara crua que a vida me mostrou, coisa que a gente nunca imagina, embora saiba que exista: a mãe que falece. Sim, minha mãe foi-se embora da Terra recentemente, inesperadamente, dolorosamente, inacreditavelmente…e essa morte faz parte da vida que ela teve.

Eu, como sua filha escritora, o que mais posso fazer para lidar com a tristura do luto é exatamente o que sei melhor: escrever.

Assim, escrevo. Escrevo porque estou sofrendo o luto da perda de minha mãe. Escrevo porque este luto se dá nos Estados Unidos, um país emprestado. Escrevo porque procuro intelectualmente, na compaixão que as palavras guardam por mim, acalentar os sentimentos estranhos e estrangeiros que me acometem em cada dia.   

Destarte, distante espacialmente da minha cultura-mãe e apartada dimensionalmente da minha própria mãe, preciso, neste momento, descomplexificar um pouco o que sinto, pois necessito contar com o suporte de amigos e serviços de apoio americanos para lidar com a tristeza, o pesar e a própria concepção da morte sob o sentido que esta assume aqui, nessas paragens, ainda bastante estrangeiras para mim.

Com efeito, quando experienciei a morte de minha avó no Brasil, há 8 anos, o que lá senti e vivi difere terminantemente do que experiencio aqui nos Estados Unidos desta feita, com minha mãe e sua recente partida para o mundo invisível aos olhos de muitos.

Existe um aspecto da minha dolorosa experiência, que considero modificada pela atual convivência com a cultura americana, qual seja: minha concepção prática da morte.

Leitor amado, a morte chega mesmo e muitas vezes de repente. Quando você pensa no que poderia ter dito, no que poderia ter feito, simplesmente a pessoa que você ama não existe mais. Sim, sabemos que ela continua a existir…mas agora de forma silenciosa, de abraços de nuvens e risadas de ar transparente.

A MORTE 

Para mim, a morte não é prática, mas sim um oco profundo. Caio continuamente em seu abismo silencioso, solitário e soturno. Não existe o anedótico nesse ponto em que me encontro.

Pois sim, a morte é cômica muitas vezes, é drama, é exagero…é piada pronta, é ameaça, é retorno de novo à vida, no caso das experiências dos que voltaram para contar sobre o mistério que reina no outro lado do véu. No entanto, em todos os seus sentidos, nunca nos acostumamos com a sua prática, o acabado e o ser depois. 

Só que agora que o silêncio da morte aprofundou-se em mim, consigo perceber outros movimentos em seu ideário.

Aqui em Marin County, região norte da Baía de São Francisco, a morte parece ser algo a ser planejado, especialmente quando o indivíduo já alcança uma certa idade e demonstra problemas de saúde, como era o caso de minha mãe. 

Morando em uma região de natureza e pessoas abastadas, noto as famílias fazerem arranjos para que seus entes queridos contem com a assistência 24 horas das clínicas regionais, cujos serviços oferecidos compreendem a contratação de cuidadores profissionais para ajuda em casa ou a transferência do amado parente para o local de assistência enquanto os familiares trabalham ou mesmo para que lá eles residam de forma permanente, já que aqui é incomum encontrar pais idosos morando com seus filhos.

Assim, morrer na Califórnia parece-me algo realmente esperado e planejado.

Talvez seja a minha visão brasileira emotiva, que conta com um certo medo ou pesar pela morte a verdadeira razão de eu nunca ter olhado essa morte prática de perto. Confesso que, em meus últimos momentos decisórios com a saúde de minha mãe, conjecturar a possibilidade de seu falecimento em meio àquela crise foi-me simplesmente impossível. Mesmo diante da probabilidade fatal, ali encarnada em dois AVCs seguidos de complicações cardíacas, não aflorou um lado prático e nem me indaguei…e depois?

Meus sentimentos e pensamentos em uníssono estimavam a sua melhora… e eis o oco da adversidade. Em meu então universo, não havia “ou”…ou qualquer outra conjunção adversativa, ou uma diversa possibilidade do que o simples soco da passagem. 

E eis que veio o golpe com meu irmão vocalizando “mamãe faleceu” três vezes, e então o silêncio. E o mundo para mim se fez num oco suspenso e silencioso.

DESFECHO?

Sim, muito embora a morte em si certamente já seria o desfecho final. Isso, se não houvesse seu aspecto prático, sobre o qual nunca havia pensado.

Acabei percebendo que a convivência há 5 anos com os californianos veio influenciando desacauteladamente meu jeito de encarara vida e a morte, por consequência.  

Minhas escolhas em relação aos procedimentos funerários para os despojos mortais de mamãe que foram implementados no Brasil tenderam muito ao formato americano de tratar a morte e a nós, seus enlutados. 

Poderia definir o tratamento americano com a dor da perda como um tanto mais contido, mais pé na Terra, com perdão do trocadilho, pois para eles a probabilidade de existir o amanhã parece ser planejada também com antecedência para que não se produza mais luto do que o estritamente necessário para os que ficaram. 

Assim, aos moldes americanos, optamos por uma simples e intimista cerimônia de cremação para que filhos e agregados expressassem suas nunca em vida ditas, sequer pensadas, despedidas. 

E no retorno aos meus dias, minha vida segue claudicante, com o sonho de ser programada diferentemente, mas ainda perdida nos solilóquios do escuro irracional da minha brasilidade.

Flávia Criss,

San Francisco Bay Area.

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