O feminino divino

Nas verdadeiras escolas ocultistas, o feminino não era sobrepujado pelo masculino ou vice-versa. Na verdade, a progressão só era possível quando a pessoa compreendia as duas energias do indivíduo e trabalhava com ambas.

Como seres feitos à imagem de Deus, temos, dentro de nós, todas as características da totalidade. A totalidade abrange a energia masculina e a feminina como forças criativas dentro do Espírito. Até mesmo quando encarnamos como homens ou mulheres a fim de cumprir as leis da criatividade no plano físico somos, em essência, as duas coisas. Como dizia São Paulo, “em Cristo não há masculino ou feminino”. O sexo é apenas a expressão física da polaridade; as energias são femininas ou masculinas em muitos níveis não visíveis, como o pensamento e o sentimento. Mas no nosso estado de vigília — o nível da consciência cristã — estamos equilibrados além da dualidade e somos capazes de empregar à vontade tanto a energia masculina como a feminina.

Os taoístas descrevem os movimentos dentro da totalidade como Yin (feminino) e Yang (masculino). Um está sempre em vias de transformar-se no outro. Não somos um ou outro; ao contrário, somos ambos. O yin e o yang são movimentos de energia, não identidades. Posso ser emocionalmente yin no relacionamento com uma pessoa ou situação e muito yang no relacionamento com outra. Meu corpo pode ser yin, mas outros aspectos de minha personalidade podem ser muito yang. Ficamos seriamente desequilibrados quando tentamos polarizar o movimento livre dessas energias para a estabilidade. Fazemos isso quando dizemos: “Esta é uma mulher; portanto, um ser yin e passivo” ou “Este é um homem; portanto, um ser yang e positivo.” A pessoa toda é ao mesmo tempo passiva e positiva, abrangente e específica, receptora e doadora.
Na concepção, cada um de nós começa a reinterpretar todo o drama evolutivo da nossa espécie. Em eras passadas, vivíamos despreocupados num paraíso primordial, sem nenhuma dualidade, nenhuma identidade individualizada, nenhuma separação em relação à Fonte. Com o dom da vontade divina, optamos pela existência no plano terrestre e nos individualizamos. Comemos da Árvore do Bem e do Mal e aprendemos o que é dualidade e separação.
Revivemos a unidade-primordial durante as primeiras semanas que se seguem à concepção. É apenas na quinta semana, com o concurso dos hormônios, que aparece a diferenciação sexual no zigoto. Antes disso, todos os zigotos são “femininos”. A divisão da totalidade, a separação de masculino e feminino dentro de nós começa no ventre materno. Nós ansiamos pela outra metade de nós mesmos.
Ansiamos pela ligação espiritual, pela consciência do Cristo, que irá restaurar a totalidade além da dualidade. Até restaurarmos essa conexão interior, projetamos esse anseio para fora, para nossas sociedades, conferindo autoridade, primeiro a uma polaridade, depois à outra.

Quando éramos um povo matriarcal, vivíamos na consciência tribal da unidade e da conexão com a Terra. Essa era a época da Grande Deusa Mãe, o princípio de conexão, de síntese.
A etapa seguinte na nossa evolução psicoespiritual é aprender mais a respeito da nossa singularidade como indivíduos; por isso começamos a explorar o princípio masculino. Assim como o bebê em crescimento que consegue reconhecer que é um ser único, separado da mãe, começamos a nos ver, e ao mundo, como algo feito de coisas distintas e separadas. Aprendemos a identificar, a catalogar, a examinar.

Nossas ciências e indústrias nasceram da nossa perspectiva masculina. Porém, no desenvolvimento do nosso impulso masculino, perdemos, como espécie, a noção daquilo que essas “coisas” individualizadas tinham que ver umas com as outras.
Perdemos a noção do relacionamento, do parentesco. Enquanto o masculino está ocupado, identificando e catalogando, o feminino está preocupado em querer saber como tudo se relaciona. O masculino traz o conhecimento para o mundo; mas, sem a sabedoria do feminino para guiar o uso desse conhecimento, ele se torna perigoso e sem relação com o bem do todo.

Quando os aspectos masculinos da nossa natureza começaram a dominar, eles eram acompanhados por um medo crescente do feminino. Talvez um pouco desse medo se deva a uma ameaça primordial à individualidade, o medo de sermos absorvidos de volta ao ventre materno. Muitos de nossos mitos globais dos últimos três mil anos refletem esse medo do feminino, sendo que esses mitos foram manifestados em termos relativos à sexualidade humana. Nos primeiros anos da Igreja cristã organizada, construída sobre bases judaicas, o aspecto feminino de Deus ficou praticamente esquecido. Apenas no quinto século depois de Cristo é que a Virgem Maria recebeu um lugar de honra na hierarquia da Igreja. É provável que tenha havido muita pressão acumulando-se entre a população e que tenha sido necessário externar e equilibrar as energias da Mãe Divina interior. As pessoas estavam começando a voltar novamente para os templos das antigas deusas. Por isso, a Igreja acabou com os ícones, os templos e os títulos das antigas deusas “pagãs” e atribuiu-os a Maria, muitas vezes mudando apenas o nome.

Nos tempos antigos, entendíamos a Terra como nossa Mãe. Mas, à medida que o nosso conhecimento científico aumentou, ingenuamente começamos a pensar que poderíamos conquistá-la para os nossos próprios fins. Essa consciência patriarcal desequilibrada começou a considerar a Grande Mãe como a força que mantinha o nosso espírito aprisionado pela carne, separando-nos do Deus Pai. Nós A culpamos pela Queda, e Suas filhas de carne e osso na Terra começaram a ser encaradas como armadilhas potencialmente perigosas para o espírito masculino que busca a união com o Pai Celestial.
A luta para equilibrar nossa natureza dual de carne e espírito foi narrada em mitos e alegorias em todo o mundo. Esses mitos são realmente a respeito de uma pessoa — o Homem, a Mulher. As batalhas e triunfos contam-nos sobre as lutas do homem interior e da mulher interior, primeiro para descobrir nossas próprias identidades, depois para vencer o inimigo das  ilusões interiores e, finalmente, para celebrar o conúbio dessas duas energias duais. Infelizmente, na época em que esses ensinamentos através de alegorias foram se tornando acessíveis ao povo, os princípios universais que eles transmitiam haviam se perdido ou haviam sido distorcidos.
A orientação interior me disse certa vez que “apenas uma virgem pode dar à luz o Cristo” — afirmação essa que deixaria a maioria de nós bem para trás, se fosse interpretada literalmente. Mas, quando entendemos que a alma tem sido tradicionalmente retratada nas simbologias do mundo como feminina, a afirmação assume um novo significado. É a alma feminina dentro de nós, o princípio receptivo, que deve ser purificado no seu desejo de receber, antes que possa ser locupletado pelo Cristo Universal.

As teologias apoiadas na interpretação literal de alegorias foram então primorosamente racionalizadas e programadas para um sacerdócio que, por sua vez, mantinha-as junto ao povo como a palavra sagrada de Deus. Exemplo característico: Adão e Eva.

Certa feita, uma mulher que freqüentava um curso que eu estava ministrando sobre o feminino chegou à classe tão perturbada que levou vários minutos para se tornar suficientemente coerente e contar a seguinte história: Ela e o marido tinham passado por sérios problemas no casamento e por isso ela consultou seu pastor, ministro numa igreja de linha cristã, muito grande e próspera. O comentário final que ele fez foi que ela estava “partilhando o ônus da culpa de Eva”. Tal história nem valeria a pena ser contada se não fosse repetida tantas vezes de um modo ou de outro.
Muitos símbolos das antigas alegorias — assim como a serpente, que tem significado simbólico profundo relacionado com a sabedoria e a cura na jornada pessoal da transformação — também vêm sendo distorcidos, e essas distorções têm sido repetidas com tanta freqüência que acabam se mascarando como poderosas verdades no inconsciente coletivo. A serpente até hoje aparece em anúncios de perfume e roupa íntima, reforçando sutilmente a velha imagem da mulher como sedutora; mas essa imagem representa algo mais do que apenas a tentação sexual.
Aos olhos patriarcais, a mulher representa o anseio de abandonar o paraíso pela atração da Terra. Ela é a tentadora arquetípica que afasta o homem de sua busca espiritual. É a irmã das sereias de Ulisses, a Rainha da Noite de Mozart, o Anjo Azul, a Rusaka russa que arrasta os homens imprudentes para sua morada dentro das águas e se faz presente em centenas de histórias semelhantes no mundo todo.
Jovenzinhas virginais que mantêm “perigosas” ligações mediúnicas com as forças naturais são periodicamente transportadas para fora do inconsciente coletivo e atraídas para enredos cinematográficos. Há, por exemplo, Carrie com seu poder incendiário; Jennifer e sua capacidade de conjurar serpentes quando fica zangada; e Regan, a possessa de O Exorcista. Esses arquétipos não estão muito distantes das contraposições medievais, pois não foi só o folclore que conseguiu transmitir que as mulheres eram sujeitas à possessão demoníaca; foram também os ensinamentos da Igreja. E isso levou à obsessão da caça às bruxas do século XIV ao século XVI, durante os quais literalmente milhões de mulheres foram mortas.

É demasiado complexo para o âmbito deste livro discutir os muitos indícios do fim do reinado exclusivo do patriarcado. Há muitos livros excelentes a esse respeito cuja leitura eu recomendaria a qualquer estudioso espiritualista. Vários deles foram incluídos na bibliografia que se encontra no fim deste livro. Mas eu realmente gostaria de contar algo a respeito de uma visão interior que recebi em Espírito. Foi mostrado a mim que, nos domínios físico, emocional e mental, temos criado coletivamente formas-pensamento muito densas e escuras que impedem que uma alma num corpo feminino busque a auto-realização. Naturalmente, há almas que se viram livres dessas formas-pensamento, mas a maioria não escapou. Quando uma alma num corpo feminino ansiava pela união dentro da totalidade do eu, era-lhe permitido chegar exatamente até esse ponto, porém, não mais adiante. Quando ela se deparava com aqueles impedimentos obscuros e difundidos em toda parte — os quais ultrapassam de longe as meras regras e regulamentos e fazem parte do próprio ar que respiramos — era possível que cedesse à frustração. Freqüentemente, ela preferia ligar-se a um homem, pois os homens têm permissão para vivenciar o estado cristianizado. Talvez ela conseguisse obter um gostinho substitutivo da totalidade espiritual. A mensagem continuou dizendo que essas formas-pensamento devem ser dissolvidas agora, porque, enquanto permanecem intactas, nenhuma de nós pode entrar na próxima etapa da nossa evolução. Também me foi dito que milhares de almas que possuíam muito treino espiritual em encarnações anteriores agora estão preferindo encarnar em corpos femininos, particularmente no Ocidente. Elas estão fazendo isso não só para prosseguir no seu próprio desenvolvimento, mas para participar da destruição das antigas formas-pensamento para nós todos.
Como não só se permite mas também se estimula que as mulheres (o símbolo terrestre da Mãe) procurem auto-realizar-se,  como elas são aceitas para exercer a função de professoras e líderes lado a lado com os homens, teremos novos modelos de totalidade que nos ajudarão a nos libertar da tirania da polarização. Contudo, também não podemos nos voltar inteiramente para a direção oposta, pois o nosso objetivo é a totalidade. Polarizar em direção à Mãe com a exclusão do Pai é perder o alvo, tanto como na situação contrária. Mas, antes que possamos sintetizar e integrar a totalidade, temos de recuperar e remediar o que foi perdido. Essa cura é uma das iniciações mais importantes que faremos coletivamente nas próximas décadas.
A repressão da Mãe Divina nos últimos trezentos anos acarretou o aparecimento de um eu dividido num mundo  dividido. Toda vida provém do ventre materno, e toda vida retorna à Mãe para ser reciclada. É Ela que nos mostra a nossa conexão com a vida em todas as formas. E também é Ela que impõe disciplina e que nos mostra o preço da nossa arrogância na tentativa de conquistar a natureza e abusar das formas de vida na Terra. Não é apenas deselegante enganar a Mãe Natureza; é fatal também.
O Céu e a Terra só podem se encontrar no Espírito, que une a Mãe Divina e o Pai Divino. Quando não honramos os dois, ficamos totalmente desequilibrados e solitários em relação à nossa outra metade. A repressão, o ódio, o ressentimento e o medo do “outro” têm sua raiz no medo que sentimos do outro dentro de nós mesmos.
O medo fica encurralado nos becos sem saída do corpo, das emoções e da mente. O treinamento psicoespiritual trata de limpar esses becos sem saída, de modo que nossas energias possam seguir seu curso natural em direção à união.
Vivenciamos o enlace interior, o “casamento místico”, quando as energias masculinas e femininas dentro de nós são, em primeiro lugar, reivindicadas e depois purificadas de todas as distorções e, finalmente, fundidas na totalidade. Os textos de Ioga, a Cabala, a Bíblia, o Bhagavad Gita, o I Ching e o Taro — são todos métodos de ensino que nos ajudam a equilibrar o nosso eu dividido. O Cristo Universal nasce dessa união.

As 7 Etapas de Uma Transformação Consciente, p. 59.

Foto: Kathy Crabbe

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